Por que a reforma tributária está levando fábricas à Zona Franca de Manaus. E o desafio que falta superar
Os pneus vêm de Campinas. As velas de ignição, de Mogi das Cruzes. As correntes de transmissão, de Taubaté. Todas cidades do interior paulista.
Mas essas peças só vão se encontrar a quatro mil quilômetros dali, em Manaus. É onde fica a fábrica da Dafra, que monta motocicletas para fabricantes internacionais – entre elas, as da chinesa VOGE, recém-chegada ao Brasil.
Os funcionários ali reúnem componentes fabricados em diferentes regiões do Brasil e, principalmente, partes importadas da China. E, peça por peça, como num quebra-cabeça, colocam a moto de pé.
Esse é o endereço natural para isso: 98% da produção brasileira de motos sai do Amazonas, já que os benefícios tributários da Zona Franca de Manaus reduzem os custos da fabricação por lá.
“Se não estivéssemos montando as motocicletas em Manaus, não teríamos competitividade para o mercado brasileiro”, diz Rodrigo Moutinho, gerente-geral da VOGE Brasil.
Criada em 1967 para incentivar o desenvolvimento econômico da Amazônia, a Zona Franca isenta a indústria local de uma série de impostos: IPI, PIS, Cofins, ICMS, Imposto de Importação.
Ao longo desses quase 60 anos, o modelo alimenta debates sobre quanto contribui, de fato, para desenvolver a região – e quanto, ao todo, isso custa aos cofres públicos. Mas os incentivos sobreviveram às sucessivas tentativas de revisão. Hoje, o polo industrial de Manaus tem pouco mais de 550 fábricas em operação.
E, agora, vive um novo impulso: a implementação da reforma tributária, que preserva os benefícios da Zona Franca até 2073. Ao mesmo tempo, ela prevê o fim gradual de incentivos fiscais em outros estados, que hoje concorrem com Manaus na atração de investimentos.
Uma nova leva de fábricas em Manaus
Entre janeiro e agosto de 2026, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) aprovou 56 novos projetos de implantação industrial – uma alta de 40% em relação ao mesmo período de 2025 e de 65% na comparação com 2024, segundo levantamento do InvestNews feito com auxílio de inteligência artificial a partir dos registros da autarquia.
Entre os projetos, há novas fábricas de setores já tradicionais da região, como o de motocicletas e o de eletroeletrônicos.
É o caso, por exemplo, da Royal Enfield, fabricante indiana de motos que teve um projeto de implantação aprovado em 2025. Ou da Sunhope, que recebeu aprovação em agosto de 2026 para investir R$ 107,6 milhões na fabricação de medidores de energia elétrica.
Mas há também setores ainda incipientes na Zona Franca. Como o farmacêutico: desde 2025, a Brainfarma, do grupo Hypera, e a Vitamedic receberam autorização para construir unidades na região. E a EMS, que opera uma fábrica de medicamentos em Manaus desde 2014, investiu R$ 300 milhões na ampliação de sua unidade neste ano e planeja construir outra a partir de 2027.
“Continuar investindo na região é uma evolução natural de uma operação que deu certo e ganhou relevância dentro da nossa estrutura industrial e ainda tem espaço para crescer”, afirma Carlos Sanchez, presidente do conselho de administração do Grupo EMS, em resposta por escrito ao InvestNews.
A Suframa espera que esse movimento se intensifique. Segundo o superintendente da autarquia, Leopoldo Montenegro, mais de 200 novas fábricas devem se instalar na Zona Franca nos próximos três anos.
Todas já tiveram seus projetos aprovados pela Suframa, afirmou ele em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho. Procurada pelo InvestNews, a Suframa não concedeu entrevista sob alegação do período eleitoral, que restringe a participação de agentes públicos.
