ETFs ativos: a próxima onda dos fundos pode mirar os multimercados
Os ETFs ganharam espaço no Brasil com uma proposta simples: acompanhar o desempenho do mercado a um custo baixo. Comprou um ETF de Ibovespa, ele segue o Ibovespa e pronto. Ninguém mexe na carteira.
Agora, a indústria se prepara para dar um passo além e oferecer, dentro desses fundos negociados em bolsa, estratégias que buscam superar os índices.
Isso seria possível com a abertura do mercado brasileiro para os ETFs ativos, nos quais o gestor escolhe os investimentos, em vez de apenas replicar a carteira de um índice.
Gestoras apontam o produto como a próxima onda do setor e um potencial concorrente dos fundos multimercados, que perderam espaço nos últimos anos.
A mudança levaria à bolsa estratégias hoje restritas a fundos tradicionais. Para o investidor, a promessa é combinar gestão profissional com custos menores, mais transparência sobre a carteira e flexibilidade para negociar. Para as gestoras, é a chance de alcançar novos clientes e recuperar parte do dinheiro perdido: só os multimercados tiveram R$ 661 bilhões em resgates líquidos desde 2022.
Mas ainda faltam as regras para que o produto avance por aqui. O tema é uma das prioridades da agenda regulatória da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) deste ano. A expectativa é que a norma saia em 2027. Mesmo assim, o mercado já se mexe.
“O ETF ativo certamente é a próxima etapa de evolução”, afirma Cauê Mançanares, CEO da Investo.
O mercado americano dá a dimensão do que pode vir. Nos Estados Unidos, eles têm sido a principal alavanca de crescimento do setor, que tem batido recordes de captação no ano.
Mais de 80% dos ETFs lançados lá neste ano são ativos e 36% do dinheiro que entrou na classe foram para esse tipo de estratégia. Incluindo os passivos, os fundos de índice representam perto de 30% da indústria de fundos dos EUA.
Por aqui, os ETFs ainda correspondem a apenas 1,2% dos R$ 11,5 trilhões da indústria de fundos nacional. Para André Kikuchi, CIO da Nu Asset, esse percentual pode chegar a 10%.
Mançanares acredita que a classe, incluindo ativos e passivos, alcance R$ 1 trilhão em patrimônio em três a cinco anos.
No Brasil, o ritmo recorde de adesão de investidores também ajuda a explicar o otimismo. São mais de 860 mil investidores pessoa física com ETFs na Bolsa, 62% a mais do que em 2022.
O patrimônio alocado no produto saltou de R$ 61,5 bilhões para R$ 136,7 bilhões em um ano, até setembro. A captação líquida (o que entrou menos o que saiu) atingiu R$ 42,5 bilhões em 2026, quase o dobro do ano passado inteiro. São 14 meses seguidos de entradas.
De cada R$ 100 que entraram na indústria de fundos no ano, quase R$ 17 foram para ETFs.
Para os gestores, um dos impulsos foi a mudança no modelo de remuneração dos intermediadores monetários, com o assessor de investimentos passando a ser pago por taxa pelo serviço prestado, e não comissionado por cada produto que distribui. Além disso, o benefício da praticidade e eficiência que a própria classe oferece contribui para seu sucesso. Agora, o próximo passo é a atualização da regra.
A disputa pelo espaço dos multimercados
Um dos espaços que os ETFs ativos podem ocupar é o vácuo que tem sido deixado pelos fundos multimercados. Eles já foram quase um quarto da indústria de fundos (24,2% em 2010); hoje são 13,7%. Em valores atuais, o patrimônio caiu 10% desde 2021, para R$ 1,58 trilhão, pressionado pelas saídas, enquanto a indústria toda cresceu 50%. O bolo engordou e o multimercado encolheu.
O retorno ajuda a explicar. Nos 12 meses até setembro, os multimercados Livre e Macro renderam, em média, cerca de 11%, ficando abaixo em mais de 3 pontos percentuais do CDI no mesmo intervalo, segundo dados da Anbima.
Para Kikuchi, uma combinação de ETFs passivos já substitui muitos desses fundos, que não têm entregado retorno acima do mercado. Os ativos devem permitir gerar um pouco de alfa (o retorno acima do mercado) com mais transparência.
Mançanares aponta vantagens também tributárias. “O fundo multimercado tem uma questão tributária muito prejudicial, que é o come-cotas. Já nos ETFs, você não tem isso”, diz.
Além disso, o multimercado precisa remunerar os canais de distribuição (corretoras e bancos). Por isso um ETF ativo tende a cobrar taxas menores que um fundo convencional ativo.
“É natural que o ETF ativo venha a ser uma opção para os gestores no futuro”, comenta. Mas ele faz uma ressalva de que o desafio de entregar performance continuará, seja no ETF ativo ou no fundo tradicional.
Em que pé está a discussão
A norma atual não comporta o modelo. O Anexo V da Resolução CVM 175, que trata dos fundos de índice, foi desenhado para a gestão passiva.
Enquanto isso, o ETF ativo entra por uma porta lateral. Em fevereiro, o JPMorgan listou o JEPI39, primeiro BDR de um ETF ativo americano, amparado pelo entendimento da área técnica da CVM de que a norma não proíbe esse tipo de produto. Nesse caso, o fundo fica no exterior, negociado no mercado americano, e o brasileiro compra o recibo na B3.
Para Soraia Barros, gerente-executiva de fundos de investimento da Anbima, viabilizar o produto no Brasil exigiria revisar o Anexo V, preservando as características do ETF e incorporando, quando fizer sentido, regras dos fundos de investimento monetário sobre composição, concentração e enquadramento da carteira. Os códigos de autorregulação só serão avaliados depois da publicação das regras da CVM.
Sem especificar uma data, a CVM diz que segue trabalhando nos temas da agenda regulatória, “considerando as etapas necessárias à análise e ao desenvolvimento das propostas”. O mercado vislumbra alguma atualização sobre o tema já no ano que vem.
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Autor: Paula Barra