Construção civil abre espaço para mais mulheres com vagas qualificadas e salários melhores nos EUA
Sammy Cossairt já experimentou trabalhar em centrais de atendimento, servir mesas em restaurantes e içar concreto. Ela prefere içar concreto.
Aos 36 anos, a operadora de guindaste de torre em Nashville, no Tennessee, trabalha em turnos de 12 horas e ajuda a levantar e transportar vergalhões de aço e caçambas de concreto a partir de uma cabine que muitas vezes fica a centenas de metros do chão.
Esse não era o futuro que imaginava quando concluiu um curso superior de curta duração, com formação generalista, há mais de dez anos. Mas, depois de quase uma década na profissão, ela se sente em casa no comando do guindaste.
“Estou sob o sol, deixando minha marca no mundo”, diz Cossairt, que ganha US$ 120 mil por ano. “Acho que mais mulheres adorariam entrar nessa área e ganhar o mesmo que os homens fazendo esse trabalho, se soubessem que essa possibilidade existe.”
As profissões técnicas e especializadas sempre foram dominadas por homens. Mas cada vez mais mulheres estão ingressando nessas áreas, atraídas por empregos bem remunerados e com alta demanda.
Para atrair e manter essas profissionais, muitas firmas estão oferecendo novos benefícios e vantagens, incluindo licença-maternidade remunerada e maior flexibilidade.
Também tentam criar ambientes de trabalho mais acolhedores e combater piadas de mau gosto e cantadas em locais de trabalho predominantemente masculinos.
O governo federal dos Estados Unidos acompanha a participação feminina em setores como construção civil, instalação e reparos, que incluem profissões como encanadoras, carpinteiras e mecânicas de automóveis.
No ano passado, as mulheres representavam cerca de 4,4% desses trabalhadores. Mas a participação feminina vem crescendo de forma relativamente constante: há dez anos, era de 2,9%.
No campus do Universal Technical Institute (UTI), uma rede americana de escolas técnicas profissionalizantes, em Exton, na Pensilvânia, Katie Yurick, diretora de serviços de carreira, afirma que parte das mulheres está se matriculando porque o setor incorporou cada vez mais tecnologia.
Mecânicos podem conectar carros a computadores para identificar problemas, e muitas profissões com alta demanda — como soldagem e serviços elétricos — exigem tanto raciocínio e atenção aos detalhes quanto força física.
“Esses trabalhos nem são mais sujos”, diz Yurick. Ela acrescenta que também tem ouvido empregadores afirmarem que estão tentando contratar mulheres por considerá-las mais maduras e atentas aos detalhes.
O corpo discente do UTI, que tem 17 unidades nos Estados Unidos, agora é composto por 8% de mulheres, quatro vezes a proporção registrada há cinco anos. Em algumas áreas, como reparação de colisões e pintura automotiva, esse percentual é ainda maior, chegando a 19%.
“Nosso setor precisa dessa força de trabalho”, afirma Maja Ericksen, vice-presidente executiva da construtora Mortenson. Em 2024, a firma começou a oferecer 12 semanas de licença remunerada às funcionárias que dão à luz e trabalham em suas equipes de profissionais especializados. Atualmente, mais de 10% desses trabalhadores são mulheres, ante 7% há dez anos.
“Não existem muitas carreiras que estejam protegidas dos efeitos da inteligência artificial, mas as profissões técnicas e especializadas são uma delas. Elas não vão desaparecer”, diz Ericksen.
De modo geral, as mulheres tiveram desempenho melhor que os homens no mercado de trabalho nos últimos anos. Isso reflete, em parte, o forte crescimento de setores que tradicionalmente empregam mais mulheres, como saúde e assistência social.
Ao mesmo tempo, elas também vêm conquistando espaço em profissões historicamente dominadas por homens.
Kym Gardner, de 39 anos, engenheira de projetos em Charlotte, na Carolina do Norte, conta que, quando era criança, nunca pensou em trabalhar no setor de construção.
