Copom cita piora das expectativas e interrompe sequência de cortes com Selic em 13,75% ao ano
O Banco Central manteve nesta quarta-feira (4) a Selic em 13,75% ao ano. A decisão, tomada de forma unânime pelo Copom, era esperada pelo mercado e vista como uma espécie de atestado de independência. A pausa interrompe uma sequência de cinco cortes consecutivos.
O afrouxamento monetário havia começado em março, quando a taxa estava em 15% ao ano. De lá até a reunião de setembro, a última antes das eleições, o BC promoveu cinco cortes de 0,25 ponto percentual.
No comunicado divulgado após a reunião, os integrantes do Copom citaram que levaram em conta o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio, que pressiona o petróleo, a aceleração da inflação, acima do teto da meta, e o distanciamento das expectativas em relação ao objetivo.
“O contexto atual, caracterizado por taxa Selic substancialmente contracionista, aumento significativo das incertezas em torno do cenário base, expectativas de inflação mais elevadas, e desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada, apresenta um cenário desafiador para a política monetária, demandando serenidade e cautela na sua condução”, diz o texto.
O Comitê também afirmou que a decisão “é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”.
A projeção do Copom para a inflação no segundo trimestre de 2028, o chamado “horizonte relevante” da política monetária, subiu para 3,5%. Para 2026, as estimativas do comitê para o IPCA avançaram de 5,2% para 5,6% e, para 2027, de 3,9% para 4,7%.
Pressão sobre os juros
O Copom chegou à penúltima reunião do ano com o patamar restritivo dos juros no centro do debate.
Algumas lideranças do Partido dos Trabalhadores (PT) passaram a endossar a tese formulada pelo economista André Lara Resende, segundo a qual o ritmo de crescimento da dívida bruta decorre sobretudo do alto custo de financiamento do governo.
A mera possibilidade de o governo passar a considerar a proposta levou o mercado a precificar o aumento dos riscos em diferentes classes de ativos.
Os juros de longo prazo, que haviam revertido o ganho após o segundo turno, passaram a subir ainda mais. Na outra ponta, o dólar disparou e aumentou a pressão sobre o Copom, porque o câmbio pressiona os preços de importados e leva o mercado a enxergar mais inflação pela frente.
Copom na visão do mercado
O mais recente boletim Focus, do BC, que reúne projeções de instituições financeiras sobre juros, câmbio, PIB e inflação, mostrou uma piora significativa das expectativas macroeconômicas.
A mediana para o IPCA de 2027, por exemplo, subiu de 4,34% para 4,76%. No caso da Selic, o mercado agora enxerga a taxa básica em 12,50% no fim do próximo ano, contra 11,75% na visão anterior ao segundo turno.
“As perspectivas para a inflação pioraram, o real se desvalorizou em meio a uma volatilidade significativa nos preços dos ativos, a base orçamentária se deteriorou com os anúncios de novos gastos e compromissos fiscais assumidos durante a campanha presidencial, e as perspectivas de uma âncora fiscal crível no curto prazo enfraqueceram”, afirmou o Goldman Sachs em relatório assinado pelo chefe de pesquisa macroeconômica para América Latina, Alberto Ramos.
Para Gustavo Assis, CEO da Asset, o desafio vai além da política monetária. “Sem um ajuste estrutural das contas públicas, o Banco Central poderá ser obrigado a manter os juros elevados por mais tempo para compensar os riscos inflacionários e a desancoragem das expectativas”, afirma. Em outras palavras, segundo ele, “não é sustentável exigir que apenas os juros controlem os desequilíbrios econômicos”.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, vê pouca disposição do BC para antecipar novos cortes enquanto o mercado continuar exigindo prêmios de risco mais altos. “O principal ponto de atenção não é apenas o nível dos juros, mas a dificuldade de reduzi-los de maneira sustentável”, diz.
Para dezembro, o cenário mais provável é de nova manutenção, segundo Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, a menos que haja uma melhora mais clara das expectativas e do câmbio. “A pausa não significa necessariamente o fim do ciclo”, ressalta. Ele projeta a Selic perto de 12,5% e o IPCA ao redor de 4,8% no fim de 2027, em linha com o Focus.
A próxima reunião do Copom será nos dias 8 e 9 de dezembro, a última do ano.
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Autor: Paula Barra