Carros chineses desafiam Tesla em testes de direção autônoma no caos de Paris

Enfrentar o enorme cruzamento em forma de estrela que cerca o Arco do Triunfo, em Paris, está entre as experiências mais assustadoras para quem dirige na Europa.
Carros, vans, motos e caminhões disputam espaço em faixas sem demarcação, entrando e saindo de forma desordenada pelas 12 avenidas que partem da Praça Charles de Gaulle. Uma regra peculiar aumenta a confusão: quem entra na rotatória tem preferência sobre os veículos que já circulam nela.
O resultado é um emaranhado de veículos que avançam e param, encaixando a dianteira em qualquer brecha, enquanto motociclistas procuram espaços mínimos por onde passar. Um pesadelo para sistemas de direção autônoma, seria de imaginar.
Mas, a bordo de um SUV Jaecoo 7 equipado com a tecnologia de condução automatizada da startup chinesa Momenta Global, pude deixar que o carro resolvesse tudo sozinho. Ele atravessou o caos com suavidade, contornou a rotatória e pegou uma saída sem pedir intervenção humana uma única vez.
Paris pode ser um lugar especialmente difícil para testar tecnologias de assistência à condução, mas muitas cidades europeias apresentam desafios semelhantes. Ciclistas surgem do nada, faixas estão bloqueadas e as regras de trânsito podem ser mais complicadas do que os mapas sugerem.
Em percursos separados, organizados durante o Salão do Automóvel de Paris, experimentei sistemas da Tesla e da Xpeng que aguardam aprovação regulatória. Eles também fizeram boa parte do trabalho sem intervenção humana, embora cada um tivesse sua própria ideia do que significa dirigir bem.
Ao enfrentar as ruas congestionadas e os motoristas impacientes da capital francesa, pude perceber como sistemas avançados de assistência ao motorista podem tornar o trânsito urbano mais seguro e menos cansativo. Os testes também expuseram o desafio de ajustar essas tecnologias às particularidades de cada lugar.
Para marcas chinesas em expansão na Europa, como a Chery, fabricante dos carros Jaecoo, incorporar tecnologias avançadas reforça uma oferta que já combina recursos atraentes em veículos elétricos com preços acessíveis. Entre as concorrentes está a tecnologia de condução supervisionada da Tesla, que ainda aguarda aprovação na União Europeia.
No salão de Paris, a Tesla também apresentou seu robotáxi Cybercab, um sinal de como a região avança gradualmente rumo à adoção de veículos totalmente sem motorista, bem atrás dos Estados Unidos e da China.
Por enquanto, os testes estão restritos a cidades como Zagreb, capital da Croácia, onde a chinesa Pony.ai, a Uber e a Verne experimentam carros sem motorista de segurança em uma operação limitada. Em Londres e Munique, Wayve e Waymo testam veículos em condições específicas.
E como os três carros se saíram? Depois dos percursos por Paris, posso dizer que todos tiveram bom desempenho, com diferenças relevantes. Também é preciso ressaltar que os testes não foram realizados sob condições controladas e equivalentes.
Fiquei apenas oito minutos no Tesla, enquanto o percurso mais longo durou cerca de uma hora, a bordo do Jaecoo 7, em uma rota mais complexa. Os testes não permitem estabelecer um ranking, mas demonstram quantas tarefas rotineiras ao volante podem ser realizadas por máquinas, mesmo nas cidades caóticas da Europa.
Equipado com o modelo de condução R7 da Momenta, o Jaecoo enfrentou o trânsito de horário de pico no Arco do Triunfo. Completou o trajeto sem uma única intervenção. Foi impressionante, embora não tenha sido perfeito.
Diante de semáforos sem contagem regressiva, o carro às vezes freava de forma brusca. Quando outro veículo bloqueava sua faixa, desviava do obstáculo de maneira desajeitada, no último segundo.
O sistema Assisted Driving, da Tesla, teve o teste mais curto e o percurso mais fácil dos três. Ainda assim, a suavidade da condução indicou um sistema maduro, que reduziu a velocidade com bastante antecedência diante de pedestres e deu passagem a um ciclista que se aproximava por trás.
O sistema, porém, se confundiu com uma luz amarela intermitente para conversão à direita, sem reconhecer uma regra específica do trânsito francês. Em vez de avançar com cautela, freou de repente, exigindo intervenção.
O Navigation Guided Pilot, da Xpeng, foi o motorista exemplar do grupo. Enquanto o sistema da Momenta usado pela Chery permite velocidades cerca de 10% acima do limite, acompanhando o fluxo ao redor, o LO3 da Xpeng não ultrapassou o permitido por lei.

Também reduziu a velocidade nos sinais amarelos e, ao parar nos vermelhos, deixou espaço suficiente para os ciclistas. A frenagem era suave antes de uma parada mais firme. Em um túnel, deu passagem aos veículos mais rápidos e percorreu trechos em obras e rotatórias sem dificuldade.
Mas o carro testou minha paciência ao rodar abaixo do limite de 30 km/h nas ruas mais estreitas. E seguir as regras à risca nem sempre é a melhor solução quando isso significa se tornar um obstáculo lento em meio a um trânsito acelerado.
A Xpeng afirmou que pretende levar seu sistema de assistência ao motorista NGP de nova geração à Europa a partir de 2027, sujeito à aprovação regulatória. A Chery ainda não definiu um prazo e continua realizando testes e validações.
“Os únicos critérios para avaliar se um sistema de direção autônoma é bem-sucedido são sua adaptação ao ambiente local e a disposição das pessoas daquele lugar de usá-lo”, disse Liu Xianming, chefe da unidade de Inteligência Geral da Xpeng, responsável pelas tecnologias de direção autônoma.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Bloomberg
