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Do iFood ao Mercado Livre: como a entrega de pequenos negócios se tornou palco de uma disputa de gigantes

Você provavelmente já reparou nas bags de motos das plataformas de entrega de refeições nas grandes cidades brasileiras: iFood, 99Food, Keeta e Rappi parecem onipresentes.

Essa presença está concentrada principalmente nos horários de pico das refeições: o almoço e o jantar nos dias úteis, além do fim de semana de forma estendida. Apenas no caso do iFood, líder de mercado, são cerca de 50 milhões de entregas a cada mês, incluindo aí pedidos de consumidores para farmácias, supermercados e até pet shops.

Mas, se depender da firma e de outros gigantes do e-commerce, como o Mercado Livre, essas bags e suas frotas de motos, vans e outros tipos de veículos estarão cada vez mais espalhados pelas cidades brasileiras, que se tornaram palco de uma nova disputa de milhões: a entrega em poucas horas de produtos de pequenos e médios empreendedores até a casa do consumidor, no que é conhecido como a “última milha”.

O entendimento do iFood, que pertence à holding global de firmas de tecnologia Prosus, é que o seu negócio de entregas cresceu tanto e ganhou escala e estrutura a tal ponto que hoje consegue atender também pedidos de terceiros, ou seja, de firmas que não estão na sua plataforma. Essa frente de negócios ganhou até nome próprio: Envios iFood.

Atualmente a frota que presta serviços de entregas para o iFood chega a 600 mil motociclistas. Em sua maioria, como citado, são trabalhadores que, fora dos horários de pico, fazem outros serviços por conta própria.

A ideia aqui é concentrar o volume de entregas, tomando como vantagem competitiva o uso de tecnologia – incluindo, claro, inteligência artificial – e a escala para otimizar rotas e diluir custos.

Para grandes plataformas como o iFood, a ordem de grandeza é de milhões de pedidos: ou até bilhões no caso do Mercado Livre.

“O que vemos na nossa plataforma é que o consumidor quer, cada vez mais, receber o seu pedido em menos tempo, em até 30 minutos ou uma hora. E isso vai da comida a outros tipos de produtos”, disse Arnaldo Bertolaccini, vice-presidente de Logística do iFood, em entrevista ao InvestNews.

Segundo o executivo, os números preliminares da operação servem de respaldo para o entendimento de que há uma demanda reprimida.

“Chegamos a 500 mil entregas em pouco mais de um mês de operação do serviço [para terceiros que não estão no marketplace, como varejistas]. E já conseguimos prever que vamos chegar a 1 milhão de entregas por mês em breve”, afirmou.

Essa ofensiva toma proveito do espaço antes ocupado de forma dominante pelos Correios, cujos investimentos muito aquém do necessário – isso sem falar nos cortes de custos – impedem que a estatal consiga reforçar o apelo de seu serviço de entregas no mesmo dia, o Sedex.

Do Mercado Livre à Uber

Para acelerar o ganho de escala do novo negócio, o iFood acertou uma parceria com a Nuvemshop, plataforma que opera lojas virtuais para mais de 180 mil marcas no país, para a integração do serviço.

Outro gigante que tem reforçado os investimentos em logística é o Mercado Livre, que fez da área uma de suas prioridades em seu plano de investimentos de R$ 57 bilhões para este ano.

O valor inclui a construção de 14 novos centros de distribuição no modelo fulfillment – em que a firma cuida do processamento do pedido até a entrega na casa do cliente –, para um novo total de 42 no país.

Nesse caso, a entrega com agilidade faz parte do que é chamado de “proposta de valor” também para quem vende, os sellers: 80% das encomendas chegam hoje no máximo até o dia seguinte da compra. É um intervalo de tempo que tem sido cada vez mais reduzido.

O racional do Mercado Envios, nome da vertical de negócios do grupo, é aumentar o engajamento dessa base de clientes.

A firma não abre números de entregas por país: o número que contempla outros mercados na América Latina além do Brasil, como Argentina e México, é de 2,9 bilhões de pacotes por ano.

Há pouco mais de um ano, a Uber avançou em sua estratégia para atender esse público por meio de uma parceria com a Loggi, startup de entregas urbanas. O serviço Flash Nacional entrou em operação com previsão de entrega no mesmo dia em cerca de 5.500 cidades do país.

Bertolaccini, do iFood, diz que o período inicial de funcionamento tem servido para ajustes da operação, que classifica como menos complexa que a de alimentos – não corre o risco de esfriar como um prato, por exemplo –, ainda que guarde particularidades que precisam ser atendidas.

“São demandas de natureza distintas. Precisamos saber com precisão as dimensões do pacote para garantir que vai caber no equipamento de armazenamento do entregador. Além disso, o cliente em geral não vai receber a encomenda na porta e isso exige um processo para registrar quem a recebeu”, explicou o executivo.

Ferramenta para ‘engajar’ o entregador

O negócio de entregas do iFood nasceu em 2018 com o objetivo de passar a oferecer um serviço que até então cabia a cada restaurante que preparava a comida – sim, não havia uma frota de motoboys da plataforma.

Ao longo dos anos, esse serviço cresceu tanto que passou a se tornar indissociável do pedido por meio do aplicativo – e também tornou a frota de motoboys e outros entregadores uma peça-chave para o sucesso da operação.

A recente chegada a grandes cidades brasileiras de concorrentes de peso como as chinesas 99Food e Keeta acirrou a disputa pelos trabalhadores, com pagamentos mais elevados como um dos principais fatores de atração.

Ao oferecer novas demandas para esses trabalhadores em horários ociosos, o iFood também busca fortalecer seu relacionamento com os mesmos. Segundo o VP de Logística, no período inicial de operação do novo serviço, os ganhos dos entregadores subiram perto de 20%.

Como parte da evolução da vertical de negócios, a companhia lançou nesta semana outra funcionalidade, de serviço de entregas dedicadas a firmas – restaurantes ou varejistas – que queiram atendimento customizado.

“Nós entramos em um momento novo da intermediação logística do iFood. Antes, era um padrão único oferecido aos estabelecimentos. Agora passamos a ter opções que atendem a diferentes necessidades”, disse o executivo.

Com o uso de IA, que abre caminho para a personalização de maneira antes não possível, o iFood caminha para passar “de quatro a cinco produtos logísticos para 20, 30 ou até 50 no futuro”.

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Autor: Marcelo Sakate

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