O brasileiro nunca nunca teve tanta dívida – e a conta vai pesar na economia em 2027
O brasileiro está mais endividado do que nunca. E com pagamentos em atraso também. Você já deve ter ouvido essas frases nas últimas semanas. E elas não só são verdadeiras como embutem uma consequência mais abrangente cujos efeitos devem ser sentidos mais claramente em 2027: a economia brasileira está crescendo em ritmo cada vez mais lento.
Não são só as famílias que estão no centro dessa tendência: de pequenas e médias firmas até grandes companhias, há um contingente sob aperto de dívidas multibilionárias e do persistente alto custo dos empréstimos, que vive uma onda de recuperações extrajudiciais e judiciais.
“Tem uma desaceleração contratada para o próximo ano”, afirma Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management. “Com juro alto, inadimplência e comprometimento da renda, não tem como a economia continuar crescendo.”
O braço de gestão de fortunas de um dos maiores bancos da Europa não está sozinho no diagnóstico. Houve uma onda de revisões para baixo para o PIB de 2027 entre instituições financeiras nos últimos meses. O Bank of American (BofA) cortou sua projeção de crescimento de 2,3% para 1,3%.
Na mesma leva, o Bradesco reduziu sua estimativa de 2% para 1,5%, a XP passou a projetar alta de 1,2%, e o Itaú ajustou para 1,7%.
Os dados do segundo trimestre de 2026, que serão divulgados hoje às 9h pelo IBGE, devem dar novas cores à perda de fôlego da economia e podem, portanto, desencadear uma nova onda de revisão nas projeções.
Crescimento menor da economia significa menos riqueza gerada no país, como parte de um ambiente de consumo mais fraco e de firmas que contratam e investem menos para expandir suas atividades.
Um dos fatores por trás do otimismo mais baixo está ligado ao alto grau de endividamento tanto das famílias quanto das firmas.
Desta vez, o que pega no bolso do brasileiro não é nem o desemprego, que segue nos menores patamares da série histórica do IBGE, nem a renda em um ambiente de inflação ainda pressionada.
A raiz do problema atual remonta justamente ao crescimento acelerado das dívidas e do custo elevado dos financiamentos que já dura mais de quatro anos, desde que a taxa Selic passou do nível de 10% ao ano em 2022.
“O país já está crescendo agora com uma certa dificuldade, e isso vai aumentar ainda mais [no ano que vem]”, afirma o economista sênior da Nomad, Vitor Kayo. “Dentro desse contexto, não vejo uma recessão pela frente mas uma desaceleração da atividade.”
Crédito em ritmo acelerado
O aumento do endividamento tem outras explicações além dos juros elevados. Uma delas passa pela “explosão” (para melhor) da oferta.
A oferta de dinheiro emprestado por fintechs, por exemplo, cresceu quase 330 vezes desde 2016. O crédito concedido por financeiras digitais, majoritariamente para pessoas físicas, saltou de R$ 161 milhões em 2016 para R$ 53,8 bilhões no ano passado, segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) em parceria com PwC.
Só em 2025, as concessões de financiamentos feitas por fintechs, com modelos de negócios em muitos casos menos restritivos do que bancos tradicionais, apresentou um crescimento de 51% ante 2024.
Já o crédito bancário para pessoas físicas, sem considerar o financiamento imobiliário, aumentou 33,2% nominalmente, ou seja, sem ajuste pela inflação, do início de 2024 até agosto de 2026.
A carteira saiu de R$ 1,9 trilhão para R$ 2,6 trilhões nesse intervalo. E em 10 anos esse estoque multiplicou por três: saiu de R$ 800 bilhões para quase R$ 2,6 trilhões.
Micro e pequenas firmas em apuros
A combinação de aumento do endividamento com juros em elevação se traduziu em pressão extra sobre os orçamentos das famílias.
As taxas médias de juros para pessoas físicas estavam em 60% ao ano em julho. Isso significa que um empréstimo de R$ 5 mil passava para R$ 8 mil depois de apenas um ano.
Do lado de micro, pequenas e médias firmas, o nível de endividamento também assusta.
Círculo vicioso
Além do custo do crédito, o aperto para os negócios piorou com a maior restrição dos bancos em emprestar diante do crescimento da inadimplência.
Os atrasos de pagamentos de firmas bateram o recorde de toda a série histórica da Serasa Experian, iniciada em 2016.
O número de pessoas jurídicas negativadas superou 9,1 milhões de CNPJs em junho, somando um volume de dívidas em atraso que alcança R$ 232,9 bilhões. Foi um crescimento anual de 17%.
Desse total, 94,5% são micro, pequenas e médias firmas.
“A atividade econômica começa a apresentar uma desaceleração mais evidente”, afirma a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.
Apesar da queda recente dos juros, esse ciclo está ainda em estágio incipiente. Até por isso, a inadimplência continua a subir.
Para a economista da Serasa, o maior problema, na verdade, está no fato de que o enfraquecimento da economia reduz a geração de receita das firmas.
E isso acaba alimentando um círculo vicioso.
O cenário torna mais difícil para as companhias reorganizar os passivos e recompor o fluxo de caixa. E isso leva os grupos a recorrerem a mais dívida, nas linhas mais caras disponíveis, em efeito “bola de neve”.
O setor que apresenta o maior nível de inadimplência é o de serviços: 55,7% das companhias com dívidas em atraso está nessa área.
E não é para menos. O orçamento cada vez mais curto e o aumento dos atrasos nos pagamentos das famílias se traduzem em consumo menor.
Famílias com ‘pouco bolso’
A taxa de inadimplência de pessoas físicas na modalidade “crédito livre” – ou seja, que não consideram linhas direcionadas, como o imobiliário – atingiu a máxima dos últimos 15 anos, segundo o Banco Central. Está em 7,8%, no maior nível desde 2011.
Até no crédito consignado, considerado uma fortaleza entre as linhas de financiamento por causa da garantia do desconto em folha de pagamento, o nível dos calotes subiu para inéditos 10% do saldo da carteira do que é acertado com firmas do setor privado.
Esse aumento dos atrasos em pagamentos das dívidas se traduz em mais de 73 milhões de brasileiros com “nome sujo” nos registros da Serasa. A quantidade equivale a mais de 40% da população adulta do país.
Um dos principais comportamentos negativos para o crescimento da inadimplência vem do uso das linhas de crédito mais caras, como cartão de crédito rotativo, cheque especial e até o crédito pessoal em menor grau, para cobrir o custo do dia a dia.
O cartão representou 84% das dívidas pessoais, segundo dados de junho da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.
A renda comprometida com o serviço das dívidas construídas ao longo dos últimos anos alcançou o maior patamar da série histórica do Banco Central em junho. Os dados mostram que, em média, 28,9% do orçamento das famílias tem sido usado para pagar empréstimos.
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Autor: Sérgio Tauhata
