Mercado Bitcoin: como foi o ataque hacker que drenou quase US$ 50 milhões da exchange brasileira
O ataque hacker ao Mercado Bitcoin, na segunda-feira (2), foi maior do que se imaginava. O criminoso desviou cerca de US$ 49 milhões (R$ 266 milhões) em criptomoedas, acima dos quase US$ 40 milhões divulgados inicialmente.
Além disso, a investida virtual não comprometeu apenas as carteiras cripto da exchange – estruturas usadas para armazenar e movimentar ativos digitais -, mas também atingiu aproximadamente 35 mil endereços de depósito vinculados a clientes.
A dinâmica do ataque foi reconstruída por diferentes firmas de análise de blockchain, como CertiK, AuditKey e Bitquery.
Como tudo começou?
O ataque começou na madrugada de segunda-feira (2), por volta de 1h. Inicialmente, o invasor conseguiu drenar as carteiras de criptos que ficam conectadas à internet de dez redes blockchain diferentes.
Em aproximadamente 25 minutos, os recursos delas foram transferidos, segundo a Bitquery.
Na sequência, o criminoso movimentou fundos de cerca de 35 mil endereços de depósito. Esses endereços de depósito são utilizados pelos clientes para enviar criptomoedas à exchange. É como se fossem contas individuais de recebimento, vinculadas à infraestrutura da corretora.
Segundo as análises da CertiK, a operação toda se estendeu por aproximadamente cinco horas.
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Qual foi o tamanho do prejuízo? Algo foi recuperado?
O ataque afetou cerca de US$ 49 milhões em criptomoedas, aproximadamente R$ 266 milhões, segundo informações divulgadas pela própria exchange.
Os maiores valores, segundo a CertiK, foram registrados do ethereum (ETH), com US$ 29,6 milhões, seguida pelo bitcoin (BTC), com US$ 8,3 milhões, e pela solana (SOL), com US$ 3,5 milhões.
A stellar (XLM) aparece na sequência, com US$ 2,1 milhões, enquanto arbitrum (ARB) e polygon (POL) registraram US$ 1,7 milhão cada. Já a tron (TRX) somou US$ 1,5 milhão, a avalanche (AVAX), US$ 660 mil, e outras nove redes, US$ 250 mil.
Do total afetado, o Mercado Bitcoin conseguiu bloquear US$ 11,2 milhões, cerca de R$ 60,9 milhões.
A recuperação foi possível com a colaboração de firmas do setor, como Tether, Circle, BRL1, Paxos e Chainalysis. Parte dos ativos desviados foi bloqueada por meio de mecanismos de congelamento e ações de rastreamento.
Mas como o hacker conseguiu fazer isso?
O Mercado Bitcoin ainda não divulgou exatamente como o invasor conseguiu acesso à infraestrutura da exchange. Mas a forma como ele agiu pode dar uma luz sobre como tudo ocorreu.
As transferências das carteiras cripto foram parecidas com os pagamentos normalmente realizados pela própria corretora. Já as movimentações dos endereços de depósito apresentaram diferenças técnicas, incluindo o uso de um software distinto e o pagamento de taxas de transação mais elevadas.
“Isso é compatível com uma possível invasão ao sistema de pagamentos da própria exchange, combinada com acesso às chaves dos endereços de depósito. Entretanto, somente a blockchain não consegue provar essa hipótese”, diz a Bitquery.
Ataques desse tipo podem começar de diferentes maneiras. Entre as possibilidades estão o comprometimento de computadores de funcionários, o uso de links maliciosos, a instalação de softwares infectados e até a infiltração de criminosos em firmas por meio de processos seletivos.
O caso da Binance, que sofreu um ataque hacker de US$ 6,3 bilhões na semana passada, é um exemplo. Segundo a exchange, a investigação inicial apontou que o invasor teria comprometido o notebook de um engenheiro de software, conseguindo acesso a uma estrutura interna da firma e autorização para realizar saques não permitidos.
