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Mulheres ainda são minoria nos investimentos — embora apliquem mais dinheiro que os homens

Um número bem maior de mulheres poderia investir e diversificar o portfólio. É o que indicam dados da 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados monetário e de Capitais (Anbima), realizado em parceria com o Datafolha: 31% das brasileiras são investidoras, enquanto entre os homens esse percentual sobe para 41%.

O levantamento aponta que há uma lacuna de educação financeira entre os dois públicos. Enquanto 69% das mulheres ainda não utilizam ou desconhecem aplicações financeiras, esse percentual entre os homens é de 53%. O estudo ouviu 5.832 pessoas em todas as regiões do País entre os dias 4 e 21 de novembro de 2025.

O produto mais utilizado pelas mulheres é a caderneta de poupança, citada por 69% das investidoras. Na sequência, vêm os títulos privados, com 16% de menções e os fundos de investimentos, com 10%. Entre os homens investidores, a poupança também ocupa o topo do ranking, mas com percentual menor, de 54%.

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Na Bolsa brasileira, o número de investidoras têm crescido. Em fevereiro de 2026, dado mais recente, 1,48 milhão de mulheres possuíam posição na Bolsa, em um universo de 5,56 milhões de investidores. O número mostra um crescimento de 8% das investidoras em relação ao mesmo período de 2025.

Traçando um comparativo mais longo, nos últimos cinco anos, a presença feminina no mercado de renda variável – que inclui ações, fundos imobiliários, ETFs (fundos de índice) e Brazilian Depositary Receipts (BDRs) – aumentou 83,4%.

Apesar de constituírem pouco mais de um quarto dos investidores, as mulheres investem quase o dobro dos homens. Enquanto o estoque mediano por investidor do gênero masculino corresponde a R$ 1.716, o gênero feminino tem estoque de R$ 3.034.

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Na avaliação da B3, os números indicam que as mulheres costumam se preparar mais antes de investir, priorizando segurança e diversificação, o que adia a entrada em produtos de maior risco.

Cristina Tamaso e Sofia Caccuri, gestoras na Valora Investimentos, apontam que as diferenças entre investidores homens e mulheres não significam que a performance de um grupo seja superior à do outro. “Fatores culturais e sociais exercem influência relevante na forma como homens e mulheres tomam decisões, inclusive no campo monetário”, afirmam.

Elas observam que o público feminino está cada vez mais interessado no tema, em um cenário em que mulheres têm se tornado chefes de família ou assumido papel central nas decisões financeiras do lar.

Uma pesquisa feita em fevereiro de 2026 pela Serasa, em parceria com o Instituto de Pesquisa Opinion Box, com 1.116 entrevistadas, revelou que 34% das mulheres são as únicas responsáveis por manter a família financeiramente. O peso desta carga fica ainda maior entre as classes D e E, em que 45% das mulheres mantêm todos os gastos da casa.

As dificuldades enfrentadas pelas investidoras

Na avaliação de Bianca Azevedo, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela Faculdade Brasileira de Negócios e Finanças (FBNF), por muito tempo, investimentos foram associados a um ambiente predominantemente masculino, a partir de crenças de que o mercado monetário é “complexo” ou funciona apenas para quem já tem muito dinheiro.

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Além disso, as mulheres historicamente enfrentam desafios adicionais: menor renda em comparação aos homens, maior incidência de jornadas duplas – geralmente por ter que gerenciar as tarefas de casa –, interrupções na carreira por maternidade e baixa representatividade em posições técnicas e de liderança.

A pesquisa da Serasa mostrou que 9 em cada 10 mulheres concordam que o equilíbrio entre responsabilidades domésticas e profissionais representa um desafio constante.

Já os dados do Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em novembro de 2025, apontaram que as mulheres recebem, em média, 21,2% a menos que os homens, considerando o salário médio em 54.041 firmas com 100 ou mais funcionários.

Mulheres não querem “produtos cor-de-rosa”

Na opinião de Sigrid Guimarães, CEO da Alocc Gestora de Patrimônio, desenvolver um produto “só para mulheres” faz pouco sentido por si só, pois cada pessoa têm realidades e objetivos diferentes.

Segundo ela, o mais importante não está no gênero, mas sim no alinhamento da estratégia de investimento à vida da cliente, considerando suas metas e necessidades de curto, médio e longo prazo, bem como interrupções de carreira ou responsabilidades familiares.

Ou seja, o foco não deve estar em um produto para mulheres, mas sim no planejamento monetário voltado às necessidades desse público, que vive mais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida dos homens no País é de 73,3 anos, contra 79,9 das mulheres.

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Guimarães aponta que a maior expectativa de vida significa que o patrimônio precisa durar mais tempo, enquanto interrupções de carreira impactam a contribuição previdenciária e a formação de capital. “Além disso, mulheres vivem mais anos sozinhas na velhice, o que exige planejamento adicional de liquidez e proteção para a longevidade”, acrescenta.

Azevedo, especialista em investimentos, afirma que as mulheres não precisam de produtos monetários “cor-de-rosa”. “A personalização deve ocorrer no desenho da estratégia, não no rótulo do produto”, destaca.

Segundo ela, o ponto central não está em simplificar o conteúdo, mas contextualizá-lo. Mulheres não querem menos informação – desejam informação aplicável à sua realidade. Para a especialista, esse avanço também passa por ampliar a presença feminina no próprio mercado monetário, com mais mulheres atuando como profissionais da área, e não apenas como público-alvo.

Comunicação: um desafio à parte

Para Bruna Centeno, economista, sócia e advisor na Blue3 Investimentos, a ampliação do número de investidoras envolve tanto uma questão de comunicação quanto o desenvolvimento de estratégias que facilitem a inserção de mulheres no mercado monetário.

Antes de pensar nos investimentos propriamente ditos, etapas anteriores, como a organização financeira e a forma de composição da renda, merecem atenção. Sem dinheiro disponível para poupar, explica a economista, torna-se difícil dar os primeiros passos no mercado.

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“Hoje a gama de produtos disponíveis nas plataformas de investimentos é variada. Mas penso que a falha está na comunicação, na maneira de trazer as mulheres para esse cenário”, afirma.

A dupla jornada — no trabalho e nos cuidados domésticos — reduz o tempo e a energia disponíveis para organizar as finanças. Por isso, a economista acredita ser importante pensar em formas de comunicação que se aproximem da realidade cotidiana das mulheres.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Beatriz Rocha

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