‘Range Rover da Temu’: como um carro chinês caiu nas graças de consumidores britânicos
Quando Mark Thewlis começou a procurar um carro novo para a família neste verão, ficou impressionado com o quanto o Jaecoo 7 era mais barato do que marcas de luxo com aparência e características semelhantes.
O inglês de 33 anos, morador do litoral sul do país, calculou o preço inicial da versão do SUV chinês que preferia em cerca de US$ 50 mil, metade do valor de um modelo do Range Rover visualmente semelhante.
A semelhança com a marca britânica de luxo, de 56 anos, rendeu ao Jaecoo um apelido de duplo sentido: o “Range Rover da Temu”.
“Minha primeira reação foi: qual é a pegadinha?”, disse ele. Um test-drive o convenceu de que comprar o Jaecoo era uma decisão “óbvia”.
Nenhuma grande economia industrializada abraçou os carros chineses com tanto entusiasmo quanto o Reino Unido, onde britânicos como Thewlis estão sendo conquistados pela combinação de preços acessíveis, design que transmite status e tecnologia.
O Jaecoo 7, fabricado pela chinesa Chery Automobile, foi o veículo mais vendido do Reino Unido em setembro, um mês importante para as vendas no país. No primeiro semestre de 2026, quase um em cada seis carros vendidos no Reino Unido tinha uma marca chinesa, segundo a Schmidt Automotive Research — proporção maior do que em qualquer outro país europeu, exceto a Noruega.
As importações de veículos da China pelo Reino Unido quase dobraram neste ano em relação ao mesmo período de 2025. Apenas Rússia e Brasil — economias em desenvolvimento que compram principalmente modelos mais baratos — importaram mais. A forte queda nas vendas na China, o maior mercado automotivo do mundo, levou as fabricantes chinesas a buscar crescimento no exterior.
O Reino Unido, berço da indústria automobilística, mostra o que poderia acontecer nos Estados Unidos caso os carros chineses tivessem entrada no mercado. “Range Over!” dizia o início de um comunicado de imprensa que comemorava o sucesso inicial de vendas do Jaecoo, em uma provocação à semelhança com o Range Rover Evoque.
Sam Luscombe, diretor-gerente de uma concessionária em Leeds, no condado de Yorkshire, disse que o apelo é simples: “Ele parece caro, tem sensação de carro caro — e aí você descobre quanto custa”.
Por enquanto, os carros chineses estão praticamente excluídos do grande mercado americano por causa das tarifas elevadas e das restrições ao software chinês. Em setembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a demonstrar abertura a carros chineses produzidos em fábricas nos Estados Unidos, o que causou preocupação em Detroit.
O Congresso americano debate um projeto de lei que proibiria permanentemente carros chineses nas estradas dos Estados Unidos.
O crescimento expressivo das marcas chinesas no Reino Unido neste ano foi liderado pela Chery, maior exportadora de veículos da China. Até setembro, suas vendas mais que triplicaram em relação ao mesmo período do ano passado, colocando a firma à frente da Ford Motor, que liderou o mercado britânico durante décadas.
Abertura para carro chinês
“A abertura dos consumidores a novas marcas é muito boa para as firmas que estão chegando”, disse Farrell Hsu, diretor-gerente da Chery no Reino Unido. Hsu não é responsável pela marca Jaecoo, que opera separadamente.
O Jaecoo 7, apresentado ao público das regiões suburbanas como um SUV pronto para aventuras, foi lançado em janeiro de 2025 no salão de um hotel sofisticado próximo ao Windsor Great Park, perto do histórico castelo do rei Charles III, a oeste de Londres.
Menos de dois anos depois, a marca já vendeu quase 87 mil carros no Reino Unido, incluindo o Jaecoo 5, menor, lançado no outono passado — um sucesso que surpreendeu concessionárias e a própria firma.
Steve Young, diretor-gerente da Auto West London, abriu sua concessionária para as marcas Jaecoo e Omoda, irmã da primeira, em março do ano passado, com a meta de vender 350 carros. No fim, vendeu mais de 500. Neste ano, espera vender mais de 1.200, disse ele, com muitos clientes em listas de espera.
