Viver de renda não é imediatismo: veja o que muda (e o que não muda) na estratégia em 2026
Para quem planeja viver de renda, janeiro oferece um ponto de partida para tirar esse projeto do papel. Mesmo quem ainda não começou pode usar o início de 2026 para estruturar uma estratégia de longo prazo voltada à geração de renda. “2026 pode ser o início dessa construção, não o momento de chegada”, afirma Pedro Galdi, analista de ativos de renda variável da AGF.
E antes de chegar lá é preciso ter em mente que, para viver de renda, é necessário ter disciplina, gestão de riscos e diversificação. Uma boa carteira focada em renda precisa ter renda variável, renda fixa e previdência privada.
Para Caio Tonet, diretor Institucional da W1 Capital, o projeto “viver de renda” tem duas fases distintas: a de acúmulo de patrimônio e a de usufruto.
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A primeira é o momento em que o investidor ainda está construindo o patrimônio, cujo o foco não é sacar rendimento, mas formar capital. É também o período em que o investidor precisa definir quanto pretender receber de renda passiva no futuro e qual o patrimônio será necessário para isso.
Por que rentabilidade mensal não é renda
“Muita gente confunde viver de renda com a rentabilidade mensal. Se a carteira rendeu 1% no mês, a pessoa acha que tem 1% para gastar. Isso é um erro”, afirma Tonet.
O que pode ser considerado renda, salienta, é apenas o retorno acima da inflação. Caso contrário, o investidor está consumindo o próprio capital e perdendo poder de compra ao longo do tempo. Essa ideia também vale para a fase do usufruto.
Consciente das etapas, é hora de definir quanto poupar por mês, quanto aportar por ano e quais instrumentos usar ao longo do caminho. “Eu considero muito eficiente bons fundos de previdência privada, principalmente quando você quer se aposentar com mais de 10 anos de horizonte”, diz o executivo da W1.
Tonet diz que o instrumento é muito eficiente para trocar de estratégia e de fundos de investimento ao longo do tempo, sem impacto tributário imediato.
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Através de modalidades como PGBL (Plano Gerador de Benefício Livres) e VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre) é possível ter isenção de come-cotas e a vantagem da tabela regressiva do Imposto de Renda, que vai diminuindo a alíquota com o tempo. O piso é 10% para investimentos acima de 10 anos.
“Mas a previdência sozinha não é suficiente. Ela é um instrumento dentro de um portfólio total de investimentos”, comenta o executivo.
Ações, dividendos e o conceito do BESST
Neste sentido, Galdi, da AGF, defende que é muito eficiente montar uma carteira previdenciária focada em dividendos através do mercado acionário.
“As ações são um excelente instrumento para quem quer viver de renda, desde que você escolha firmas com histórico consistente de pagamento de dividendos e construa essa posição ao longo do tempo”, diz.
Ele reforça a ideia de que a renda variável não tem relação com imediatismo. “Você compra ações para construir uma posição que, lá na frente, vai te pagar dividendos de forma recorrente”, afirma.
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Além de selecionar bem os papeis, é necessário reinvestir os dividendos. “Dessa forma, as ações passam a trabalhar para você, com o tempo se tornam uma fonte de renda passiva muito eficiente.”
As melhores ações para viver de renda, lembra Galdi, são de firmas maduras que operam em setores essenciais, com longo histórico de dividendos e que tenham boa governança e geração de caixa previsível.
Neste sentido, ele traz o conceito do BESST, sigla para Bancos, Energia, Saneamento, Seguridade e Telecomunicações.
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“Vamos usar como exemplo a pandemia. Alguém deixou de trabalhar com bancos? Energia, alguém deixou de acender a luz? Seguro, todo mundo continuou renovando. A parte de saneamento, água, tem que usar. Telefonia, internet…”
Olhar atentamente cada firma também faz parte do processo de escolha, não é porque a companhia está num desses setores que é garantia de tranquilidade. “É preciso ser seletivo”, comenta.
O papel da renda fixa no atual patamar de juros
O timing também é um elemento a ser levado em conta na hora de investir pensando na renda futura. Bruno Perri, economista-chefe e sócio da Fórum Investimentos, comenta que, no atual patamar de juros, com Selic a 15% ao ano, há um custo de oportunidade de se sair da renda fixa para ativos de maior risco.
