A cidade brasileira que mais tem a perder com o novo tarifaço de Donald Trump

Donald Trump teria poucas chances de ser aplaudido num jogo do XV de Piracicaba. A torcida do clube de futebol mais tradicional da cidade de cerca de 450 mil habitantes no interior de São Paulo ganhou um motivo concreto para antipatizar com o presidente americano: Piracicaba lidera, com enorme distância, o ranking dos municípios brasileiros mais expostos ao novo tarifaço dos Estados Unidos.
O levantamento, feito pelo Estadão com dados do Ministério do Desenvolvimento e da Câmara Americana de Comércio, encontrou US$ 1,19 bilhão em exportações de Piracicaba dentro dos grupos de produtos atingidos pelas sobretaxas. São Paulo, maior cidade e principal centro econômico do país, ficou em segundo lugar, com US$ 239,4 milhões. A exposição piracicabana é quase cinco vezes o valor.
Há uma ironia nos efeitos do novo tarifaço. Uma firma americana está no centro dessa exposição: a Caterpillar. Líder mundial de equipamentos para construção e mineração, ela mantém em Piracicaba um de seus principais complexos industriais.
Máquinas pesadas responderam por 43,5% das exportações do município no primeiro semestre de 2026. Os Estados Unidos absorveram 51% de tudo o que Piracicaba vendeu ao exterior, ou US$ 657 milhões.
A liderança de Piracicaba tem origem em uma história industrial construída ao longo de mais de um século. Conhecida nacionalmente pela cana-de-açúcar, a cidade aprendeu a fabricar as máquinas usadas nas usinas e acabou integrada às cadeias globais de grandes multinacionais.
A política de Trump encarece agora uma divisão internacional da produção que ajudou a própria Caterpillar a ganhar escala, reduzir custos e manter sua liderança mundial.
O ranking considera as exportações de 2024 nos dez grupos de produtos mais afetados pelas novas tarifas. Algumas mercadorias estão sujeitas a apenas uma das medidas; outras foram atingidas pelas duas, que somam 37,5% em sobretaxa. O US$ 1,19 bilhão mede o comércio exposto, e não uma perda já consumada: possíveis exceções, contratos e a reação dos compradores definirão o impacto efetivo, algo que só será possível de dimensionar de fato ao longo dos próximos meses.
Como a cana ensinou a fabricar máquinas
A industrialização local começou com uma necessidade prática. Usinas de açúcar dependiam de moendas, caldeiras, sistemas de vapor e grandes estruturas metálicas, muitas vezes importadas.
As dificuldades de reposição e a expansão da atividade abriram espaço para oficinas capazes de consertar, adaptar e depois fabricar esses equipamentos.
Foi nesse ambiente que em 1920 nasceu a Dedini, oficina que se tornaria uma das principais fabricantes brasileiras de equipamentos para açúcar e etanol. Décadas depois, o comando passou a Dovílio Ometto, genro do fundador Mário Dedini e tio de Rubens Ometto, fundador da Cosan.
A Dedini chegou a fornecer praticamente tudo o que era necessário para montar uma usina de açúcar e álcool, enquanto fundições, caldeirarias e prestadores de serviços cresciam em torno dela, explicou ao InvestNews Carlos Eduardo Freitas Vian, professor do Departamento de Economia da Esalq-USP
O conhecimento acumulado escapou do setor sucroenergético. firmas da região passaram a atender também indústrias de alimentos, bebidas, energia, papel e celulose e mineração. A Caterpillar encontrou essa estrutura quando inaugurou sua fábrica no município, em 1976.
“Era uma cidade do interior, mas não era difícil, naquele momento, conseguir mão-de-obra relativamente capacitada, porque você já tinha um segmento metal-mecânico atuando”, diz Vian.
A companhia elevou a escala da indústria e inseriu Piracicaba em sua rede mundial de produção.
A fábrica brasileira de uma firma global
A Caterpillar distribui produção, engenharia, fornecedores e serviços por diferentes países. Cada fábrica ocupa uma função nessa rede: modelos e componentes são alocados onde a companhia encontra a melhor combinação de capacidade industrial, custos, escala, logística e conhecimento técnico.
Em nota, a firma informou que o complexo piracicabano produz escavadeiras, motoniveladoras, carregadeiras, tratores de esteira, compactadores e equipamentos de geração de energia. A operação também distribui peças, remanufatura componentes e monta mangueiras hidráulicas.