A exceção à regra
Os estados brasileiros contaram por décadas com uma arma para tentar atrair indústrias: oferecer descontos no ICMS, o imposto sobre a circulação de mercadorias. Uma firma que pensa em construir uma fábrica pode negociar incentivos tributários com vários governadores – que disputam entre si quem oferece as menores alíquotas.
Chama-se guerra fiscal. E a reforma tributária pretende acabar com ela.
A partir de 2029, o ICMS começará a ser substituído por um novo imposto, o IBS. A troca será gradual até 2033, quando o ICMS deixará de existir.
Aí ficará assim: os estados continuarão definindo suas alíquotas, mas não concederão benefícios fiscais individualmente. Os descontos e as isenções terão que seguir regras nacionais, iguais para todos os estados.
Manaus é a única exceção. Ali, as vantagens tributárias estão garantidas até 2073.
A região também leva vantagem com a nova regra do IPI, um imposto federal sobre produtos industrializados. A partir de 2027, ele será zerado para a maior parte dos produtos fabricados no Brasil.
Com uma exceção: produtos amplamente produzidos em Manaus, como motocicletas, televisores e aparelhos de ar-condicionado, continuarão pagando IPI quando fabricados fora da Zona Franca.
Na capital do Amazonas, as fábricas seguem isentas. Assim, produzir esses itens na região continuará sendo mais vantajoso do ponto de vista tributário.
O dilema da Zona Franca
A reforma garantiu a sobrevivência dos incentivos, mas não encerrou uma discussão que acompanha a Zona Franca há décadas: se os benefícios econômicos e sociais justificam o custo para os cofres públicos.
Em 2025, a União deixou de arrecadar R$ 29,9 bilhões com os incentivos da Zona Franca, segundo estimativa apresentada pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
E não se sabe ao certo o que essa renúncia ajuda a comprar. Um estudo publicado em 2021 pelos pesquisadores Rogério da Cruz Gonçalves e Philipp Ehrl, a partir de dados de 2002 a 2014, encontrou efeitos positivos dos incentivos sobre o emprego e a população do Amazonas, mas não identificou ganhos significativos sobre o PIB, a renda ou a arrecadação estadual.
Uma das principais críticas ao modelo é o seguinte: como no exemplo da motocicleta que abre esta reportagem, muitas fábricas recebem componentes produzidos em outros estados e países – e concentram na Zona Franca as etapas finais de fabricação e montagem, para aproveitar os benefícios tributários. O impacto sobre a economia local é menor do que poderia ser se a produção fosse de fato na região.
Em 2025, as indústrias da Zona Franca compraram quase 64% de seus insumos de fornecedores estrangeiros, segundo a Suframa. Outros 18% vieram de outros estados brasileiros, e apenas 19%, de fornecedores regionais.
Mas André Ricardo Costa, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), contesta a ideia de que a Zona Franca seja apenas um polo de montagem. Segundo ele, ao longo das décadas, a produção de motocicletas, televisores e aparelhos de ar-condicionado atraiu também fabricantes das peças usadas nesses produtos, especialmente dos setores metalúrgico, plástico e químico.
“Nós temos aqui no setor de duas rodas uma base produtiva bastante densa, bastante sólida, bastante regionalizada”, afirma.
Em 2025, as fabricantes de motocicletas compraram 36,3% de seus insumos de fornecedores da própria região, segundo a Suframa — quase o dobro da média do polo. Outros 15,9% vieram de outros estados brasileiros, e 47,8%, do exterior.
Esse movimento também aparece entre os novos investimentos. Um levantamento do InvestNews, a partir dos registros da Suframa, identificou 69 projetos de implantação de fábricas de insumos, componentes e embalagens destinados a indústrias já instaladas em Manaus entre 2025 e agosto de 2026.
Eles representam 58% dos 119 novos projetos industriais identificados no período. Entre os produtos estão peças para motocicletas, embalagens plásticas, placas de circuito impresso e compressores para aparelhos de ar-condicionado.
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Autor: Camila Alves Barros