Após Americanas e Oi, Camille Faria cria gestora para assumir empresas em crise. E não está só no mercado

A executiva Camille Faria fez carreira entrando em firmas quando a maioria dos diretores prefeririam sair. Foi diretora financeira da Oi durante a primeira recuperação judicial e ocupou o mesmo cargo na Americanas, em que liderou a maior RJ da história do Brasil.
Agora, decidiu transformar essa experiência em negócio próprio. A ex-CFO da Americanas – e que, de fevereiro a março, teve uma passagem relâmpago pela Oncoclínicas – decidiu criar a Althia, gestora dedicada a assumir e assessorar firmas em dificuldades financeiras.
A Althia pretende se concentrar em sete setores (Óleo e Gás, Telecom, Varejo, Energia, Saúde, Navegação e Infraestrutura) e em companhias com faturamento superior a R$ 1 bilhão e ao menos R$ 500 milhões em dívidas.
A casa poderá investir diretamente ou reorganizar companhias para bancos, fundos e outros credores. Camille disse que a ideia de criar a própria gestora partiu dos pedidos de credores que desejam contar com os serviços dela em firmas de médio porte, que não teriam condições de contratar uma profissional com o mesmo currículo.
“Creio que nossa casa vai misturar um perfil difícil de encontrar hoje no mercado, de pessoas que passaram pelas cadeiras de CEO e CFO e também já foram bankers. Conhecemos as duas realidades”, diz Camille Faria em conversa com o InvestNews.
A executiva será sócia majoritária da Althia com outros dois executivos de mercado que serão anunciados em breve.
Ciclo de reestruturação
A chegada de um nome conhecido das maiores recuperações judiciais do país a esse mercado ajuda a dimensionar uma mudança em curso. À medida que crescem as reestruturações, ganham relevância as gestoras dispostas a ir além da renegociação da dívida e colocar a mão na operação.
“As companhias raramente entram em dificuldade só por causa de uma estrutura de capital desbalanceada. Elas têm algum problema operacional para ser endereçado também”, afirma Camille. Isso pode exigir cortes de custos, venda de ativos, mudança de estratégia ou uma transformação completa do modelo de negócio.
Para ela, a demanda continuará elevada mesmo quando os juros começarem a cair. Depois de anos de crédito caro, muitas firmas ainda precisarão reorganizar dívidas e operações. “Infelizmente, a gente ainda está no início de um ciclo”, diz.
Assumir firmas com dívidas elevadas, falta de capital ou disputas entre acionistas já é o negócio de um grupo de gestoras brasileiras.
Em pouco mais de um ano, IG4, Mapa, AGI e Geribá chegaram ao comando de Braskem, Casas Bahia, Lavoro e Alliança Saúde. São companhias de setores diferentes, mas às voltas com problemas monetários ou societários complexos.
Conhecidas como gestoras de situações especiais – ou special situations –, essas casas entram quando acreditam que a operação continua viável. O ativo ideal ainda vende, presta um serviço relevante ou gera caixa.
A complexidade reduz o número de compradores, abre espaço para negociar um desconto e cria a possibilidade de retorno maior. Renegociada a dívida, reorganizado o controle ou trocada a gestão, a aposta é que a firma volte a valer mais.
De onde vem o dinheiro
Os recursos vêm de investidores institucionais, tesourarias de firmas e famílias endinheiradas. Entre eles e as gestoras que assumem a reestruturação, há casas que funcionam como financiadoras e selecionadoras de negócios.
É o caso da 051 Capital, fundada por Flávio Aragão. A casa aplica em fundos de outras gestoras e participa de algumas operações como coinvestidora. Antes, analisa a experiência dos gestores, a lógica do negócio e as garantias. “A gente não dá cheque em branco. Quero ver tese por tese”, afirma Aragão.
A Althia começará sem um fundo. Faria diz que investidores já demonstraram interesse em financiar seus projetos, mas a casa avaliará primeiro a necessidade de capital de cada operação. As aquisições poderão ser alavancadas, com o credor trocando um crédito estressado por um novo título.
