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Para o Walmart, substituir humanos por robôs é um desafio de bilhões de dólares

Há anos, o Walmart depende de mais de 140 mil trabalhadores em seus depósitos para descarregar caminhões, movimentar paletes de mercadorias com empilhadeiras, separar e armazenar produtos em enormes estantes e, depois, fazer todo o caminho inverso para enviá-los às lojas e às casas dos consumidores.

Não é um trabalho fácil. Um funcionário pode dar 20 mil passos durante um turno. Ao mesmo tempo, a tarefa não é tão complicada — a menos que se tente programar robôs para executá-la.

Considere uma atividade aparentemente simples chamada breakpack: retirar produtos de caixas de papelão para enviá-los individualmente. Para os funcionários do Walmart, é algo trivial. Mas essa tarefa se transformou em um dos muitos obstáculos enfrentados pela firma em sua busca, iniciada há uma década e que envolve bilhões de dólares, para automatizar seus depósitos.

O Walmart e as firmas de robótica contratadas para ajudá-lo procuraram, sem sucesso, uma maneira de coordenar robôs que separassem mercadorias em compartimentos enquanto circulavam rapidamente pelos depósitos, desviando dos trabalhadores.

A firma testou tecnologias que não funcionavam ou custavam caro demais. Por fim, desenvolveu pequenos robôs sobre rodas, equipados com sensores de movimento e de obstáculos, que agora estão sendo instalados em mais de uma dezena de depósitos.

Os sistemas automatizados criaram novos postos de trabalho nos depósitos, voltados à operação de robôs e softwares.

“Estamos meio que no pico da complexidade”, disse Rob Montgomery, responsável pelas operações da cadeia de suprimentos do Walmart nos Estados Unidos, que supervisiona a transição para a automação em andamento na maior parte das cerca de 200 instalações de distribuição e logística da firma no país.

Os problemas se multiplicaram. As caixas de papelão usadas pelo Walmart há anos são grandes demais para os sistemas automatizados. Os pequenos robôs que transportam mercadorias apresentam falhas com frequência excessiva. E os sistemas não conseguem lidar com alguns produtos de grandes dimensões, como sacos enormes de ração para cães.

Segundo Montgomery, o que torna a iniciativa de automação tão complicada é o fato de o Walmart estar reformulando seus depósitos sem interromper as operações.

Muitas das maiores redes varejistas dos Estados Unidos enfrentam dificuldades semelhantes durante a transição para a automação. A pressão aumenta para elevar as vendas e entregar mercadorias nas casas dos consumidores mais rapidamente, sem gastar fortunas com a contratação de mais funcionários ou com novas instalações.

O rápido crescimento da Amazon — que está à frente de seus concorrentes do varejo na automação e superou o Walmart no início deste ano, tornando-se a maior firma dos Estados Unidos em receita anual — aumentou a urgência dessa transformação.

“Em muitos casos, os investimentos em automação são uma corrida armamentista” entre varejistas, disse Rueben Scriven, gerente sênior de pesquisa sobre automação de depósitos da firma de inteligência de mercado Interact Analysis. “E o efeito Amazon é o grande elefante na sala.”

Varejistas sem capital para investir pesadamente durante um longo período de ajustes e correções enfrentam uma desvantagem. No outono do ano passado, a rede de supermercados Kroger informou que contabilizaria uma despesa de US$ 2,6 bilhões para fechar três centros automatizados de processamento de pedidos de comércio eletrônico.

A decisão foi tomada porque a rede automatizada não atingiu as expectativas financeiras. A firma afirmou que passaria a usar suas lojas com mais frequência para atender aos pedidos on-line e concentraria esforços em iniciativas de automação que exigissem menos capital.

O Walmart espera que os gastos com reformas de lojas e implantação de automação na cadeia de suprimentos atinjam o pico neste ano e no próximo. Executivos da companhia afirmaram que, com o avanço da automação, a firma acabará precisando de menos funcionários nos depósitos. Os postos de trabalho que permanecerem deverão envolver mais atividades de operação e manutenção dos sistemas automatizados, em vez do levantamento e transporte de caixas.

Como a rotatividade é elevada nos empregos em depósitos, disseram os executivos, a automação não exigirá demissões.

“Ainda precisamos de pessoas para descarregar carretas”, afirmou Montgomery. Ele acrescentou que o crescimento das vendas pode exigir, no total, tantos trabalhadores nos depósitos quanto atualmente.

Segundo os executivos do Walmart, a automação permitirá processar mais mercadorias, com maior rapidez e precisão, reduzindo a frequência de produtos em falta nas prateleiras e os custos.

A firma imagina um cenário em que caminhões cheguem às lojas em intervalos regulares e previsíveis, carregados com paletes contendo os produtos necessários naquele momento.

