A cartada de Trump para controlar o petróleo da Venezuela pelos próximos 100 anos

Os Estados Unidos devem assumir o controle majoritário de uma parcela gigantesca da riqueza petrolífera da Venezuela. A manobra, sem precedentes, criaria a segunda maior petroleira privada do mundo em volume de reservas e garantiria o abastecimento americano por décadas, segundo autoridades.
O presidente Donald Trump anunciou o acordo em uma publicação na Truth Social na noite de sexta-feira. Trata-se de sua iniciativa mais recente para consolidar o domínio dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental, contrapondo-se a anos de avanço da China, dentro de sua retomada da Doutrina Monroe, do século 19.
Em coordenação com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, uma parceria com a iniciativa privada garantiu aos EUA o controle majoritário de mais de 65 bilhões de barris em reservas provadas no país, afirmou Trump.
Uma autoridade americana disse que os EUA controlarão 55% da produção efetiva da joint venture e terão acesso ao petróleo a preço de custo.
O plano representa uma intervenção sem paralelo, nos tempos modernos, na economia de um país sul-americano que Trump certa vez chamou de 51º estado americano. A operação remete ao controle britânico dos campos de petróleo do Irã e à divisão de ativos iraquianos entre americanos e europeus há um século.
O acordo coroa uma ofensiva na qual os Estados Unidos capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, apreenderam petroleiros do país e atacaram diversas embarcações supostamente usadas para transportar drogas a partir da Venezuela, matando mais de 200 pessoas.
Também é uma manobra ainda não testada, que pode ficar vulnerável a contestações judiciais e a mudanças políticas em Washington. Não está claro se o acordo de Trump seria plenamente mantido por um futuro presidente americano nem se sobreviveria a uma nova turbulência política na Venezuela.
“O esforço do governo Trump para garantir uma participação nas reservas de petróleo da Venezuela provavelmente será contraproducente para os investimentos de longo prazo no setor, principalmente por causa do risco político que introduz”, escreveu Chris Kennedy, responsável pela área de política econômica estratégica da Bloomberg Economics.
“Poucas firmas devem estar dispostas a fazer grandes investimentos em projetos inteiramente novos diante do risco de um governo americano pós-Trump abandonar a iniciativa ou de um novo governo venezuelano, eleito democraticamente, não reconhecer o acordo”, acrescentou.
O anúncio provocou reação imediata nas redes sociais. Alguns venezuelanos acusaram Rodríguez de “entregar” o petróleo do país, enquanto outros questionaram a ausência de qualquer menção a uma transição democrática ou a um calendário eleitoral como parte do acordo.
As críticas podem aumentar os riscos políticos para Rodríguez, cuja popularidade já vinha recuando nas pesquisas mais recentes.
A Chevron, única firma americana que atualmente produz petróleo na Venezuela, não quis comentar. A ExxonMobil também não se manifestou.
“Acima de tudo, é necessário um plano confiável para alcançar uma estabilidade política duradoura e convencer as grandes petroleiras a investir dezenas de bilhões de dólares, especialmente na construção das caras unidades necessárias para processar o petróleo ultrapesado da Venezuela”, afirmou Clay Seigle, pesquisador sênior não residente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
A nova firma teria concessões de cem anos sobre campos que somam cerca de 65 bilhões de barris em reservas provadas, segundo uma autoridade americana. A companhia seria a segunda maior detentora firmarial de reservas provadas do mundo, atrás apenas da Saudi Aramco, acrescentou.
A Bloomberg News informou na sexta-feira que os EUA buscavam uma participação relevante nas reservas venezuelanas por meio de uma possível parceria entre o Departamento de Defesa e Alejandro Betancourt, controverso investidor do setor de energia que se tornou um importante intermediário entre os dois países.
A produção da nova companhia ajudará a fornecer petróleo a preço de custo, recompor a reserva estratégica dos Estados Unidos e atender às necessidades das Forças Armadas americanas, segundo a autoridade.
Rodríguez confirmou o acordo em um comunicado publicado no Telegram. Ela classificou a operação como “histórica” e afirmou que os projetos petrolíferos gerarão US$ 209 bilhões em impostos.
Segundo a presidente interina, o acordo abrange 17 campos estratégicos com 65 bilhões de barris em reservas provadas. Ela não mencionou, porém, a participação que cada país terá na firma.
“Isso é totalmente inédito”, afirmou Alejandro Velasco, professor associado da Universidade de Nova York. A Venezuela “corre o risco de se tornar um playground do capitalismo americano”, disse.
O anúncio ocorre em meio a uma corrida mundial para garantir o fornecimento de petróleo, abalado pela guerra no Irã. Trump também enfrenta a preocupação dos eleitores com os preços da gasolina e a inflação antes das eleições legislativas de meio de mandato, em novembro.
Embora a produção venezuelana de petróleo tenha aumentado neste ano, o país extraiu apenas 1,16 milhão de barris por dia em julho, segundo levantamento da Bloomberg. O volume corresponde a menos da metade do registrado dez anos atrás.

A queda reflete a saída anterior de muitas firmas ocidentais do setor de energia, além de anos de falta de investimentos e corrupção, que deixaram a indústria petrolífera venezuelana em ruínas.
A estratégia de Trump está alinhada à chamada “Doutrina Donroe” — um trocadilho com Donald e Monroe —, voltada a ampliar a influência americana em todo o Hemisfério Ocidental.
Desde que as forças dos EUA derrubaram Maduro e Rodríguez assumiu o poder, Trump tem procurado exercer pressão sobre o país e suas vastas riquezas minerais e petrolíferas.
O presidente americano alardeia com frequência que uma parcela significativa do petróleo bruto venezuelano — e das receitas geradas por ele — está fluindo para os Estados Unidos.
O plano também está em sintonia com as medidas adotadas por Trump em seu segundo mandato para intervir diretamente e adquirir participações do governo federal em empreendimentos destinados a fortalecer as cadeias americanas de suprimento de semicondutores, minerais críticos e baterias.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Bloomberg
