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Lula x Flávio: o que defendem sobre terras raras, energia e indústria automotiva

Quem assumir a Presidência em 2027 herdará decisões fundamentais sobre importantes questões estratégicas, como mostrou o InvestNews na série especial Desafios do Brasil.

São temas para os quais as propostas diferenciam o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que se enfrentam neste domingo (25) no segundo turno: o papel da exploração do petróleo na matriz energética, a indústria automotiva nacional diante da invasão de marcas chinesas em sua maioria importadas e o plano para exploração e geração de valor em cima das chamadas terras raras, que entraram na disputa entre Estados Unidos e China.

O InvestNews analisou as propostas de campanha e as declarações dos dois candidatos e resume a seguir o que defendem ou pensam a respeito.

Os programas convergem em geral em um ponto: a defesa de processar minerais no país em vez de exportar matéria-prima bruta. As diferenças aparecem no papel do Estado, da Petrobras e do capital estrangeiro. 

Candidato à reeleição, Lula pode apontar medidas já adotadas. Flávio responde pelo programa e pelo que disse na campanha.

Indústria automotiva e a ascensão chinesa

O setor vive um ano de alta. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) projeta 3,1 milhões de veículos vendidos em 2026, patamar não visto desde 2014, e produção 6,7% maior. 

Das 173 mil unidades produzidas a mais de janeiro a setembro, porém, 123 mil saíram de kits importados e só 50 mil de fabricação nacional plena.

Os kits vêm da China sem usar autopeças nacionais e com pouca mão de obra local, disse o presidente da entidade, Igor Calvet, em comunicado à imprensa de 7 de outubro. As importações de veículos subiram 30,4% no ano, e os chineses já têm 11,3% do mercado.

A BYD, por exemplo, já chegou à marca de 100 mil carros em Camaçari (BA), mas ali só faz a montagem final de kits chineses, como mostrou o InvestNews. Em junho, o governo prorrogou por mais seis meses a cota que permite à firma importar até US$ 463 milhões em kits de eletrificados sem imposto.

A Anfavea acusou o governo de romper um acordo para encerrar as cotas. A isenção, porém, termina em dezembro, e em 2027 os kits passam a pagar 35% de imposto de importação. As regras seguintes, como tarifas e conteúdo local, caberão ao próximo governo.

Para Herlander Zola, presidente da Stellantis (dona de Fiat, Jeep e Peugeot) para a América do Sul, a tarifa de 35% não basta para estimular a fabricação local. Com montagem por kits, disse num encontro com jornalistas em 6 de outubro, a firma precisaria de 10% de seus 35 mil funcionários na região.

As montadoras também veem aumento de custo no fim da escala 6×1, que reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais sem corte de salário. Defendida pelo governo Lula, a emenda passou no Senado na quarta-feira (14) por 75 votos a 1, com voto favorável de Flávio, que a havia criticado nos últimos meses.

  • Indústria automotiva sob Flávio Bolsonaro

O plano de Flávio não tem proposta para o setor, mas traz medidas que podem afetá-lo. Defende abertura comercial que dê às firmas acesso a bens de capital, tecnologia e insumos importados, num ambiente de concorrência que, segundo o documento, reduz preços.

Propõe também uma nova regra fiscal para reduzir a dívida pública, com a qual promete juros menores, e limitar o crédito subsidiado com recursos do Tesouro. No transporte urbano, prevê que bancos públicos priorizem o financiamento de metrô, trens e ônibus movidos a eletricidade e biocombustíveis.

  • Indústria automotiva sob Lula

O programa de Lula também não tem seção específica sobre o setor, mas cita o país como polo de motores flex e híbridos flex e promete condições para juros menores, mantido o arcabouço fiscal. 

No governo, Lula criou em 2024 o Mover, para carros eficientes e eletrificados, com créditos de até R$ 4 bilhões em 2027 e R$ 4,1 bilhões em 2028, quando a lei expira. Nele, o Carro Sustentável zerou em 2025 o IPI de compactos nacionais menos poluentes, aos quais a Anfavea atribui 84 mil das 350 mil vendas a mais no ano. O benefício vence em dezembro.

Energia, do pré-sal à conta de luz

Royalties, dividendos da Petrobras e outras receitas do petróleo somaram cerca de 5% da arrecadação federal em 2025. O pré-sal, com 3,7 milhões de barris por dia em agosto, 82% do total, deve chegar ao pico em 2031 ou 2032, como mostrou o InvestNews.

