Berkshire Hathaway faz primeiro encontro da era pós-Buffett, com Greg Abel no comando
O “Woodstock dos capitalistas”, como ficou conhecido o congresso anual da Berkshire Hathaway durante as décadas nas quais Warren Buffet, junto com seu falecido sócio Charlie Munger, comandou o show, entrou em uma nova era neste sábado (2).
Os milhares de acionistas e fãs de Buffet se aglomeraram no centro de convenções de Omaha, mas no centro do palco quem liderou a apresentação dos números foi o novo CEO da Berkshire, Greg Abel. O slogan da primeira reunião após a era Buffet não quis deixar dúvidas: “o legado continua”.
A preocupação tem motivos: desde que Buffett anunciou, aos 95 anos de idade, sua aposentadoria no fim do ano passado, as ações do conglomerado passaram a cair.
No fim de abril, as ações Classe B acumulavam desempenho inferior ao S&P 500 Index em mais de 37 pontos percentuais nos últimos 12 meses — o pior resultado anual desde 2000. A companhia ainda mantém seu valor de mercado acima do trilhão de dólares, mas teve uma perda de US$ 139 bilhões nessa cifra.
Os investidores se acostumaram a incluir uma espécie de “prêmio Buffett” nas ações da Berkshire. O desconto, portanto, parece um movimento já esperado. Recuperar essa diferença agora cabe a Abel, se conseguir mostrar suas próprias realizações.
Mesmo longe do dia a dia da firma, Buffett se manteve como presidente do conselho. Marcou presença no evento deste ano em Omaha. E elogiou o sucessor: “não poderíamos ter tomado uma decisão melhor, ele [Abel] é a pessoa certa”.
Não por acaso, Buffet citou o CEO da Apple, Tim Cook. “Ele também sucedeu uma lenda, Steve Jobs”, lembrou.
Abel passou décadas como executivo do time do ex-CEO. Sua fama é de que ele examina os negócios e o portfólio de ações da Berkshire com um olhar mais crítico do que o de seu antecessor. A expectativa é que aja com firmeza diante de companhias, posições acionárias e até executivos seniores que não atenderem às suas expectativas.
Mas algumas estratégias parecem não só se manter as mesmas como até mais fortes. O enorme caixa do conglomerado, por exemplo. A Berkshire nos últimos anos sob Buffett acumulou centenas de bilhões de dólares de liquidez.
No primeiro trimestre deste ano, já completamente sob o comando de Abel, a reserva de caixa atingiu um novo patamar histórico, chegando à marca de US$ 397 bilhões. É uma cifra suficiente para comprar, nos valores de mercado atuais, instituições financeiras como o Bank of America ou o Goldman Sachs, que valem cada um cerca de US$ 350 bilhões.
O grupo poderia até mesmo comprar uma das mais longevas apostas no portfólio construído na era Buffet, a Coca-Cola. E fazer isso à vista.
Com tanto dinheiro à disposição, o CEO Abel reabriu o programa de recompras, parado desde 2024.
Muito do tamanho do dinheiro acumulado vem da percepção de que grande parte das ações está fora de preço, no momento. Na visão de Abel, a inteligência artificial tem leva as bolsas a recordes e, com isso, muitos ativos estão caros. Indicadores usados pelo próprio Buffett mostram esse cenário. Um deles compara o valor total do mercado acionário dos EUA ao PIB, está acima de 220%, próximo de máxima histórica.
Durante o evento, Greg Abel ofereceu uma nova perspectiva sobre como enxerga a vasta carteira de ações da holding. O CEO enfatizou, por exemplo, uma estratégia de alta concentração ancorada em um seleto grupo de ativos principais.
O sucessor de Warren Buffett descreveu o que chamou de as posições “Core Four” (as quatro fundamentais) — Apple, American Express, Moody’s e Coca-Cola — como a base dos investimentos em renda variável.
Outras posições relevantes também foram citadas pelo executivo, como Bank of America, Chevron e Alphabet. A Berkshire adquiriu cerca de US$ 4 bilhões em ações da Alphabet (controladora do Google) durante o terceiro trimestre de 2025.
Abel também destacou as participações expressivas do conglomerado em tradings japonesas como outro pilar estratégico do portfólio.
Os investidores gostaram de ouvir Abel repetir alguns dos mantras de Buffett. “Já ouvimos muitas vezes que o ‘ABC’ — a arrogância, a burocracia e a complacência, que pode se infiltrar em uma organização — é o que mata uma firma. Nossa intenção é jamais permitir que isso aconteça”, afirmou.
Buffett no camarote
Nos bastidores, durante o intervalo para o almoço Warren Buffett comparou, em entrevista à rede CNBC, o comportamento atual dos mercados a uma “igreja com um cassino anexo”, uma metáfora em referência ao tradicional investimento com foco no valor da companhia e o entusiasmo recente por operações de curto prazo e o interesse crescente em mercados de previsão.
“As pessoas transitam entre a igreja e o cassino. Eu diria que ainda há mais gente na igreja do que no cassino, mas o cassino tem se tornado muito atraente”, afirmou. “Se você está comprando ou vendendo opções com vencimento de um dia, isso não é investir, nem mesmo especular — é jogo de azar.”
Buffett ressaltou que o entusiasmo por esse tipo de “aposta” atingiu seu ápice. “Nunca vimos as pessoas com um espírito tão voltado ao jogo quanto agora”, declarou o megainvestidor.
No fim das contas, a ausência de Warren Buffet no centro dos holofotes certamente tira parte do brilho do “Woodstock dos capitalistas”. Suas tiradas e ensinamentos, faziam parte do “show”. Mas no backstage dos negócios, o que vale mesmo são os números. E, nesse ponto, cabe a Abel mostrar que a Berkshire Hathaway já se tornou uma máquina autossuficiente, que pode alçar voos mais altos sem depender da fama e do culto a um dos maiores investidores de todos os tempos.
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Autor: Redação InvestNews