Em 2024, a companhia inaugurou um prédio logístico de 15 mil metros quadrados, reformulou a produção de carregadeiras e abriu uma linha de transmissões – simplificadamente, é o “câmbio” dos tratores – que abastece outras unidades do grupo no mundo.
Uma transmissão pode ser fabricada no interior paulista, seguir para outra fábrica, ser incorporada a uma máquina e chegar a um terceiro mercado. As tarifas de Trump aumentam o peso das fronteiras nessa conta.
A Caterpillar não informou quanto de seu portfólio responde pela exposição bilionária de Piracicaba ao tarifaço. Um cruzamento feito pelo InvestNews entre os produtos declarados pela companhia e os dados oficiais de comércio exterior mostra, porém, uma correspondência expressiva.
Nos 12 meses encerrados em junho, Piracicaba vendeu US$ 1,38 bilhão aos Estados Unidos. Desse total, US$ 1,12 bilhão — ou 81,3% — veio justamente do núcleo do portfólio da fábrica da Cat, como é também conhecida.
Os equipamentos de geração de energia ainda acrescentaram US$ 105 milhões à conta. Juntas, as duas categorias responderam por 88,9% das exportações do município ao mercado americano.
Os dados oficiais não identificam a firma responsável por cada embarque, o que impede atribuir todo esse valor à Caterpillar. A combinação entre produtos, escala e destino coloca, porém, a operação da multinacional no centro da exposição da cidade ao tarifaço.
A produção alcança ainda fornecedores regionais de peças fundidas, usinadas e grandes conjuntos. O sindicato patronal das indústrias metalmecânicas de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras estima que aproximadamente 50 firmas, responsáveis por 10 mil empregos diretos, estejam expostas ao tarifaço.
O padrão se repete em Campo Largo, no Paraná, sede de outra fábrica da Caterpillar e sétima colocada no ranking nacional de exposição às novas tarifas, com US$ 184,1 milhões em exportações sujeitas às alíquotas. Em 2025, o município vendeu US$ 146,7 milhões aos Estados Unidos em escavadeiras, carregadeiras e máquinas semelhantes.
A repetição da concentração em duas cidades que abrigam fábricas da companhia reforça a indicação de que a rede brasileira da multinacional americana está entre as principais atingidas pela política de Trump.
O preço de atravessar a fronteira
O primeiro efeito das tarifas aparece nos preços e nos lucros. O importador americano pode pagar o custo adicional, exigir desconto do fabricante, adiar uma encomenda ou procurar máquinas produzidas em outro país. Cada reação distribui o impacto de uma maneira diferente entre cliente, fabricante e fornecedores.
“A tarifa entra, sai, volta, negocia. Para as firmas, é um cenário muito complicado, prejudica o planejamento de uma produção que acontece globalmente”, diz Vian. “Você não sabe para onde as coisas vão.”
A agenda de Trump procura estimular fábricas nos Estados Unidos. O México também pode ganhar espaço pela proximidade do consumidor americano e pelo acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá, o USMCA.

Linhas já instaladas carregam certa inércia. Máquinas pesadas exigem ferramental, certificações, engenheiros, fornecedores qualificados e trabalhadores experientes. Mover uma operação inteira custa caro e leva tempo.
A Caterpillar atravessa um período de expansão. Suas vendas e receitas cresceram 24% no segundo trimestre, para US$ 20,54 bilhões, o primeiro resultado trimestral acima de US$ 20 bilhões na história da companhia.
A questão para Piracicaba está na geografia desse crescimento.
O risco é a fábrica brasileira continuar produzindo os modelos atuais enquanto uma nova geração seria destinada aos Estados Unidos ou ao México, por exemplo. Se acontecer, a perda de centralidade industrial tende a aparecer aos poucos: uma linha que não chega, um componente transferido, um projeto de engenharia atribuído a outra unidade.
O efeito mais duradouro surgirá nas decisões de investimento das multinacionais. Piracicaba levou mais de um século para formar sua base industrial; a Caterpillar passou os últimos 50 anos incorporando essa estrutura à sua rede global. O tarifaço adicionou um novo custo à escolha do endereço da próxima máquina.
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Autor: Greg Prudenciano