A aposta para substituí-lo no médio prazo é a Margem Equatorial, que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte, com produção prevista para 2033, que depende de descobertas comerciais, investimentos bilionários e licenças de exploração.

Na eletricidade, 86,6% da oferta veio de fontes renováveis em 2025, e às vezes sobra energia. A sobra não baixa a conta, que paga redes, contratos antigos, usinas de reserva e os subsídios da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), de cerca de R$ 52 bilhões neste ano.

O próximo governo administrará mudanças já aprovadas, como o teto para parte desses subsídios, em 2027, e a abertura do mercado livre, que deixa o consumidor escolher o fornecedor, para residências até novembro de 2028.

Levantamento de maio da Frente Nacional dos Consumidores de Energia estima em R$ 985 bilhões, até 2050, os custos extras na conta criados por decisões do governo e do Congresso desde 2023.

  • Energia sob Flávio Bolsonaro

O plano de Flávio foca o preço ao consumidor. Propõe reduzir impostos sobre energia e combustíveis, sem dizer quais nem quanto, cortar aos poucos a CDE e os subsídios às fontes incentivadas, mantida a tarifa social, e liberar o fraturamento hidráulico (fracking) para extrair gás.

Em agosto, num podcast, prometeu acabar com o imposto de 12% sobre a exportação de petróleo bruto, criado pelo governo em março.

O documento não cita a Petrobras e propõe retomar a desestatização caso a caso, sem nomear firmas. Em vídeo de outubro, Adolfo Sachsida, um dos coordenadores do programa, afirmou que a estatal não será privatizada.

O plano promete fazer do país uma potência de biocombustíveis. Em agosto, porém, numa transmissão nas redes sociais, Flávio disse que a mistura de etanol na gasolina, elevada de 30% para 32% em julho, teria de ser discutida, e seis entidades do setor reagiram em nota.

  • Energia sob Lula

O programa de Lula dedica um capítulo à energia. Nele, prevê que a Petrobras amplie a exploração em terra e no mar, expanda o refino e volte à distribuição de combustíveis, e promete mais renováveis e baterias, troca de fósseis por biocombustíveis e avanço no ciclo do combustível nuclear. Sobre a tarifa, fala em debater o barateamento da energia, sem medida definida.

O plano credita a subvenções do governo a contenção dos combustíveis na guerra do Estreito de Ormuz e promete seguir atuando contra a volatilidade externa. 

Desde maio, o diesel recebe subvenção, hoje de R$ 2,12 por litro, renovada a cada 30 dias. Flávio acusa o governo de uso eleitoral da Petrobras e diz que o benefício acaba logo após a eleição.

Em julho, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu que não haja novos subsídios à geração de energia elétrica num eventual quarto mandato.

Minerais críticos e terras raras

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, cerca de 21 milhões de toneladas, atrás da China, mas uma só mina em produção comercial, a da Serra Verde, em Minaçu (GO), comprada em abril pela americana USA Rare Earth por cerca de US$ 2,8 bilhões e apoiada pelo governo dos EUA com ao menos US$ 1,6 bilhão. Só 25% do território tem mapeamento geológico.

A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada por Lula em 16 de setembro, depois de os candidatos entregarem seus programas ao TSE, prevê crédito fiscal de até R$ 1 bilhão por ano, de 2030 a 2034, para quem processar minerais no país, fundo garantidor com até R$ 2 bilhões da União e um conselho na Presidência que aprova projetos e analisa mudanças de controle, inclusive por estrangeiros.

  • Minerais críticos e terras raras sob Flávio Bolsonaro

O plano de Flávio tem seção própria sobre o tema. Lista lítio, nióbio, grafite, cobre, níquel, urânio e terras raras, define o Estado como regulador, não empresário, e propõe atrair capital estrangeiro, acelerar o licenciamento e fazer parcerias com todos os países, sem restrições ideológicas. Fora do documento, Flávio disse que o Brasil pode suprir os EUA de minerais críticos. 

  • Minerais críticos e terras raras sob Lula

O programa de Lula promete uma política para minerais críticos e terras raras que evite exportar matéria-prima bruta e quer fazer do Nordeste um polo de indústrias que consomem muita energia, como o processamento desses minerais. Lula já comparou as terras raras ao ouro do século 21 e defendeu processá-las no país.

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Autor: Simone Costa

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