As cargas seriam organizadas para que os funcionários das lojas pudessem levá-las diretamente a um único corredor, com os itens já dispostos na ordem em que devem ser colocados nas prateleiras. Isso tornaria as escalas dos funcionários mais precisas e previsíveis.

Antes disso, porém, a firma precisa resolver uma série de problemas.

Desafios técnicos

Há mais de duas décadas, o Walmart utiliza o mesmo tipo de caixa de papelão para transportar muitos produtos entre depósitos e lojas. As caixas trazem uma inscrição lembrando que custam, em média, US$ 1 para a firma e devem ser reutilizadas. Nos próximos meses, o Walmart pretende descartar todas elas.

As novas caixas são cerca de 3,8 centímetros mais baixas e precisam ser fechadas com fita adesiva, uma etapa adicional que aumentará os custos.

“É uma pequena mudança”, disse Phillip McIlrath, gerente de um depósito de roupas em Indiana que utiliza as novas caixas. “Mas, para os funcionários que fazem o trabalho aqui embaixo, isso muda bastante a rotina diária.”

Segundo Montgomery, as novas caixas reduzirão o tempo necessário para abastecer as lojas e, consequentemente, os custos com mão de obra.

A cadeia de suprimentos do Walmart abastece 5.200 lojas nos Estados Unidos, que vendem de alimentos e roupas a pneus, tanto nas prateleiras físicas quanto pela internet.

O sistema, disse Montgomery, precisa ser capaz de “lidar com praticamente qualquer coisa que possamos colocar nele, de qualquer fornecedor e a qualquer momento. Isso tem sido um desafio”.

Muitos produtos não perecíveis vendidos nas lojas são entregues inicialmente a depósitos que consolidam os carregamentos dos fornecedores. Depois, seguem para 42 centros de distribuição. Dezenas de depósitos separados cuidam de alimentos refrigerados e congelados. Outras instalações processam muitos dos pedidos de comércio eletrônico do Walmart nos Estados Unidos, assim como os espaços de armazenamento nos fundos das lojas.

A maioria das instalações da cadeia de suprimentos do Walmart foi construída nas décadas de 1980 e 1990. Por isso, cerca de 80% dos projetos de automação envolvem a adaptação de estruturas existentes. A firma também construiu, do zero, vários novos depósitos automatizados de alimentos e de comércio eletrônico.

Diferentes sistemas automatizados são necessários para lidar com produtos distintos em cada local, muitas vezes desenvolvidos por firmas diferentes. Um sistema foi projetado para movimentar caixas completas de mercadorias enviadas pelos fornecedores ao Walmart; outro separa produtos individuais de suas caixas de transporte. Há ainda sistemas específicos para alimentos frescos e congelados e para pedidos on-line.

O Walmart começou a testar versões desses sistemas há mais de dez anos, muitas vezes em um depósito de aproximadamente 149 mil metros quadrados em Brooksville, na Flórida, que processa produtos não perecíveis. Os sistemas são fabricados pela Symbotic, com sede em Wilmington, Massachusetts, na qual o Walmart detém participação de 12,6%.

O Walmart e a Symbotic tiveram dificuldades para desenvolver um sistema que funcionasse bem o suficiente para ser instalado em outras unidades. Em 2019, retiraram uma versão do sistema de Brooksville e reconstruíram tudo do zero.

Em 2022, a Symbotic anunciou um acordo com o Walmart para expandir seus sistemas a todos os 42 depósitos de produtos não perecíveis até aproximadamente 2030.

O sistema armazena mercadorias em estruturas metálicas abertas que vão do chão ao teto. Robôs transportam os produtos entre as áreas de descarga de caminhões e as estantes de armazenamento. Outros robôs, equipados com braços mecânicos, montam paletes de cerca de três metros de altura, que são carregados em caminhões com destino às lojas.

Para a Symbotic, cumprir as metas do Walmart tem sido difícil, principalmente em relação à chamada throughput, ou capacidade de processamento: a velocidade com que as mercadorias passam pelo sistema, segundo pessoas familiarizadas com a situação.

A Symbotic monitora o desempenho dos equipamentos em um painel eletrônico na sede da firma, em Massachusetts, na tentativa de identificar e resolver problemas rapidamente.

“Automatizar os depósitos do Walmart exige tempo, trabalho árduo e uma parceria sólida, baseada na confiança”, disse o presidente-executivo da Symbotic, Rick Cohen, em comunicado enviado por e-mail.

Problemas com os robôs

Um dos problemas persistentes é a frequência com que os robôs da Symbotic, responsáveis por movimentar os produtos, quebram ou precisam de manutenção. Os equipamentos podem ser prejudicados por algo tão simples quanto o acúmulo de poeira. As interrupções também podem desencadear uma sequência de outros problemas, segundo pessoas familiarizadas com a situação.

