Eles venderam tudo para morar num navio de cruzeiro. Agora estão presos no Camboja
Era para ser a viagem de uma vida.
Por a partir de US$ 100 mil, os passageiros do Odyssey, um navio de cruzeiro de 196 metros, compraram cabines e embarcaram no que esperavam ser uma volta ao mundo de vários anos. Agora, muitos estão presos numa cidade portuária do Camboja depois que a dona do navio encerrou a viagem de uma hora para outra, culpando a alta do combustível.
O Odyssey, da Villa Vie Residences, firma sediada na Flórida, zarpou de Belfast, na Irlanda do Norte, em outubro de 2024 e passou por mais de 60 países.
Os passageiros, muitos deles aposentados americanos e profissionais remotos, desfrutavam de piscina, quadra de pickleball, teatro, vários bares e uma academia com aulas de ioga e outras atividades. Um médico e duas enfermeiras estavam entre os 150 tripulantes.
Mas a guerra no Irã fez o preço do combustível marítimo disparar, e o navio passou a ter dificuldade para pagar, e às vezes até para conseguir, combustível suficiente, disse o comandante do Odyssey num documentário alemão exibido em agosto.
Então, na segunda-feira de manhã, os passageiros acordaram com uma mensagem da presidente-executiva da Villa Vie, Kathy Villalba.
“Infelizmente, não conseguimos garantir o combustível necessário para continuar as operações”, dizia a mensagem, segundo um post no blog de Randy Cassingham, passageiro que escreve sobre a vida no Odyssey. “Com isso, o Odyssey entrará em período temporário de inatividade esta tarde.”
A mensagem dava aos passageiros até as 14h para deixar o navio em Sihanoukville, cidade portuária cambojana conhecida pelos cassinos e pela indústria de golpes on-line.
Em comunicado, Long Dimanche, vice-governador da província de Sihanoukville, disse que “ser obrigado a desembarcar de forma tão abrupta deixou muitos aposentados e trabalhadores, na prática, sem casa, a milhares de quilômetros de seus países”. Ele acrescentou que parte dos 203 passageiros já voltou para casa, mas outros continuam na cidade.
A Villa Vie e Cassingham não responderam aos pedidos de comentário na quarta-feira. Villalba e Mikael Petterson, fundador e presidente executivo do conselho da Villa Vie, não foram localizados.
Johan Bodin, carpinteiro nascido na Suécia que morava no Odyssey com a namorada americana, Lanette Canen, publicava atualizações regulares no YouTube sobre os dois anos a bordo.
O casal, na casa dos 50 anos, contou nos vídeos que vendeu sua locadora de carros em Maui, no Havaí, e pagou US$ 100 mil por uma cabine de 13 metros quadrados no Odyssey. O preço do que a Villa Vie anunciava como “residência permanente” aumentou depois.
Uma taxa mensal de manutenção de US$ 3,5 mil cobria os serviços a bordo, incluindo três refeições por dia, lavanderia duas vezes por semana, Wi-Fi, arrumação e duas bebidas alcoólicas no almoço e no jantar, disseram Bodin e Canen.
“Então estamos gastando bem menos do que gastávamos em Maui”, disse Canen, sorrindo, num vídeo postado em fevereiro, com o bar do Odyssey ao fundo.
Bodin disse que a Villa Vie havia garantido ao menos 15 a 20 anos de navegação para os passageiros residentes do Odyssey. Outros tinham comprado cabines por períodos mais curtos.
A vida a bordo, porém, nem sempre foi tranquila. A partida inicial de Belfast atrasou vários meses por causa de reparos no navio. Embora a Villa Vie tenha dito em 2024 que o Odyssey estava “85% vendido”, vários passageiros afirmaram em redes sociais que ele nunca chegou perto da lotação máxima, de 650 passageiros.
Depois, o preço do combustível marítimo disparou por causa da guerra. Pediu-se aos passageiros um pagamento único de US$ 6 mil para continuar navegando, segundo o documentário alemão. A Villa Vie elevou a taxa mensal de serviço para novos passageiros a US$ 8.999 em ocupação dupla, conforme seu site.
Num vídeo publicado na terça-feira, Bodin disse que os últimos dois meses foram frustrantes, com a incerteza sobre o futuro do navio causando divisões entre os passageiros. Em seu blog, “Residential Cruising”, Cassingham disse que o número de passageiros caiu para cerca de 200, de 350 no auge.
Em comunicado na terça-feira, a Villa Vie disse que a despesa mensal com combustível subiu para algo entre US$ 6 mil e US$ 8 mil por cabine, ante cerca de US$ 1,8 mil.
“A firma não pode simplesmente repassar aos residentes aumentos dessa escala, e o descompasso resultante colocou seu atual modelo de operação sob uma pressão financeira insustentável”, disse, acrescentando que trabalha com os residentes para “identificar acomodações temporárias”.
A firma disse que vai usar os próximos 60 dias para tentar resolver seus problemas monetários, mas que “nenhum resultado está garantido”.
Cassingham disse num post na quarta-feira que ele e outros passageiros não receberam nenhum apoio da Villa Vie para encontrar ou pagar hotéis.
“Alguns estão em estado de choque porque gastaram a maior parte das economias para estar aqui e não sabem como nem onde vão viver”, escreveu.
Um porta-voz do Departamento de Estado disse que trabalha com as autoridades do Camboja para apoiar os cidadãos americanos afetados.
Cassingham, que navegou no Odyssey com a mulher, Kit, disse que, apesar da incerteza e da frustração, o casal não se arrepende da vida no mar.
“Fizemos grandes amigos e temos memórias incríveis”, escreveu ele no post de quarta-feira, “e vimos coisas que nunca teríamos visto de outra forma.”
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal
