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Carros chineses agora dominam o maior salão do automóvel da Europa. E o bloco reage

A Li Auto, fabricante de carros de luxo com sede em Pequim, aproveitou o salão do automóvel de Paris para apresentar um veículo com bancos dianteiros com função de massagem, uma tela de 21 polegadas para os passageiros de trás e um compartimento no console central capaz de manter um energético gelado ou um café quente.

Enquanto isso, a BYD, marca de veículos elétricos mais vendida do mundo, apresentou um SUV destinado ao mercado europeu que consegue recarregar boa parte da bateria em cinco minutos.

E, para não ficar atrás, a XPeng destacou um teste de tecnologia de direção autônoma realizado nos arredores do Arco do Triunfo, monumento do século 19 encomendado por Napoleão Bonaparte e localizado na avenida Champs-Élysées.

O veículo, um SUV equipado com tecnologia supervisionada por um motorista, deu conta do desafio, afirmou o presidente-executivo da firma, He Xiaopeng, em um evento no domingo.

“Meu Deus, é difícil”, disse ele ao comentar sobre a caótica rotatória que contorna o monumento.

Bem-vindo ao Salão do Automóvel de Paris — embora, neste ano, fosse compreensível confundi-lo com um salão do automóvel chinês. Ao todo, cerca de 20 marcas chinesas de veículos montaram estandes no evento, o equivalente a um terço de todas as marcas presentes.

O número só fica atrás do de marcas europeias e representa um aumento em relação às nove participantes da última edição, realizada há dois anos.

Três marcas americanas estavam representadas: Tesla, Ford Motor e Lucid Group.

As montadoras chinesas ajudaram a tornar o maior salão do automóvel da Europa muito mais movimentado e animado do que seus equivalentes nos Estados Unidos. Diferentemente dos eventos recentes em Detroit e Los Angeles, o salão de Paris registrou, de forma consistente, grandes multidões reunidas em torno dos palcos para acompanhar a apresentação de novos veículos.

As montadoras realizaram coletivas de imprensa em sequência, às vezes simultaneamente, enquanto executivos chineses destacavam seus planos de ampliar a produção na Europa.

“Elas buscam não apenas vender aqui, mas também ser vistas como boas cidadãs”, disse Adam Bernard, consultor automotivo baseado nos Estados Unidos.

As montadoras chinesas estão acelerando suas vendas em toda a Europa ao oferecer veículos repletos de recursos sofisticados a preços competitivos. Elas responderam por 11,3% de todas as vendas no acumulado do ano até agosto, ante 7,1% no mesmo período do ano passado.

Emmanuel Macron experimenta o novo Citroën 2CV no Salão do Automóvel de Paris.

Essa mudança está entre os motivos por trás de uma onda de cortes de empregos nas montadoras europeias, que tem alarmado líderes políticos e acelerado as negociações entre Bruxelas e Pequim.

Cotas anuais de importação

Na última sexta-feira (9), a União Europeia e a China chegaram a um acordo que, segundo o bloco europeu, poderia reduzir pela metade suas importações de veículos híbridos chineses.

A UE imporá uma cota anual de 350 mil unidades no primeiro ano, informaram autoridades europeias na segunda-feira, acrescentando que o limite poderá aumentar 6% em cada um dos três anos seguintes.

“O déficit comercial é um desafio gigantesco para a UE”, disse Maroš Šefčovič, comissário de Comércio da União Europeia, na semana passada.

O presidente francês, Emmanuel Macron, buscou pessoalmente dar um toque europeu ao evento. Macron admirou um protótipo totalmente elétrico do Citroën 2CV, modelo clássico da fabricante francesa que marcou presença nas ruas europeias no período pós-guerra.

Assim como outras montadoras tradicionais da Europa, a Stellantis, dona da Citroën, está recorrendo à sua herança do século 20 em resposta à onda de firmas chinesas criadas no século 21.

Até agora, marcas controladas por cinco firmas concentram a maior parte das importações chinesas de veículos para a Europa: BYD, Chery Automobile, SAIC Motor, Geely Automobile e Leapmotor, que está expandindo suas operações por meio de uma joint venture com a Stellantis, dona da Jeep.

A estatal Changan Automobile, quarta maior montadora da China, está seguindo o mesmo caminho. A firma estabeleceu a meta de vender 1,5 milhão de veículos fora da China até 2030, mais do que o dobro do total registrado no ano passado. A companhia afirmou que espera vender 100 mil veículos na Europa no próximo ano, acima da meta de 30 mil unidades para 2026.

“Temos grandes ambições”, disse Klaus Zyciora, principal conselheiro global da Changan.

As montadoras chinesas também estão tentando conquistar espaço no mercado de luxo europeu, tradicionalmente protegido da concorrência externa. A marca Aito, fabricada pelo Seres Group e que utiliza o slogan “Inteligência redefinindo o luxo”, anunciou que chegará à Europa no segundo semestre de 2027.

“As firmas chinesas são conhecidas pela eficiência de custos. Convencer os clientes de que também somos capazes de oferecer luxo levará tempo. Mas chegaremos lá”, disse Clifford Kang, integrante do conselho do Seres.

Os carros chineses estão praticamente excluídos dos Estados Unidos por causa das tarifas elevadas e das restrições relacionadas a software. No entanto, o presidente americano, Donald Trump, repetiu no mês passado que daria as boas-vindas às montadoras chinesas caso os veículos fossem produzidos localmente, declaração que alarmou as montadoras de Detroit. O Congresso americano debate uma proibição legislativa aos carros chineses.

John Bozzella, presidente da Alliance for Automotive Innovation, principal associação da indústria automobilística americana, afirmou: “A Europa é um alerta para os Estados Unidos. O que os formuladores de políticas americanas estão tentando fazer é enfrentar a questão desde o início”.

Os carros chineses conquistaram espaço na Europa, em parte, ao aproveitar uma brecha regulatória criada involuntariamente em Bruxelas. Em 2024, autoridades europeias excluíram os híbridos plug-in das tarifas adicionais impostas pela União Europeia aos veículos elétricos chineses.

As marcas chinesas passaram a concentrar seus esforços na venda desses modelos e, desde então, conquistaram uma participação desproporcional em um segmento que se tornou especialmente atraente para consumidores que buscam economia de combustível sem abrir mão de outros atributos.

Os países europeus hesitam em fechar completamente seus mercados para a China, temendo medidas retaliatórias de Pequim. O continente depende muito mais das exportações do que os Estados Unidos.

“Preciso garantir que estou protegendo meus mercados de exportação”, disse Jonathan Reynolds, secretário de Negócios do Reino Unido, em uma entrevista recente.

O Reino Unido, assim como a União Europeia, foi inundado por carros chineses. Entre eles está um modelo da Jaecoo, marca da Chery que se tornou o veículo mais vendido do país em setembro.

As firmas chinesas começam a instalar fábricas locais para evitar tarifas e melhorar as relações com os governos europeus. “Na Europa, para a Europa” foi um dos slogans repetidos por várias montadoras chinesas durante o salão.

Em uma festa de gala realizada na noite de domingo dentro de um museu de arte flutuante no rio Sena, executivos do setor conversaram enquanto bebiam e ouviam uma banda de jazz ao vivo. Do lado de fora, moradores passavam correndo pelas margens do rio.

“Para a Geely, a globalização não é uma corrida de velocidade individual”, disse Alex Nan, vice-presidente da Geely Auto, aos participantes. “É uma maratona que corremos lado a lado com nossos parceiros”.

Contatos dos autores: Stephen Wilmot, stephen.wilmot@wsj.com; Ryan Felton, ryan.felton@wsj.com

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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