Sua mãe era professora e seu pai, analista de sistemas. “Ninguém realmente falava sobre isso. Não era considerado uma carreira. A expectativa era fazer faculdade”, diz.
Mas, durante o ensino médio, ela se interessou por arquitetura, encontrou um programa de mentoria na área de construção e rapidamente se apaixonou por acompanhar o surgimento de edifícios desde o início das obras.
Hoje, mãe de três filhos, incluindo um bebê de cinco meses, ela começa o dia no canteiro de obras e trabalha remotamente à tarde. A flexibilidade, segundo ela, traz tranquilidade e permite conciliar o trabalho com as responsabilidades de cuidar dos filhos.
Sua firma, a Turner Construction, está crescendo rapidamente e precisa de todos os trabalhadores que conseguir contratar, afirma o presidente da companhia, Abrar Sheriff.
A construtora registrou receita de US$ 29 bilhões no ano passado e espera alcançar cerca de US$ 35 bilhões neste ano, impulsionada, em parte, por projetos de construção de centros de dados.
Oferecer mais flexibilidade aos trabalhadores e melhorar as condições nos canteiros de obras também faz parte da estratégia para atrair profissionais. Isso inclui comodidades como banheiros com água corrente, aquecimento e ar-condicionado, além de áreas de descanso limpas regularmente.
“Precisamos de mais pessoas entrando no nosso setor”, afirma Sheriff.
Em outra frente, a construtora Skanska adotou medidas como garantir que as funcionárias tenham luvas, capacetes e botas de trabalho do tamanho adequado, em vez de obrigá-las a usar equipamentos dimensionados para homens.
Deila Ray, que trabalhou durante dez anos como soldadora de tubulações e hoje ensina a profissão em uma escola de ensino médio, conta que precisou encolher as próprias luvas usando fogo quando começou a trabalhar no setor.
Neste ano, a Skanska também passou a exigir que todos os líderes de equipe adotem práticas de inclusão, incentivando-os a prestar mais atenção às necessidades dos diferentes trabalhadores, afirma Ayesha Adams, que entrou na firma em 2023 como sua primeira diretora de cultura e engajamento.
“É possível contratar pessoas o dia inteiro, mas como fazer com que elas permaneçam na firma?”, questiona Adams.
Alguns estados americanos estão tentando tornar as profissões técnicas mais adequadas às necessidades das mulheres. Washington e Illinois, por exemplo, aprovaram nos últimos anos leis que exigem a instalação de salas para amamentação em canteiros de obras, além de geladeiras para armazenar leite materno, horários flexíveis para pausas e acesso à água para higienização.
As construtoras também estão enfrentando outro problema: o assédio no ambiente de trabalho. Na Turner, os executivos seniores realizam uma reunião por telefone em até quatro horas após qualquer denúncia de incidente.
Em um caso recente no Texas, toda a equipe de uma empreiteira terceirizada, formada por cerca de uma dúzia de homens, foi substituída depois que a firma não conseguiu identificar quem havia escrito pichações ofensivas sobre funcionárias, conta Sheriff, presidente da Turner.
Parte do desafio é que nem sequer são necessários comentários agressivos para fazer com que um canteiro de obras se torne um ambiente hostil, afirma Rebecca Heustess, de 42 anos, encarregada de uma equipe de assentamento de azulejos em Henry, na Dakota do Sul. Ela ganha US$ 65 mil por ano.
Mesmo depois de 20 anos no setor, Heustess diz que frequentemente encontra homens que a tratam com condescendência ou ignoram suas instruções.
Ainda assim, ela afirma que aprendeu a lidar com essas situações e que a cultura nos canteiros de obras vem melhorando lentamente. Também diz que adora o trabalho.
“Quando deixo uma obra, fica para trás um projeto bonito, brilhante e reluzente, que sei que estará ali por muitos anos”, afirma Heustess. “É extremamente gratificante.”
Entre em contato com Te-Ping Chen pelo e-mail Te-ping.Chen@wsj.com.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal
