Nenhum carro a mais: a estratégia da Movida para ganhar mais com a mesma frota

A Movida encontrou uma maneira de ampliar seus negócios sem necessariamente comprar mais carros. Depois de passar os últimos três anos estabilizando o tamanho de sua frota, a locadora pretende manter essa estratégia em 2027, mesmo diante do crescimento da demanda por aluguel de veículos no Brasil.
O plano é aumentar a utilização dos automóveis existentes, reduzir despesas operacionais e administrar de maneira mais flexível o momento de vender os veículos usados. A estratégia já contribuiu para que a companhia mais que dobrasse o lucro líquido no terceiro trimestre de 2026, para R$ 152 milhões, versus R$ 70 milhões um ano antes.
O orçamento para 2027 já foi aprovado pelo conselho de administração e não prevê ampliação da frota. A prioridade será continuar aumentando a rentabilidade da operação.
“Vamos continuar com a firma estabilizada do ponto de vista do tamanho da frota, mas com mais eficiência operacional e ganhos no resultado”, afirma Gustavo Moscatelli, CEO da Movida, em entrevista ao InvestNews.
Os números do terceiro trimestre ajudam a explicar a decisão. O volume de diárias de locação cresceu 22% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto as tarifas tiveram reajuste médio de 5%. A taxa de ocupação avançou de aproximadamente 72% para 78%.
A combinação permitiu à Movida aumentar em 19% sua receita de aluguel e em 22% o Ebitda, indicador de geração de caixa operacional. A margem operacional também melhorou, beneficiada pela diluição de custos fixos sobre um volume maior de negócios.
Moscatelli acredita que ainda há espaço para elevar a ocupação da frota para um patamar entre 80% e 81%. Embora a diferença pareça pequena, ela pode representar um ganho relevante de rentabilidade, já que permite gerar mais receita com os mesmos ativos.
A estratégia também envolve uma mudança na estrutura de custos. No início deste ano, a Movida começou a internalizar parte dos serviços de manutenção dos veículos por meio de uma rede de oficinas próprias, batizada de Movida Pit Stop.
A companhia iniciou a operação com 11 unidades e pretende encerrar 2026 com 27. Para 2027, a previsão é superar 50 oficinas.
A verticalização deve reduzir os gastos com manutenção e dar à locadora maior controle sobre uma despesa importante para uma firma que administra milhares de veículos.
“Isso já está trazendo resultados, mas vai gerar, em escala, um ganho muito significativo pela redução do custo de manutenção”, explica Moscatelli.
Vender menos
A busca por rentabilidade ajuda a explicar outra decisão da Movida: reduzir o volume de veículos destinados ao mercado de seminovos.
Tradicionalmente, as locadoras compram automóveis novos, utilizam esses veículos durante determinado período e depois vendem para renovar suas frotas. O ritmo dessa operação influencia tanto a receita de seminovos quanto a disponibilidade de carros para aluguel.
Nos últimos trimestres, a Movida decidiu prolongar a permanência de parte dos veículos na operação de locação para aproveitar a demanda aquecida.
“A redução da venda de seminovos foi feita de forma planejada e proposital. A contrapartida foi um volume de aluguel muito maior, com a rentabilidade que apareceu no resultado”, diz Moscatelli.
Segundo o executivo, a estabilização da frota nos últimos três anos deu à companhia uma flexibilidade que não existia quando o negócio estava em expansão acelerada.
Durante os períodos de maior procura, como as férias, a firma pode manter mais veículos disponíveis para aluguel. Quando a demanda diminui, consegue intensificar a venda de seminovos.
Foi o que aconteceu neste ano. Após preservar mais carros na operação durante o segundo trimestre e parte do terceiro, a Movida aumentou gradualmente a desmobilização depois de julho.
A companhia também passou a privilegiar canais de venda capazes de proporcionar preços melhores, buscando preservar a rentabilidade do negócio de seminovos.
Para Moscatelli, a mudança significa que a firma consegue administrar o ciclo completo dos veículos com maior eficiência, em vez de seguir um calendário mais rígido de renovação.
Espaço para crescer
A decisão de manter a frota estável não significa que a Movida espera uma desaceleração da demanda.
Pelo contrário. Moscatelli considera que o mercado brasileiro de locação de veículos ainda está longe da maturidade. Segundo ele, uma parcela relevante dos consumidores está alugando um automóvel pela primeira vez.
Nos últimos 12 meses, a Movida conquistou quase 800 mil novos clientes. O executivo atribui parte desse crescimento aos investimentos em tecnologia, atendimento e experiência de locação realizados nos últimos anos.
“Hoje, o que diferencia uma firma da outra, na visão do cliente, é o serviço que está sendo prestado”, afirma, ao comentar a concentração do mercado brasileiro de locação em torno de dois grandes concorrentes.
Outro fator que favorece o setor é o turismo doméstico. Com o câmbio tornando as viagens internacionais mais caras, parte dos consumidores tem optado por destinos brasileiros.
A Movida identificou aumento da demanda em cidades como Vitória, São Luís e Foz do Iguaçu, onde está intensificando sua presença para atender ao crescimento do fluxo turístico.
No segmento corporativo, os juros elevados também podem estimular a terceirização de frotas. Em vez de imobilizar capital na compra de automóveis, as firmas podem recorrer à locação e direcionar os recursos para suas atividades principais.
O ambiente de juros altos, porém, representa um desafio para as próprias locadoras, que dependem de financiamento para sustentar suas operações.
A Movida reduziu sua alavancagem para 2,5 vezes (dívida sobre o Ebitda), o menor patamar em seis anos, segundo Moscatelli. O executivo também destaca o alongamento do cronograma de vencimentos e a redução de mais de 1,5 ponto percentual no spread da dívida sobre o CDI nos últimos dois anos.
Para 2027, a companhia pretende manter a disciplina financeira e concentrar os esforços na rentabilidade dos ativos existentes.
“Nos últimos quatro anos, a taxa de juros era alta e talvez continue em um patamar elevado. Vamos continuar fazendo o que estamos fazendo: cobrando um preço justo do cliente, entregando um serviço acima da média e trabalhando com muita eficiência operacional”, afirma Moscatelli.
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Autor: Raquel Brandão