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Embalagens e papel higiênico revelam vida além da celulose para Suzano e Klabin

Após mais um ano em que o preço internacional da celulose pouco ajudou e as margens ficaram estagnadas, Suzano e Klabin aceleraram estratégias para reduzir a dependência de um ciclo que desacelera desde o segundo semestre de 2023. E a dupla conseguiu lucros expressivos no ano passado apesar de o cenário seguir desfavorável.

Suzano e Klabin trabalham em duas frentes: venda de papel da matéria-prima do papel (a celulose). Ou seja: vendem a commodity sozinha e também produtos com valor agregado feitos a partir da commodity.

E a decisão nos últimos tempos foi a de ampliar o peso dos produtos acabados. Uma forma diversificar o portfólio para suavizar a volatilidade do negócio de celulose.

A Klabin é o caso mais maduro dessa estratégia. Em 2025, 60% do resultado operacional (Ebitda) veio dos negócios de papéis e embalagens, que somaram R$ 4,7 bilhões do total de R$ 7,8 bilhões gerados no ano. Esses segmentos operaram com margens superiores às da venda de celulose de fibra longa – a matéria-prima das embalagens de papelão – e funcionaram como amortecedor num ciclo fraco da commodity.

Na Suzano, a fotografia ainda é bem diferente. A exportação de celulose de fibra curta, usada em papéis sanitários e de impressão, segue sendo o eixo econômico da firma da família Feffer. No ano passado, o segmento de papel e derivados respondeu por R$ 2,8 bilhões, algo próximo de 12% do Ebitda, enquanto a celulose – commodity na qual a Suzano é líder no mundo – concentrou a maior parte do resultado.

Ciclo em descompasso

O mercado mundial de celulose vive hoje um desalinhamento. Na China, principal termômetro do setor, a tonelada da fibra curta (BHKP) – a que mais influencia o mercado brasileiro – gira em torno de US$ 580. O preço ensaia recuperação e está acima do visto no ano passado, mas ainda longe dos recordes de 2022, quando superou os US$ 850 por tonelada.

Na Europa, o mesmo produto está valendo mais que o dobro, perto de US$ 1.250 por tonelada – a maior cotação em 12 meses. A diferença: enquanto a Ásia ainda digere excesso de oferta e demanda fraca, a Europa opera com gargalos logísticos e estoques mais apertados, o que sustenta preços elevados.

Em ciclos de alta, tanto o mercado europeu quanto o chinês costumam subir juntos. Quando a China lidera a subida, o setor entra em euforia global. Hoje, a recuperação é parcial – e isso ajuda a explicar por que grandes produtoras estão preferindo vender menos celulose a pressionar ainda mais os preços.

Segundo analistas do Itaú BBA, a dinâmica global de oferta e demanda deve permanecer mais apertada no primeiro semestre de 2026. O banco aponta ausência de novos projetos relevantes ao longo do ano, o que ajuda a sustentar preços, mas ainda está longe de configurar um novo ciclo de euforia.

Os papéis para higiene

Na Suzano, o plano de reduzir a dependência da commodity já vinha desde a gestão do ex-CEO Walter Schalka. Em 2023, a companhia concluiu a compra, por US$ 175 milhões, do negócio de papéis para higiene (tissue) da Kimberly-Clark no Brasil. 

A operação colocou nas mãos da Suzano marcas como Neve e Scott e deu à firma participação superior a 20% no mercado de papel higiênico. No mesmo movimento de diversificação, a firma pagou US$ 110 milhões no começo de 2024 por duas fábricas da americana Pactiv Evergreen, nos Estados Unidos, avançando também no mercado de embalagens.

Com a chegada de Beto Abreu ao comando da companhia, em julho de 2024, a estratégia ganhou escala global. No ano passado, a Suzano anunciou investimento de US$ 1,7 bilhão para assumir 51% de uma joint venture com a Kimberly-Clark no mercado mundial de tissue, com 22 fábricas e venda de papéis higiênicos, toalhas de papel e lenços em mais de 70 mercados, incorporando marcas globais como Kleenex e Cottonelle.

Mas, ainda assim, o maior investimento recente da Suzano foi para ampliar sua produção de celulose. Em dezembro de 2024, a companhia inaugurou em Mato Grosso do Sul o Projeto Cerrado, o maior investimento da história da firma. O projeto exigiu investimentos de R$ 22,2 bilhões e elevou em mais de 20% a capacidade instalada da Suzano, que passou a 13,5 milhões de toneladas anuais.

A estratégia de diversificação não elimina a natureza cíclica do negócio, mas ajuda a sustentar o caixa enquanto o setor atravessa um período mais fraco. No quarto trimestre, a Suzano sentiu o impacto dos preços menores da celulose na comparação anual, mas ainda conseguiu fechar no azul. No acumulado de 2025, a companhia reportou lucro líquido de R$ 13,4 bilhões, revertendo o prejuízo de R$ 7 bilhões registrado um ano antes.

