Desconfiança de investidor com títulos privados afeta o mercado até de empresas saudáveis
A onda crescente de firmas brasileiras em crise financeira – em casos extremos até em recuperação judicial ou extrajudicial – tem gerado consequências negativas que vão além dos negócios. No mercado de crédito privado, não faltam ofertas de papéis de firmas que prometem retornos equivalentes à variação da inflação acrescida de 30% ao ano.
As taxas de juros muito acima do que seria esperado para os papéis, inclusive para firmas que não apresentam problemas monetários evidentes e que são classificadas como de baixo risco, refletem um quadro de desconfiança aguda de investidores que vem a reboque de uma percepção de risco mais amplo. E que se alastra.
No mercado secundário, ou seja, no ambiente em que títulos privados como debêntures, CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) são negociados antes dos vencimentos, há papéis que hoje pagam acima de IPCA+ 30% ao ano.
É o caso da debênture da CSN com vencimento em 2030. No fim de agosto, o título estava sendo negociado a IPCA+ 31%, com um “desconto” de 50% sobre o valor de face.
A dívida líquida da siderúrgica estava em R$ 42,1 bilhões ao fim de junho, o equivalente a 3,49 vezes o resultado operacional medido pelo Ebitda – patamares acima de 3x são considerados elevados demais e um sinal de que o risco é mais alto.
Taxas muito elevadas aparecem em papéis emitidos por outras companhias com endividamento muito alto. É o caso da Brasil TecPar, do setor de telecomunicações. A debênture com vencimento em 2030 é negociada a uma taxa de IPCA+ 22% ao ano no mercado secundário.
Entre os certificados de recebíveis imobiliários e do agronegócio, os prêmios de risco, ou seja, as taxas adicionais pedidas pelos investidores, também estão bem mais elevados comparados ao início do ano.
Os CRIs da Hapvida, maior firma de planos de saúde do país, com vencimento em 2031 têm sido negociados com taxas de IPCA+ 20% ao ano, entre as mais elevadas no grupo de papéis atrelados à inflação no mercado secundário.
Isso não seria esperado, dado que esse papel é um ativo livre da cobrança de Imposto de Renda (IR) na carteira de um investidor que é pessoa física. Um CRI IPCA+20% equivale a uma debênture (que paga IR) IPCA+24%.
Mas refletem em parte o desafio da Hapvida de recuperar seus negócios.
É uma situação semelhante à de outro certificado imobiliário com vencimento em 2031, da Dasa, um dos maiores grupos de saúde do país. O papel tem sido oferecido com taxa de IPCA+ 20% ao ano.
Veja abaixo a lista de debêntures, CRIs e CRAs com as maiores taxas:
A situação contrasta com as expectativas mais otimistas do começo de 2026. Naquele momento, quem quisesse comprar um título privado isento de Imposto de Renda que pagasse IPCA mais 16% ao ano deveria estar disposto a assumir o risco de firmas muito endividadas.
Segundo a avaliação da maioria dos investidores, daquele momento para a frente, a tendência seria de queda dos juros pagos para a compra de títulos privados, na esteira da expectativa de queda da taxa Selic.
Mas não foi o que aconteceu. Pelo contrário.
Mas o que aconteceu para a maré dos juros subir tanto?
Muita água se passou desde fevereiro. No front externo, o Irã fechou o Estreito de Ormuz após ataques dos EUA e de Israel, o que pressionou os preços de petróleo e de energia e fez a inflação ganhar tração globalmente – reduzindo o espaço para cortes de juros por bancos centrais.
A economia local, por sua vez, sofre também com os riscos fiscais que voltaram ao radar de investidores.
Por aqui, o Banco Central também embarcou em um ciclo de cortes de taxas que deve durar muito menos que o esperado no início do ano, a citada onda de pedidos de recuperação extrajudicial e judicial abalou o mercado e as eleições trouxeram mais incertezas ao cenário.