O dinheiro dos investidores está seguro mesmo?
Em comunicado enviado ontem para a reportagem do InvestNews, o Mercado Bitcoin disse que “está tomando todas as medidas necessárias para preservar os ativos de seus clientes em razão do ocorrido”.
Falou ainda que acionou “seus protocolos de governança, notificou as autoridades competentes e, por segurança, decidiu tirar a plataforma temporariamente do ar até ter condições seguras para a retomada”.
Em texto publicado em seu site, o Mercado Bitcoin afirma manter a maior parte dos ativos digitais dos clientes em carteiras frias – dispositivos parecidos com pen drives desconectadas da internet – e adotar segregação patrimonial, mecanismo que separa os recursos dos investidores do patrimônio da firma.
“Quando a corretora guarda o dinheiro do cliente separado do dela, um ataque às carteiras de giro vira prejuízo da firma. O saldo de cada cliente é um registro na conta individual dele, e quem cobre o buraco é a corretora. É para isso que a segregação existe”, explica Julia Santos, contadora especializada em criptoativos e fundadora da Contadora Cripto.
A corretora tem cerca de 4,5 milhões de clientes. Nos últimos meses, porém, ampliou ainda mais sua base de usuários com a chegada de investidores de outras plataformas, como Bitso, Coinext e Bity, que reduziram ou encerraram determinadas atividades no varejo brasileiro em meio às mudanças regulatórias do setor.
Ataque ocorre em momento crítico para o mercado cripto brasileiro
O incidente acontece em um momento importante para o mercado de criptomoedas no Brasil.
Desde 31 de outubro, apenas firmas que solicitaram autorização ao Banco Central podem continuar operando no Brasil, conforme as condições estabelecidas pelo regulador. O Mercado Bitcoin está entre as firmas que buscam autorização.
A regulamentação estabeleceu exigências relacionadas à segurança cibernética, custódia, controles internos, compliance e gerenciamento de riscos. O objetivo é elevar os padrões de segurança e proteção dos clientes.
Em grupos de players do setor, porém, o caso do Mercado Bitcoin reacendeu o debate sobre a capacidade das novas regras de reduzir riscos operacionais e realmente proteger os investidores diante de ataques cibernéticos.
Veja as cotações das principais criptomoedas às 8h20
Bitcoin (BTC): -0,96%, US$ 77.021,67
Ethereum (ETH): -0,78%, US$ 2.264,11
BNB (BNB): -0,94%, US$ 697,57
XRP (XRP): +0,68%, US$ 1,25
Solana (SOL): -1,57%, US$ 92,34
Outros destaques do mercado cripto
US$ 3,64 bi sacados da Binance após ataque. Ataques hackers a exchanges costumam aumentar a desconfiança dos investidores e provocar saques. Foi o que aconteceu com a Binance na semana passada. Após o ataque, os investidores retiraram cerca de US$ 3,64 bilhões (R$ 19,8 bilhões) da plataforma, o equivalente a 2,1% do total de ativos mantidos na corretora.
Nvidia e Nike não querem ações tokenizadas. As ações tokenizadas (versões digitais de ações tradicionais negociadas na blockchain) são um dos grandes temas do mercado cripto. Mas algumas companhias não estão muito contentes com essa ideia, não. Cerca de 50 firmas (entre elas Nike e Nvidia) se opuseram a ter seus papéis negociados em uma nova plataforma. Motivo? Elas têm receio de como isso pode afetar o preço, a liquidez e a volatilidade de suas ações.
74 firmas pedem autorização para o BC. As firmas interessadas em atuar regularmente com cripto no Brasil tinham até 30 de outubro para pedir autorização ao Banco Central. No total, 74 fizeram a solicitação, segundo levantamento do grupo monetário Cainvest. Tem de tudo um pouco na lista: exchanges, fintechs, bancos e firmas internacionais. Agora, cabe ao BC analisar os pedidos e decidir quem poderá seguir no mercado.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Lucas Gabriel Marins
