Aeris entra com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 1,5 bilhão
A Aeris, fabricante de pás para aerogeradores, protocolou nesta quarta-feira (4) um pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo para renegociar cerca de R$ 1,52 bilhão em dívidas. A medida foi apresentada à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da capital paulista.
O plano de reestruturação já conta com a adesão de credores que representam 42,18% dos créditos abrangidos. A firma se comprometeu a obter o apoio de titulares de mais da metade desses créditos em até 90 dias, percentual necessário para a homologação judicial do plano.
O pedido foi aprovado pelo conselho de administração da Aeris e ainda será submetido à ratificação dos acionistas, em assembleia geral extraordinária.
A recuperação extrajudicial foi negociada com os principais credores e tem como objetivo reorganizar a estrutura de capital e reduzir o endividamento da companhia, preservando a continuidade das operações.
A firma afirma que pretende manter a fabricação de pás para aerogeradores, os empregos, a arrecadação de tributos e as relações comerciais. As linhas de fornecimento necessárias à operação serão preservadas e seguirão funcionando normalmente, segundo o comunicado.
Aeris já havia renegociado dívidas em 2025
O pedido de recuperação extrajudicial é mais um capítulo da crise financeira da Aeris, que já havia passado por uma ampla renegociação de suas dívidas em 2025.
A companhia abriu capital na B3 em novembro de 2020, em meio à expansão do mercado de energia eólica. Na época, era uma das maiores fabricantes de pás para aerogeradores do mundo e detinha cerca de 69% do mercado brasileiro, considerando a carteira de projetos eólicos prevista para os anos seguintes.
Nos últimos anos, porém, a firma passou a enfrentar dificuldades com a retração da demanda por equipamentos para parques eólicos no Brasil, em um cenário de juros elevados e redução dos investimentos no setor.
A indústria também enfrenta o excesso de oferta de energia no sistema elétrico e o aumento do curtailment, nome dado aos cortes de geração determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) diante de limitações na rede de transmissão ou de excesso de oferta. A concorrência da geração solar distribuída é outro fator que pressiona a demanda por novos projetos eólicos.
Esse cenário levou a uma redução dos investimentos em geração eólica. O montante caiu quase 70% entre 2023 e 2026, de R$ 35 bilhões para cerca de R$ 10 bilhões, segundo dados citados pelo setor.
Em 2025, a Aeris renegociou suas debêntures, títulos de dívida emitidos no mercado de capitais, e empréstimos com Banco do Brasil, BV e Santander. A operação envolveu cerca de R$ 1,4 bilhão e alcançou aproximadamente 90% do endividamento total da companhia.
A reestruturação, contudo, não foi suficiente para resolver os problemas monetários. Em maio de 2025, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota da Aeris para RD(bra), classificação associada a um default restrito, ao considerar a troca de dívida uma reestruturação realizada em condições de estresse.
Dívida e condições da recuperação
O plano atual contempla créditos quirografários não correntes, ou seja, dívidas sem garantias reais ou fiduciárias que não estão relacionadas aos fornecimentos habituais de bens e serviços necessários à operação.
O montante abrangido soma R$ 1,524 bilhão, com base em 31 de outubro de 2026.
A reestruturação não inclui dívidas tributárias nem créditos trabalhistas ou decorrentes de acidentes de trabalho.
As condições financeiras da renegociação, incluindo os novos prazos de pagamento, ainda serão consolidadas em uma versão atualizada do plano, a ser negociada com os credores e submetida à Justiça.
Com o protocolo do pedido, os créditos abrangidos ficam sujeitos à suspensão prevista na legislação de recuperação de firmas.
A Aeris informou que continuará comunicando ao mercado eventuais desdobramentos relevantes do processo.
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Autor: Karla Mamona