Por isso, ele ainda prefere rendas fixas que proporcionam cupons e isenção de IR, num horizonte mais curto. “Para 2026, o ideal são instrumentos bancários isentos, como LCIs e LCAs (Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio), de preferência com liquidez diária.”
Em horizontes mais prolongados, olhando para renda fixa, Perri recomenda uma carteira de emissões bancárias com vencimentos escalonados, como CDBs, LCIs e LCAs, além de instrumentos isentos em crédito privado com previsão de amortizações e pagamento de juros recorrentes.
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Nesta descrição aparecem as debêntures incentivadas (Lei 12.431). Esse tipo de papel é emitido por firmas, geralmente de infraestrutura, e são isentos de IR para pessoas físicas e pagam cupons.
Combinam com a estratégia de renda porque geram rendimentos recorrentes, protegem da inflação e são isentos de IR. Mas não existe receita de bolo em relação à composição da carteira para viver de renda, adverte o especialista. “A combinação ideal vai alterar conforme o perfil de risco e o horizonte de investimento do investidor.”
Na renda fixa, Tonet, da W1 Capital, também lembra de bonds globais de alta qualidade (high grade), evitando os papéis mais arriscados (high yeild). “Quem está se aposentado não pode ter surpresas no portfólios, e ter esses ativos mais seguros dolarizados é equilibrar o risco da moeda brasileira.”
FIIs: renda recorrente, mas com limitações
Aqui no Brasil, a expectativa é de que os juros devem começar a cair neste ano, o que pode combinar com uma mudança na estratégia de alocação para ativos de risco.
“Com a queda de juros, é natural haver uma migração paulatina e parcial. Os yields de ações distribuidoras de dividendos e FIIs (Fundos Imobiliários) vão ficando mais interessantes em relação às taxas na renda fixa“, comenta Perri.
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Essa migração também implica no aumento de volatilidade da carteira. Por isso, diz, “é preciso que seja feita com parcimônia”.
Neste sentido, ele vê boas oportunidades de entrada em Fundos Imobiliários de tijolo, que são instrumentos de renda recorrente e que pagam dividend yield atrativos, como num aluguel.
Além disso, a distribuição mensal é isenta de Imposto de Renda (IR) e é um produto que tem uma volatilidade menor que ações. “Na renda variável, os FIIs podem ter um bom momento com o ciclo de queda de juros que se avizinha.”
Galdi, por outro lado, é crítico em relação ao uso dos FIIs como base de renda. A lógica é que esse tipo de fundo distribui quase tudo o que ganha (95%) e, para crescer, precisa fazer novas emissões. Isso obriga o investidor a fazer novos aportes ou ver sua cota ser diluída.
Este é um sistema diferente de ações, cujas firmas reinvestem parte do lucro no próprio negócio. “Quando você pega uma companhia que distribui 50% — um excelente pay-off —, os outros 50% vão para reinvestimento. No fundo imobiliário, não. Se ele quiser investir em mais um prédio, o cotista terá de participar, senão será diluído. A diferença é essa.”
Yield alto não é tudo, o risco por trás da taxa
No geral, independentemente do instrumento, o investidor de longo prazo não deve buscar apenas a maior taxa ou yield. “O principal erro é ser ‘taxeiro’. Muita gente olha só para o yield, para o rendimento que está sendo pago, mas não olha o risco que está por trás daquilo,” observa Perri.
Outro cuidado também é evitar modismos e buscar sempre a diversificação. “É fundamental diversificar. Não dá para concentrar em um único emissor, em um único ativo ou em um único tipo de risco”, complementa.
Por tudo isso, também é importante considerar o apoio profissional, que poderá ajudar o investidor a entender o que ele está comprando e quais riscos ele está assumindo. “Muitas vezes a pessoa entra em produtos que não entende completamente, e isso pode gerar frustração lá na frente”, diz Perri.
Para viver de renda, portanto, é necessário muita paciência, investimentos e reinvestimentos periódicos, gastar menos do que ganha e ter atenção aos riscos. Esses são detalhes que vão fazer a diferença quando a fase de acúmulo se tornar a fase de usufruto.
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Autor: Leo Guimarães