No ano passado, menos de 10% dos robôs precisavam de reparos em um determinado momento, afirmou um porta-voz da Symbotic. Nos últimos meses, esse percentual caiu para cerca de 5%, segundo ele.

Desde o início, uma das principais metas de automação do Walmart é montar paletes organizados, firmemente embalados e com os produtos na ordem exata em que deverão ser retirados nas lojas. Isso reduziria os custos com mão de obra.

O Walmart e a Symbotic ainda não atingiram esse objetivo, mas fizeram progressos, afirmaram executivos das duas firmas.

À medida que mais produtos passam pelos depósitos automatizados, a tarefa de montar paletes, semelhante a um jogo de Tetris, deverá se tornar mais precisa. Isso porque o software terá mais itens entre os quais escolher, disse Montgomery.

A automação também está elevando alguns custos. A conta mensal de eletricidade das instalações automatizadas de alimentos do Walmart pode chegar a US$ 800 mil ou mais nos meses de maior necessidade de refrigeração ou aquecimento, ante cerca de US$ 250 mil por mês quando as operações eram mais manuais, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.

Além disso, os engenheiros mecânicos e elétricos necessários para operar essas instalações custam mais do que os trabalhadores sem qualificação especializada empregados nos depósitos.

No início deste ano, o Walmart estava atrasado em relação às metas de automação anunciadas em 2023, quando investidores e jornalistas visitaram seu depósito de testes em Brooksville, na Flórida.

Na ocasião, os executivos disseram que, até o fim de janeiro deste ano, cerca de 65% das lojas seriam abastecidas por depósitos que utilizassem automação, e que 55% do volume de mercadorias processadas nos depósitos de comércio eletrônico seria automatizado.

Em agosto, o Walmart estava próximo desses objetivos: mais de 65% das lojas já recebiam parte de suas mercadorias por meio de sistemas automatizados, e mais de 50% dos estoques destinados ao comércio eletrônico passavam por sistemas desse tipo.

Brooksville está agora “praticamente totalmente automatizado”, afirmou Montgomery. Isso significa que cerca de 80% das movimentações de estoque são realizadas dessa maneira.

Os outros 20% são mais difíceis de automatizar. Produtos como televisores de tela grande e sacos gigantes de ração para cães continuarão precisando de assistência manual no futuro previsível, disse ele.

No geral, acrescentou Montgomery, a firma já domina a tecnologia necessária para automatizar suas operações.

Alguns fornecedores do Walmart precisam adaptar seus produtos para que sejam compatíveis com os sistemas automatizados.

Há alguns anos, durante os preparativos para o aumento das vendas no feriado de Ação de Graças, funcionários de um dos novos depósitos automatizados de alimentos do Walmart na Califórnia perceberam que os braços robóticos tinham dificuldade para manusear grandes perus congelados.

O Walmart pediu ao fornecedor que reforçasse as caixas de transporte. Diante de um aumento de última hora na demanda, depósitos de alimentos próximos foram utilizados para enviar perus suficientes às lojas.

No início deste ano, o Walmart passou a informar rapidamente aos fornecedores quando e como as embalagens de seus produtos causam problemas nos sistemas automatizados.

A firma ainda não encontrou a melhor maneira de automatizar os pedidos on-line preparados dentro das lojas, em vez de depósitos. Desde 2016, já investiu quase US$ 1 bilhão em tentativas de desenvolver essa solução.

Automatizar o processamento de pedidos de comércio eletrônico nas lojas é difícil porque o espaço é mais limitado. Além disso, falhas podem gerar grande frustração para os clientes, que talvez estejam esperando dentro de seus carros no estacionamento ou aguardando uma entrega em casa em um horário específico.

O Walmart implementou em 20 lojas um sistema desenvolvido pela Alert Innovation, outra firma de robótica com sede na região de Boston. Mas a Alert teve dificuldades para atingir as metas do Walmart de capacidade de processamento e outros indicadores, além de enfrentar problemas de caixa, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

Em 2023, o Walmart comprou a Alert por US$ 400 milhões.

No ano passado, o Walmart vendeu a firma à Symbotic por US$ 200 milhões, registrando prejuízo na operação.

Atualmente, a Symbotic instala uma nova versão experimental do sistema em uma loja do Walmart em Dallas e mantém em funcionamento as 19 unidades existentes. No entanto, executivos da firma disseram, em uma teleconferência recente sobre os resultados monetários, que não esperam chegar a um modelo funcional antes de 2028.

Montgomery afirmou que a liderança do Walmart espera enfrentar momentos difíceis durante o processo, mas que os principais executivos e o conselho de administração consideram a automação um projeto de longo prazo que vale a pena.

“Sabemos que, se esperarmos até que tudo esteja perfeito”, disse ele, “vai demorar demais”.

Contatos para a reportagem: Sarah Nassauer, Sarah.Nassauer@wsj.com.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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