O império dos genéricos da EMS entre a era das canetas e a sucessão de Carlos Sanchez

Em junho de 2010, a EMS colocou seu genérico do Viagra no mercado no dia seguinte ao fim da patente da Pfizer. O registro na Anvisa havia saído em maio. Para apresentar o produto às farmácias, mobilizou 250 representantes comerciais. Outros 1.500 profissionais visitariam médicos para divulgar o Suvvia, sua versão com marca.
Essa estreia em um passado que soa remoto ajuda a explicar como a família Sanchez construiu uma das maiores farmacêuticas do Brasil: desenvolver medicamentos, obter registros e preparar a produção e as vendas antes mesmo de a exclusividade dos concorrentes terminar.
Dezesseis anos depois, a EMS levou essa estratégia à semaglutida, princípio ativo do Ozempic, em meio à compra de rivais e à discussão sobre quem vai comandar a firma depois de Carlos Sanchez.
Dono de 75% do capital e presidente do conselho, Carlos divide a administração com a geração seguinte da família. O sobrinho Marcus Sanchez, vice-presidente responsável por marketing e vendas, reconhece que a escolha do próximo presidente cabe ao tio. “A gente sabe que nós somos minoritários”, afirmou em entrevista ao InvestNews.
Marcus e o irmão, Leonardo, têm 12,5% cada. São filhos de Nanci, irmã de Carlos, que morreu em 2009. A origem dos negócios está numa farmácia aberta pelo avô, Emiliano Sanchez, em Santo André, no ABC paulista, em 1950. A fabricação de medicamentos começou em 1964. Quando Emiliano morreu, em 1988, Carlos tinha 26 anos.
A Lei dos Genéricos, de 1999, abriu uma oportunidade para a expansão. Os genéricos reproduzem o princípio ativo do medicamento de referência e precisam comprovar equivalência. A EMS investiu em testes e produção e, em 2000, esteve entre as primeiras a vender os medicamentos da categoria. A preparação permitia disputar espaço nas farmácias assim que as patentes venciam, com versões mais baratas de produtos conhecidos.
A família também ampliou sua presença com Germed, Legrand e Nova Química. Marcas e equipes comerciais diferentes passaram a disputar as prateleiras com uma estrutura industrial compartilhada. Em 2026, os negócios farmacêuticos foram reunidos sob a marca Grupo EMS; mídia, imóveis e energia ficaram na NC Corp.
Na principal sala de reuniões da firma, uma placa diz “Ação”. Segundo Marcus, havia uma igual atrás da mesa do avô. Ao descrever Carlos, o executivo escolheu outra palavra: “inconformado”. Esse apetite por crescer levou a família a tentar uma combinação com a Hypera, dona do Benegrip e da Neo Química, em outubro de 2024.
O conselho da Hypera rejeitou a proposta em cerca de 48 horas, apontando uma avaliação baixa e diferenças de governança. Carlos negou que a oferta fosse hostil. Defendia economias em pesquisa, produção e distribuição e via na concorrente uma competência que gostaria de incorporar: a construção de marcas conhecidas pelo consumidor.
O banqueiro Ricardo Lacerda, do BR Partners, assessorava a Hypera. Em entrevista ao InvestNews, contou que encontrou Carlos num jantar na casa do empresário José Seripieri Filho, representando João Alves de Queiroz Filho, o Júnior, controlador da Hypera. Ali, disse: “Esse casamento pode até acontecer, mas ele tem que ser feito pelo padre, e não pelo delegado”.
A combinação não avançou e logo a EMS encontrou outra noiva em potencial.
Em março de 2026, a EMS assinou um acordo para comprar da francesa Sanofi a Medley, concorrente que Marcus descreve como a maior que a firma enfrentou. A operação depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A indiana Sun Pharma também participou da disputa e a possibilidade de os indianos levarem a Medley pesou na oferta de Carlos. A EMS buscava incorporar uma marca conhecida e, ao mesmo tempo, evitar que uma rival histórica passasse às mãos de um fabricante global.
A Sun, porém, também participa de uma disputa que já alterou o ranking do setor. Nos 12 meses encerrados em julho de 2026, os agonistas de GLP-1, classe que inclui Ozempic e Mounjaro, passaram do quarto para o primeiro lugar em vendas em valor no varejo farmacêutico, segundo relatório da IQVIA obtido pelo InvestNews.
A Lilly, fabricante do Mounjaro, ultrapassou a EMS e ficou em segundo, atrás da Eurofarma. Quatro apresentações do Mounjaro figuraram entre os dez produtos de maiores vendas em valor. A comparação usa preços de compra das farmácias e separa laboratórios, sem consolidar todas as firmas de cada grupo econômico.
Os genéricos continuaram crescendo: as vendas em unidades avançaram 8,43% no mesmo período. A ascensão das canetas colocou medicamentos de maior valor no centro da disputa, enquanto a EMS mantém seu negócio de grande volume.
Segundo Marcus, a EMS investiu mais de R$ 1,5 bilhão na plataforma de peptídeos, moléculas usadas nessas terapias. A firma produz a semaglutida por síntese química, unindo aminoácidos. Em 2024, Carlos também informou ao Valor Econômico que havia tomado R$ 500 milhões em crédito do BNDES para pesquisa.
O pedido de registro do Ozivy chegou à Anvisa em 2023. A patente da semaglutida venceu em março de 2026, e a aprovação saiu em maio. Diferentemente da cópia do Viagra, o Ozivy não foi registrado como genérico: é um medicamento novo, análogo sintético de um produto biológico, indicado para diabetes tipo 2.
No levantamento da IQVIA, o Ozivy já aparecia em sétimo entre os produtos da classe em vendas em valor.
Em setembro, a Hypera lançou o Semavy, outra semaglutida. Quem fabrica o medicamento, conforme a bula, é a Sun Pharma. A concorrente da EMS na disputa pela Medley passou a fornecer uma caneta vendida pela firma com a qual Carlos tentara se combinar.
Questionado sobre a competição com fabricantes estrangeiros, Marcus disse: “Se o indiano fez, a gente também tem capacidade de fazer”. Reconheceu, porém, que a EMS talvez não alcance os mesmos custos dos concorrentes.

As decisões sobre esses negócios passam por três primos. Marcus cuida da área comercial; Gabriel, filho de Carlos, responde por pesquisa, operações e novos negócios; Emiliano, irmão de Gabriel, por finanças, gente e gestão.
Segundo Marcus, não há CEO: os três vice-presidentes se reúnem semanalmente e procuram decidir por consenso. Quando divergem, Carlos resolve – como controlador e presidente do conselho.
Irmão de Marcus, Leonardo deixou a rotina executiva e foi para o conselho consultivo. Piloto de automobilismo, comprou em 2025 um Yangwang U9 Xtreme, superesportivo da BYD de cerca de US$ 2,5 milhões. A assinatura ocorreu num jantar na casa do apresentador Luciano Huck, com a presença do fundador da montadora, o chinês Wang Chuanfu.
Marcus, que perdeu o pai na infância e a mãe aos 24 anos, descreve o tio também como uma figura paterna. “Além de tio, ele ficou sempre como se fosse um pai para nós”, disse. Sobre a sucessão, diz ver uma tendência para que Gabriel ou Emiliano assuma a presidência. Admite ainda a possibilidade de um profissional de fora.
“Quem tem que tomar a decisão é ele”, afirmou, referindo-se a Carlos. Os primos já dividem o trabalho. A escolha de quem terá a palavra final continua com o controlador.
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Autor: Greg Prudenciano
