Como a inteligência artificial já impacta o mercado de trabalho no país. E o emprego dos mais jovens
A inteligência artificial já redesenha o mercado de trabalho mundo afora. Não ainda como um apocalipse de empregos, como muitos temem, mas uma transformação pelas bordas: para onde quer que se olhe, são os jovens, recém-chegados à vida profissional, aqueles que mais sentem as mudanças em número de vagas e renda.
E a forma e a intensidade disso variam conforme o mapa-múndi.
Nações desenvolvidas têm mais empregos de escritório, mais expostos à automação com IA. Por isso, países como França, Estados Unidos e Reino Unido já enxergam com mais nitidez os primeiros efeitos da tecnologia sobre o emprego.
Já países emergentes, mais dependentes de trabalhos manuais e marcados pela informalidade, tendem a ser menos suscetíveis à automação – e seus efeitos são mais difíceis de captar nos dados.
O Brasil fica em algum lugar no meio desse caminho.
De um lado, firmas brasileiras utilizam mais IA do que companhias de pares emergentes: a taxa de adoção por aqui chega a 16%, colocando o país entre os líderes desse grupo, segundo o Goldman Sachs.
Por outro, o Brasil ainda tem um mercado de trabalho bastante informal e com um peso grande de ocupações manuais.
Os estudos sobre o efeito da IA no mercado de trabalho brasileiro ainda são poucos e trabalham com os primeiros sinais de um fenômeno ainda muito recente. Ainda assim, os resultados já permitem traçar um primeiro retrato de quem está sendo afetado, em quais empregos e de que maneira. É o que veremos aqui.
O efeito geracional
Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), quis entender o que mudou no mercado de trabalho brasileiro desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022 – um marco da popularização da IA.
Para isso, cruzou dados da PNAD Contínua, principal pesquisa do IBGE sobre emprego e renda, entre o fim de 2022 e o segundo trimestre de 2025.
Ele identificou o seguinte: nas profissões mais expostas à IA, jovens de 18 a 29 anos têm hoje 4,8% menos chances de estar trabalhando do que teriam num mundo pré-IA. E, quando empregados, ganham 7% menos do que ganhariam anteriormente.
O mesmo não acontece com trabalhadores mais experientes: entre pessoas de 30 e 59 anos, o estudo não encontrou mudanças significativas no emprego ou na renda.
“Não se trata de uma grande crise do mercado de trabalho com demissões em alta. O que vemos é uma redução nas contratações em atividades que até então eram muito aquecidas”, diz Duque.
Outras pesquisas apontam na mesma direção. Em um trabalho ainda preliminar, Tomás Aguirre e Luís Meloni, da USP, encontraram o mesmo padrão: entre jovens de 16 a 21 anos nas ocupações mais expostas à IA, os salários caíram 4,7% após a difusão da tecnologia.
Tem a ver, claro, com o tipo de tarefa que cada faixa etária costuma desempenhar.
Quem está começando a carreira tende a ficar com atividades operacionais e repetitivas – e são elas que a IA consegue assumir com mais facilidade.
A experiência e o poder de decisão, por outro lado, são mais difíceis de substituir.
Aqui e em qualquer lugar. Tanto que este é um fenômeno internacional.
Um estudo de pesquisadores de Stanford e do King’s College London acompanhou firmas em 41 países, inclusive o Brasil, entre janeiro de 2021 e março de 2026. E notou que, nas companhias que já adotaram IA, o número total de vagas cresceu – mas esse avanço ficou concentrado no topo da hierarquia. Em cinco anos, o número de funcionários seniores aumentou 6,7%, enquanto o de juniores caiu 3%.
A rota da informalidade
O efeito sobre os jovens atravessa fronteiras, mas não da mesma forma. No Brasil, a alta informalidade pode ajudar a explicar por que a IA parece pesar mais nos salários do que no número de pessoas trabalhando.
É o que aparece no trabalho da USP: entre os jovens mais expostos à IA, os pesquisadores encontraram uma queda de 1,5 ponto percentual na chance de ter um emprego formal.
Ou seja: esses jovens não necessariamente deixaram de trabalhar, mas passaram a ter menos espaço em empregos com carteira assinada.
Nos países ricos, essa migração tem menos peso porque o mercado de trabalho já é muito mais formalizado: só 8% dos trabalhadores estão na informalidade, contra 37% no Brasil.
Quais empregos estão mais expostos?
Programadores, analistas monetários, contadores, profissionais de atendimento ao cliente, assistentes administrativos e secretários são algumas das profissões que aparecem com frequência nos estudos sobre o tema.
O ponto em comum entre elas: boa parte das tarefas pode ser feita digitalmente e envolve linguagem, dados ou informação. Escrever textos, organizar informações, analisar documentos, produzir códigos ou responder a perguntas.
No outro extremo ficam os trabalhos que dependem do mundo físico. Pedreiros, trabalhadores da limpeza, cozinheiros e outros profissionais manuais.
“Uma das grandes novidades dessa transformação é que, até então, as tecnologias afetavam principalmente os trabalhadores de menor qualificação”, diz Duque.
“Agora, vemos um impacto em profissionais de alta qualificação, cujas tarefas de entrada foram automatizadas.”
A adoção ainda está no começo
Um levantamento do Goldman Sachs estima que entre 15% e 20% das firmas nas principais economias desenvolvidas já adotam IA. Nos grandes mercados emergentes, a proporção fica entre 10% e 15%. Naturalmente, há espaço para mais.
Mesmo entre as firmas que já usam a tecnologia, boa parte ainda está na fase de descoberta sobre onde ela funciona melhor.
As primeiras aplicações, porém, começam a aparecer em tarefas desse perfil: atendimento ao cliente, análise de informações e rotinas administrativas.
No setor monetário, o Banco BV, por exemplo, vem testando IA para cobrar clientes que estão nos primeiros dias de atraso no pagamento. Antes, o banco encaminhava esses casos para assessorias terceirizadas, que faziam a cobrança principalmente por telefone.
Hoje, um sistema de IA conversa diretamente com clientes inadimplentes, negocia as condições de pagamento e conduz 85% dessas cobranças sem intervenção humana.
“Hoje a gente já começa a ver uma performance da IA superando a cobrança tradicional”, afirma Flaviana Sallowicz, superintendente de cobrança do banco BV. Segundo ela, além de custar menos, o sistema já consegue uma conversão maior de pagamentos do que o atendimento tradicional.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim deixaremos mais pessoas por dentro do mundo das finanças, economia e investimentos!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Camila Alves Barros