Os números de recuperações extrajudiciais e judiciais impactaram o mercado de renda fixa. A série de pedidos de proteção contra credores incluiu nomes como GPA (Grupo Pão de Açúcar), Casas Bahia, Marabraz, Grupo Toky, controlador da Mobly e Tok&Stok, Grupo Gennius, dono do Habib’s, sem contar a Braskem e a Oncoclínicas.
Como consequência, as taxas de juros do crédito privado dispararam no mercado secundário.
Nem o ‘high grade’ escapou
Mesmo entre companhias consideradas “high grade“, ou seja, aquelas com melhor perfil de crédito, os retornos no mercado secundário já superam IPCA+ 8% ao ano.
É o caso da companhia de saneamento de Minas, a Copasa, que tem uma debênture com vencimento em 2034 negociada a uma taxa de IPCA+ 9% ao ano; na emissão, em julho de 2024, pagava IPCA+7,2%.
Outra firma vista como high grade, a Rede d’Or, já tem vários CRIs negociados com retornos acima de 8% mais a inflação. Certificados do grupo com vencimentos em 2030, 2032 e 2036 têm sido negociados a taxas de IPCA+ 8,6%, 8,5% e 8,4% anuais, respectivamente.
Já a M. Dias Branco tem CRAs com vencimento em 2031 negociados a inflação mais 8,6% ao ano.
Riscos em alta na renda fixa
O cenário de estresse monetário para firmas endividadas diante de juros que seguem em patamares historicamente elevados deve avançar ao longo de 2027, segundo especialistas no mercado de crédito.
Os prêmios de risco embutidos no mercado secundário sinalizam também que os investidores esperam mais casos de pedidos de proteção ou de recuperações extrajudicial e judicial pela frente.
Nesse ambiente, quem busca ganhar com uma queda dos juros de longo prazo nos próximos meses pode ter as expectativas frustradas e se deparar com o encolhimento do seu saldo em reais.
O mercado de títulos atrelados ao IPCA ou de taxas prefixadas tem sofrido a pressão das incertezas ligadas à inflação e aos rumos da política monetária. E não apenas no Brasil.
Lá fora, cresce a possibilidade de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) subir os juros antes do fim do ano.
As recentes declarações do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, na última sexta-feira (28), têm sido interpretadas como uma sinalização de que o banco central dos EUA considera elevar as taxas em um cenário de inflação já acima da meta e com tendência de alta.
Essa expectativa adiciona lenha na fogueira dos juros altos por mais tempo tanto no exterior quanto por aqui.
No Brasil, as incertezas sobre quais medidas podem ser tomadas pelo futuro governo – seja o atual ou um novo – para uma melhora do quadro fiscal mantém os investidores em modo cautela.
Como resultado, o mercado pede taxas mais altas para se precaver de uma eventual frustração sobre o controle de gastos e da dívida pública.
Oportunidade no longo prazo. Com risco
Apesar do momento de volatilidade de preços e taxas de títulos de crédito no mercado secundário, há uma janela de oportunidades para o investidor que pensa no longo prazo – e consegue esperar por ele.
Quem pode levar os papéis até o vencimento consegue “travar” retornos que estão nos níveis mais elevados desde a recessão de 2015 e 2016.
No fim do prazo do papel, o investidor recebe exatamente o que contratou no momento da compra. No caso atual, rendimentos que podem alcançar IPCA+9% ou acima com papéis de companhias com melhor perfil de crédito.
O risco é o de que a situação piore antes de melhorar. Nesse caso, mesmo firmas vistas como saudáveis no momento podem ver seus resultados deteriorarem rapidamente.
Foi o que aconteceu lá atrás, por exemplo, com a Braskem e a Raízen, que perderam a nota de “grau de investimento” de agências de classificação de risco, como Fitch, Moody’s e S&P, em 2024 e no começo de 2026. Ambas as companhias entraram em recuperação extrajudicial neste ano.
Veja abaixo debêntures, CRIs e CRAs de firmas com dívida classificada como high grade e que hoje pagam acima de IPCA+ 8% ao ano:
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Autor: Sérgio Tauhata