Projeto Cerrado, da Suzano (Divulgação)

Segundo o CEO, Beto Abreu, 2025 marcou um ponto de virada em competitividade. “Temos a obrigação de entender a rentabilidade e olhar o negócio com grande nível de detalhe”, disse durante uma teleconferência com analistas nesta quarta-feira (11). Para 2026, a avaliação do executivo é que a dinâmica de curto prazo está “melhor do que o esperado”. Ainda assim, a Suzano decidiu manter a produção 3,5% abaixo da capacidade, priorizando margem em vez de volume. 

Na prática, isso significa retirar deliberadamente centenas de milhares de toneladas do mercado – postura que analistas descrevem como atuação de swing producer, uma produtora capaz de influenciar preços ao ajustar oferta – como a Arábia Saudita faz com petróleo. A estratégia agradou investidores: as ações da companhia lideraram as altas do Ibovespa nesta quarta-feira, no day-after à divulgação do balanço.

Para a diretoria da Suzano, o foco não é crescer a qualquer custo, mas atravessar o ciclo preservando rentabilidade. “O principal recado aqui é o nível de resiliência do nosso negócio […] um negócio que ficará ainda mais forte para enfrentar qualquer ambiente”, prosseguiu Abreu.

Os números ajudam a explicar o raciocínio. A Suzano entregou geração de caixa livre ajustada de R$ 3,4 bilhões no trimestre e reduziu a alavancagem para 3,2 vezes o Ebitda, mesmo em um cenário de preços inferiores ao pico do ciclo.

Em relatórios após o balanço, o Itaú BBA destacou a forte geração de caixa e a queda do custo caixa como sinais de competitividade, enquanto o time de análise do BTG Pactual classificou a companhia como a produtora “melhor posicionada” para atravessar um ciclo prolongado de rentabilidade moderada.

Embalagens

Na Klabin, a estratégia passa menos por controlar oferta e mais por reduzir a exposição direta ao ciclo da celulose. Nos últimos anos, a companhia reforçou um modelo integrado em que embalagens e papéis funcionam como amortecedor contra a volatilidade da commodity. 

No balanço de 2025, segmentos ligados a consumo e logística – como alimentos industrializados, higiene e limpeza – seguiram crescendo, ajudando a sustentar volumes de papéis para embalagens, feitos de fibra longa, mesmo em um ambiente de preços mais fracos para a fibra curta.

Apesar dessa proteção operacional, o balanço seguiu pressionado. A Klabin encerrou o ano com fluxo de caixa livre ajustado negativo e alavancagem de 3,3 vezes o Ebitda. Parte dessa pressão é herança do maior ciclo de investimentos da história recente da companhia: nos últimos anos, a firma investiu quase R$ 13 bilhões no projeto Puma II, que ampliou a capacidade de papéis para embalagens, e expandiu sua base florestal com a compra de ativos da Arauco.

Encerrada a fase de expansão, a firma entrou em” modo colheita”. Para reforçar o caixa, acelerou a monetização de ativos florestais, que é a venda de terras excedentes com contratos de arrendamento que preservam o suprimento de eucalipto. 

Complexa máquina de produção Klabin/Valmet domina o interior de uma fábrica industrial espaçosa e moderna.
MP28, uma das máquinas do Projeto Puma II da Klabin (Divulgação)

Só em 2024, o movimento gerou cerca de R$ 2,7 bilhões. Em 2025, novas operações no mesmo modelo levantaram algo próximo de R$ 2 bilhões, incluindo aportes externos em plataformas como o Projeto Plateau. A estratégia permite antecipar liquidez sem comprometer a operação e é peça central no plano de desalavancagem até 2026.

No balanço divulgado na quarta-feira, a administração afirmou que o foco para o próximo ano será capturar ganhos de eficiência e ampliar margens em papéis e embalagens, vistos internamente como a principal defesa contra a instabilidade da commodity.

Iniciativas como a redução de gramatura – que diminui o consumo de matéria-prima por embalagem e melhora a margem sem perda de desempenho – e o avanço do projeto Piracicaba II, de papelão ondulado, fazem parte desse esforço.

No acumulado de 2025, a Klabin registrou lucro líquido de R$ 1,7 bilhão, abaixo dos R$ 2 bilhões de 2024. A dívida líquida terminou o ano em R$ 25,9 bilhões, com alavancagem estável. Para analistas, a companhia representa uma aposta menos volátil dentro do setor, mas agora entra numa fase em que a diversificação precisa se traduzir em geração consistente de caixa.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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