Young estima que cerca de três em cada cinco compradores de Jaecoo tinham anteriormente marcas de luxo como BMW, Mercedes e Range Rover, que ficaram mais caras para os consumidores financiarem com a alta das taxas de juros. A Jaecoo atraiu clientes oferecendo financiamentos sem juros.
“Por que não comprar um carro com recursos semelhantes por uma prestação mensal muito menor?”, disse.
As concessionárias exploram abertamente a semelhança com o Range Rover, que pertence à Jaguar Land Rover, subsidiária da indiana Tata Motors.
A Chery tinha conhecimento detalhado do Range Rover Evoque antes de lançar o Jaecoo 7. Em 2012, formou uma joint venture com a JLR para aproveitar o apetite então insaciável da China por carros de luxo ocidentais. Até este verão, a joint venture produzia versões locais do Evoque em uma fábrica em Changshu, perto de Xangai.
A JLR decidiu encerrar os modelos produzidos na China em 2024, após anos de problemas.
A joint venture está mudando o foco para novos produtos desenvolvidos com a tecnologia de veículos elétricos da Chery e que levarão a histórica marca Freelander, da JLR. Em um evento recente em Abu Dhabi, a firma iniciou uma ofensiva global de vendas que, com o tempo, poderá oferecer preços menores que os de outras marcas da JLR.
PB Balaji, CEO da JLR, disse em maio que os preços mais altos do Range Rover não o colocavam em concorrência direta com a atual geração de importados chineses. A firma já havia enfrentado fabricantes de cópias e, em 2019, venceu em Pequim um processo histórico contra uma réplica do Evoque chamada Landwind X7.
Outras montadoras europeias demonstram preocupação abertamente com a chegada dos novos concorrentes. Volkswagen e Stellantis, as duas maiores fabricantes da região, alertaram para o impacto da nova concorrência sobre suas margens de lucro. Esse é um dos motivos apresentados pela Volkswagen para a necessidade de cortar mais de 100 mil empregos.
Mas há poucas dúvidas de que os compradores estão satisfeitos. Nos 12 meses até setembro, as vendas totais de carros cresceram cerca de 10% no Reino Unido, apesar do crescimento econômico modesto, impulsionadas pela chegada de modelos chineses mais acessíveis. Muitos, como o Jaecoo 7, são veículos convencionais com motor a combustão ou híbridos, e não elétricos, segmento pelo qual a China é mais conhecida.
“O consumidor está se beneficiando de um custo menor”, disse Andy Palmer, ex-CEO da Aston Martin. “A única discussão é se estamos diante de uma concorrência justa ou desleal.”
Para as concessionárias, a expansão das marcas chinesas também é uma bênção depois de uma recuperação lenta no período pós-pandemia e do fechamento de lojas pela Ford e pela Stellantis. “O setor automotivo do Reino Unido está passando por uma mudança geracional”, disse Robert Forrester, CEO do grupo de concessionárias Vertu.
A primeira montadora chinesa a conquistar espaço no mercado britânico foi a SAIC, usando a marca britânica MG, que comprou após a falência da firma nos anos 2000.
Nascida originalmente em Oxford como Morris Garages, a MG era conhecida pelos roadsters no Reino Unido do pós-guerra e nos Estados Unidos — seu maior mercado — antes de entrar em declínio nos anos 1970.
As vendas voltaram a crescer quando a SAIC começou a colocar o conhecido logotipo octogonal da MG em veículos elétricos. Em meio à febre dos elétricos durante a pandemia, com poucos modelos acessíveis disponíveis, não parecia importar que a nova MG tivesse pouco a ver com a antiga.
Os primeiros compradores da MG muitas vezes não sabiam que a marca era fabricada por uma firma chinesa. Agora, a maioria dos britânicos não se incomoda em ter uma marca assumidamente chinesa como a Jaecoo, depois de anos comprando eletrônicos chineses, disse Luscombe, da concessionária de Leeds.
“As pessoas estão procurando valor, estão procurando especificações: quais recursos eu consigo pelo meu dinheiro?”, disse. “O fato de eles não serem fabricados aqui não afasta as pessoas.”
Escreva para Stephen Wilmot em stephen.wilmot@wsj.com.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim deixaremos mais pessoas por dentro do mundo das finanças, economia e investimentos!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal
