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Acordo de China e UE sobre carros híbridos busca evitar guerra comercial

Ao concordar em conter as exportações de veículos híbridos para a União Europeia, a China aposta que pode se esquivar de restrições mais duras do bloco de 27 países. O gesto, no entanto, tem poucas perspectivas imediatas de remodelar a relação comercial global entre as duas potências.

As negociações entre Pequim e Bruxelas terminaram no final da sexta-feira com um consenso de 16 pontos que abrange comércio, investimentos, controle de exportações e direitos de propriedade intelectual.

A UE informou que a China concordou em cortar drasticamente a exportação de milhões de carros híbridos, enquanto fontes a par das conversas afirmam que o bloco pretende recorrer a medidas de salvaguarda para conter a entrada desses veículos.

Líderes da UE se reúnem nesta quinta-feira para decidir se adotam uma resposta mais enérgica à disparada das exportações chinesas, que ameaça esvaziar a indústria de transformação europeia e dizimar milhões de empregos.

Na semana passada, Alemanha e França pediram mecanismos mais rígidos, incluindo um instrumento capaz de bloquear o acesso da China ao gigantesco mercado único europeu, para proteger setores afetados pelo avanço dos produtos chineses subsidiados.

O acordo firmado na sexta-feira (9) ganha tempo para novas negociações, com ambos os lados planejando novas rodadas de conversas para janeiro e março, avalia Joe Peissel, economista-chefe da consultoria Trivium China. Em nota a clientes, Peissel classificou o resultado como uma vitória estratégica para Pequim, afirmando que a China “jogou de forma magistral”.

“Em troca de revisões, diálogo e ‘entendimentos’, a China cedeu muito pouco em relação aos fatores estruturais do enorme déficit comercial da UE”, escreveu. “Para além dos veículos e de um modesto alívio tarifário, nada no acordo de 16 pontos sugere uma reestruturação significativa dos termos comerciais da China com o bloco europeu.”

Líderes europeus buscam formas de conter a enxurrada de produtos chineses no continente, responsável por inflar o déficit comercial para mais de € 1 bilhão (US$ 1,1 bilhão) por dia. O consumo interno fraco na China tornou o país cada vez mais dependente do seu setor industrial altamente competitivo e da demanda externa para sustentar uma economia doméstica desacelerada.

O Ministério do Comércio da China declarou na sexta-feira que as duas partes reafirmaram o compromisso, como parceiros comerciais estratégicos, de gerenciar divergências de forma adequada sob as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Ambos também concordaram em manter laços econômicos e comerciais bilaterais estáveis, buscando torná-los “mais equilibrados”.

A declaração conjunta divulgada na sexta-feira apontou que os dois lados chegaram a um “entendimento sobre o comércio de veículos híbridos em conformidade com as normas da OMC”. As vendas de híbridos chineses dispararam na Europa em parte por terem escapado das tarifas impostas pelo bloco aos veículos elétricos em 2024. Em agosto, marcas chinesas já representavam cerca de 25% das vendas de híbridos no mercado europeu.

As medidas de salvaguarda planejadas pela UE costumam assumir a forma de cotas tarifárias, aplicando taxas sobre importações que excedam determinado volume para conter o fluxo excessivo. O mecanismo respeita as regras da OMC — premissa exigida tanto pela China quanto pela UE.

Embaixadores da UE informados no domingo pelo chefe de comércio do bloco, Maros Sefcovic, receberam bem o resultado geral, mas enfatizaram que veem o pacto como apenas o início de um processo para reequilibrar as relações comerciais, segundo fontes a par das conversas que falaram sob condição de anonimato. A meta é que as medidas de salvaguarda da UE entrem em vigor em 1º de dezembro.

Montadoras chinesas como a Chery Automobile aumentaram drasticamente o envio de veículos para a UE em resposta à retração no mercado doméstico. O movimento agravou a crise que assombra as rivais europeias, entre as de pior desempenho global no momento.

As vendas da Mercedes-Benz caíram 8% no terceiro trimestre, enquanto a Volkswagen reduziu sua projeção de lucro no mês passado, seguindo alerta semelhante emitido pela BMW em junho.

François Provost, presidente executivo da Renault, classificou o acordo com a China como um “marco importante” para assegurar o futuro da indústria automobilística europeia. O executivo esteve entre os líderes firmariais que se reuniram com Sefcovic antes de sua viagem a Pequim.

“Eu o havia alertado sobre a urgência de um acordo”, disse Provost em entrevista no domingo (11). “Sem isso, estaríamos caminhando para uma guerra comercial com a China, onde todos saem perdendo.”

O momento escolhido para selar o pacto “indica que a China está disposta a aliviar as tensões” antes da cúpula de líderes europeus, avalia Henry Gao, professor de direito da Universidade de Gestão de Cingapura. “Considerando os atritos comerciais contínuos com os Estados Unidos, Pequim dificilmente gostaria de uma escalada simultânea com a Europa.”

“Se a UE insistir exclusivamente em abordagens rigorosamente alinhadas à OMC, essas medidas podem não ser tão eficazes para conter a onda de exportações chinesas, como precedentes já demonstraram”, acrescentou Gao. “Remédios comerciais compatíveis com a OMC oferecem certo alívio, mas costumam ter alcance limitado e dificilmente alteram os fluxos comerciais de forma estrutural.”

França e Alemanha pressionaram a UE a investigar se importações subsidiadas estão prejudicando setores como os de produtos químicos e plásticos — investigações que poderiam resultar em mais tarifas. A proposta foi vista como uma tática de pressão sobre Pequim, alinhando o peso político da Alemanha a medidas mais duras que o país antes rejeitava.

“Os diplomatas europeus gastaram um capital político enorme para avançar no setor automotivo, e não está claro se essa mesma abordagem poderá ser simplesmente replicada em outros setores”, disse Christopher Beddor, diretor-adjunto de pesquisas sobre a China na Gavekal Dragonomics.

Pequim já havia feito alertas preventivos contra o que chamou de medidas protecionistas da UE. O domínio chinês sobre o fornecimento global de terras raras dá ao governo chinês um poderoso instrumento de dissuasão no momento em que a Europa tenta refrear as importações chinesas ao mesmo tempo em que precisa garantir matérias-primas vitais para suas fábricas.

“Barreiras e tarifas amplas provavelmente levariam a retaliações por parte de Pequim, e as autoridades chinesas têm a ‘opção nuclear’ de ameaçar a restrição das exportações de terras raras”, afirmou Beddor. “Mas, nesta fase, eles parecem mais inclinados a fechar um acordo.”

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Bloomberg

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