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Consórcio, carreira e aposta: quando a conta não fecha, a história convence

Algumas decisões parecem tão boas que a gente para de fazer conta. O problema das decisões que parecem inteligentes é que elas costumam dispensar a verificação. Ao longo dos anos, observando pessoas de diferentes perfis, rendas e formações, percebo um padrão recorrente: escolhas que se apresentam como estratégicas, racionais, bem pensadas, mas que, quando examinadas com cuidado, são sustentadas menos por cálculo e mais por narrativa.

O cérebro humano evita desconforto. E, quando a matemática ameaça revelar algo indesejado, a mente oferece uma história melhor.

Um exemplo clássico aparece na escolha entre consórcio e financiamento. O discurso é conhecido: “consórcio não tem juros”, “é mais barato”, “a parcela cabe no bolso”. O que quase nunca entra na conversa é que o CET (o custo efetivo total), no caso do consórcio, descreve um cenário teórico. Ele muda quando o tempo e o dinheiro antecipado entram em jogo.

Imagine um consórcio de R$ 5 milhões, com prazo de 25 anos e CET de 6% ao ano. A parcela mensal gira em torno de R$ 31,5 mil. Até aqui, tudo parece confortável: dívida longa, custo baixo, previsibilidade.

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O ponto de inflexão vem com a antecipação. Para ser contemplada logo no início, por exemplo, a pessoa oferece um lance de 50%, algo como R$ 2,5 milhões à vista. Ainda assim, as parcelas permanecem exatamente as mesmas, sem desconto monetário proporcional.

Na prática, essa pessoa não está financiando R$ 5 milhões ao longo do tempo. Está usando algo próximo de R$ 2,5 milhões, mas pagando um fluxo de parcelas calculado como se tivesse usado o valor cheio. Quando se refaz a conta considerando o dinheiro efetivamente utilizado e o tempo, o custo real da operação deixa de ser 6% ao ano. Sobe, facilmente, para algo próximo de 16% ao ano. O custo não desapareceu. Ele apenas ficou invisível.

Há ainda um ponto central que costuma passar despercebido: o tempo, o momento da decisão financeira, é tudo. No consórcio, quando se dá um lance alto para antecipar a contemplação, a taxa real sobe. Mas ela também sobe quando se espera demais e o bem a ser adquirido fica muito à frente no tempo, porque, do ponto de vista do fluxo de caixa, a pessoa começa a pagar antecipadamente, isto é, antes de usufruir.

Em finanças, os primeiros meses e anos de um fluxo de pagamentos são os mais relevantes no cálculo da taxa real, chamada de taxa interna de retorno (TIR). Sempre que esse fluxo é deslocado, para frente ou para trás, o CET informado deixa de refletir o custo verdadeiro da operação.

Por isso, antes de assumir qualquer dívida longa, financiamento elevado ou consórcio, é fundamental saber calcular o fluxo de caixa completo; ou contar com alguém confiável que faça essa conta. Educação financeira, no fim, não é apenas saber o nome do produto, mas sim entender o impacto real que há nas decisões.

Há ainda um segundo autoengano que reforça essa lógica, quando alguns investidores querem ainda sustentar a narrativa da “arbitragem entre dívida e investimento” no uso do consórcio, como se estivessem operando uma estratégia sofisticada. Na prática, não estão comparando fluxos de dinheiro no tempo. Estão evitando uma conta incômoda.

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Explico: Com a Selic ao redor de 15% ao ano, muita gente acredita estar fazendo uma arbitragem brilhante: “Tomo dívida a 6% e invisto a 15%”. Essa comparação não existe fora do discurso.

Mecanismo das narrativas de autoengano

Primeiro, porque a dívida, depois da antecipação, não custa mais 6%. Custa algo próximo de 16% ao ano. Segundo, porque ninguém investe a Selic cheia no bolso. Em renda fixa, depois de impostos, custos e prazos, a taxa líquida raramente passa de 12,5% ao ano.

O que parecia vantagem se inverte. A dívida custa mais do que o retorno possível. A conta só fecha dentro da narrativa. E na vantagem contada a amigos.

Essas narrativas, aliás, não surgem no vácuo. Elas são induzidas. O mercado monetário vende “taxas imperdíveis” e “janelas que vão se fechar”. As apostas vendem a fantasia da saída rápida, do futuro sem dor. E há ainda a conversa do “boca a boca”: o discurso que circula no café, no WhatsApp, nos corredores.

O mesmo mecanismo das narrativas de autoengano aparece nas escolhas de carreira. Em alguns casos, a mudança se justifica. Em muitos outros, não é estratégia de longo prazo, mas busca por alívio imediato. Alguém diz que vai sair porque “ali não dá mais”. Outro comenta que “o mercado está pagando melhor”. Outro aposta que “agora vai”.

Você começa querendo sair do seu trabalho por influência dos corredores. Mas o colega ao lado está lutando por espaço, por visibilidade, por promoção. A narrativa coletiva se instala; e, sem perceber, a decisão deixa de ser estratégica e passa a ser reativa. Troca-se crescimento por anestesia. O discurso fala de valores; a decisão responde ao cansaço. Nem toda mudança é evolução. Às vezes, é apenas fuga bem explicada.

E há ainda a narrativa mais explícita de todas: a aposta. Aqui, o cálculo quase não importa. O que se compra não é probabilidade, é uma história. Uma vida sem dívida, sem chefe, sem frustração, sem processo. A aposta não compra dinheiro. Compra a suspensão temporária da realidade.

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Dívida mal compreendida, carreira encurtada pelo alívio e aposta como salvação têm algo em comum. Em todos esses casos, a narrativa não orienta a decisão. Ela protege o ego do desconforto. Protege da matemática, da espera, da responsabilidade.

O dinheiro, no fim, não é apenas um problema de números. É um espelho da história que contamos sobre quem somos e do quanto estamos dispostos a sustentar processos longos.

Talvez o maior custo monetário da nossa época não esteja nos juros explícitos, mas nas histórias convenientes que criamos para justificar escolhas que aliviam hoje e cobram caro amanhã.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: E-Investidor

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