Os bancos participam por outro caminho. Quando recebem ações em troca de dívidas que as firmas não conseguem pagar, podem colocá-las em fundos administrados por gestores especializados, responsáveis por reorganizar a companhia e recuperar o investimento (ou parte dele).
Foi por meio de uma variação desse arranjo que a IG4, de Paulo Mattos, chegou ao controle da Braskem em junho. A gestora comprou de cinco bancos R$ 21 bilhões em créditos inadimplidos da Novonor (ex-Odebrecht) que tinham ações da petroquímica como garantia.
Os papéis foram transferidos a um fundo administrado pela IG4, que passou a deter 50,1% do capital votante da Braskem e a compartilhar o controle com a Petrobras. É a maior companhia assumida pela gestora em dez anos.
Poder de barganha
Os fundos brasileiros de special situations tinham R$ 17,4 bilhões disponíveis em junho, segundo levantamento da Spectra obtido peloValor Econômico. Pela primeira vez, o volume superou os R$ 14,6 bilhões não aplicados pelos fundos tradicionais de private equity.
O número de gestoras especializadas também saltou de cinco, em 2015, para 57 neste ano. A virada mostra quanto dinheiro migrou para esse mercado, mas não garante maior poder de barganha: com mais casas disputando os ativos, a concorrência também aumentou.
A vantagem aparece nas operações em que poucos investidores têm dinheiro, equipe e disposição para enfrentar o problema.
“Compramos uma firma viva, geradora de caixa, mas com um problemão para resolver”, resumiu, sob reserva, um gestor de uma das maiores casas do setor ouvido pelo InvestNews.
Potenciais compradores podem desejar o ativo, mas não o desgaste de negociar com credores, pacificar sócios ou conduzir uma recuperação. É nesse intervalo que entram as gestoras.
Os métodos
O desconto buscado pelas gestoras pode ser capturado de diferentes maneiras. Uma das mais comuns é entrar por meio da dívida e, a partir dela, chegar ao controle da firma.
A Casas Bahia mostra como isso funciona – e também como uma gestora especializada no comando não resolve o problema por si só. Em 2024, a varejista fechou uma recuperação extrajudicial com seus principais credores, entre eles Banco do Brasil e Bradesco.
A Mapa comprou dos dois bancos R$ 1,65 bilhão em debêntures conversíveis emitidas no processo. Em agosto de 2025, transformou os títulos em ações e chegou a 85,5% do capital. Um ano depois, porém, a Casas Bahia pediu recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas. A troca de controle não estabilizou o negócio.
A Geribá, de Luiz Alberto Marques, trabalha na reestruturação da Alliança Saúde, cujo controle o empresário Nelson Tanure perdeu para os credores. O bloco foi vendido a um veículo administrado pela gestora. Em agosto, já sob os novos donos, a rede chegou a uma recuperação extrajudicial para renegociar R$ 1,1 bilhão.
Nem todas as casas chegam pela dívida. Em março, a AGI comprou a operação brasileira de distribuição de insumos agrícolas da Lavoro, que havia recorrido a uma recuperação extrajudicial para reorganizar aproximadamente R$ 2,5 bilhões devidos a fornecedores. Desde então, reduziu lojas, funcionários e a área de atuação da companhia.
Não existe uma cartilha única.
Cada gestora precisa conhecer os riscos do setor e reunir executivos capazes de operar o negócio que pretende assumir. Pode passar meses estudando uma firma, negociando com credores e procurando gestores – e muitas operações morrem antes de receber o primeiro aporte.
Para Camille, a solução começa por mostrar a todos quanto a firma realmente consegue pagar e quais operações ainda têm futuro. “Todo mundo sabe que vai doer”, afirma. “O que ninguém quer é sentir que está arcando com um pedaço maior da dor do que deveria.”
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Raquel Brandão
