O BC está contra a parede e, sem ajuste fiscal, o Brasil entra em recessão, diz Tony Volpon
O comunicado da decisão de juros do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) mostra que a autoridade está contra a parede, afirmou ao InvestNews o ex-diretor da autoridade monetária Tony Volpon. “O BC não poderia ter feito mais nada a não ser esperar.”
Segundo o economista, caso tenha de subir os juros novamente, o risco seria o de acelerar a entrada da economia em um cenário conhecido como “dominância fiscal”.
Esse é um quadro que pode ocorrer quando a dívida está elevada demais, a tal ponto que decisões de juros surtem menos efeito no controle da inflação e de suas expectativas. Se o BC sobe ainda mais os juros para combater a inflação, o custo para rolar a enorme dívida pública explode.
O aumento de juros faz o mercado desconfiar da capacidade do governo de pagar suas contas, o que pode gerar fuga de capitais, alta do dólar, desvalorização da moeda e, contraintuitivamente, mais inflação.
Além da dominância fiscal, a falta de ajuste nas contas públicas pode levar a um cenário no qual o país enfrenta um quadro de estagnação econômica, com crescimento baixo ou nulo e aumento do desemprego, sem que, ao mesmo tempo, consiga evitar uma inflação alta e persistente.
“No fim do dia, piorou a visão do BC sobre a desaceleração da atividade e sobre as expectativas de inflação, que estão subindo muito mais. O que o Copom está descrevendo, efetivamente, é que podemos estar rumando para um quadro de estagflação.”
O Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4), interrompendo um ciclo de cinco quedas de juros seguidas. A decisão era amplamente esperada no mercado diante dos dados mais recentes.
Volpon foi taxativo sobre o impacto da piora do mercado e da conjuntura negativa que se consolidou após a eleição presidencial: a economia vai enfrentar uma recessão em 2027. “Esse é o meu cenário base.”
O economista considera ainda a decisão de interromper a sequência de cortes da Selic como o fim do ciclo de cortes, após cinco reuniões em que a taxa foi reduzida. “O comunicado do Copom não está descrevendo a decisão como uma pausa. O que o documento efetivamente sinaliza é que o ciclo acabou.”
Nesse caso, o próximo movimento do BC pode até ser uma alta de juros, se o cenário se deteriorar. “Por exemplo, caso o câmbio dispare para acima de R$ 5,80”, cita. No fechamento da quarta-feira (4), estava em R$ 5,47.
Quadro que lembra 2015 e 2016
Volpon afirma que o momento atual lembra muito o período entre 2015 e 2016, quando o BC acabou subindo os juros para 14,25% ao ano em meio a uma inflação de dois dígitos e uma desaceleração da atividade.
O economista, que participou das reuniões do Copom naquele período, explica que “quadro atual é parecido, com inflação muito alta e economia no rumo da recessão”. Na visão do especialista, “esse é o quadro mais desafiador para a política monetária”.
O ex-diretor do BC reforçou que seu cenário base para o próximo ano é negativo. “Acho que o mercado mantêm a lembrança do último governo que não importa quem seja nomeado ministro da Fazenda, porque, no fim do dia, quem decide os rumos da economia é o Lula. O ministro da Fazenda não tem autonomia.”
Para mudar o quadro de risco fiscal, o próprio presidente teria de convencer o mercado de que o governo vai fazer um ajuste fiscal gradual. “Mas como o PT acredita que fazer um ajuste fiscal seria um estelionato eleitoral, tudo indica que a Selic deve se manter contracionista e contribuir para uma recessão futura.”
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Autor: Sérgio Tauhata

