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O jovem de 26 anos que levou IA para o mundo dos advogados, atraiu Peter Thiel e Sequoia e agora incomoda a OAB-SP

Mateus Costa-Ribeiro atende à videochamada com o InvestNews de uma sala de reuniões em Nova York. A certa altura da conversa, atento ao horário de seu próximo compromisso, ele avisa: “tenho até as três e trinta e dois”.

A precisão de quem conta os minutos dá uma pista da disciplina com que Costa-Ribeiro, aos 26 anos, conduz seu negócio: a Enter, primeira startup de inteligência artificial da América Latina a valer mais de US$ 1 bilhão. 

Fundada em 2023, a Enter desenvolve ferramentas de IA para departamentos jurídicos de grandes firmas. Hoje, a startup atende 60 clientes, entre eles Nubank, Itaú, Mercado Livre, iFood, Airbnb, Latam, Vivo e SulAmérica. O foco é o que o mercado jurídico chama de contencioso, como processos abertos por consumidores contra as firmas, mas também uma pitada de trabalhista.

Apesar da pouca idade (da firma e do fundador), Costa-Ribeiro não esconde o desejo de transformar o mercado jurídico no Brasil e, futuramente, internacionalizar os negócios.

“A gente vislumbra a Enter sendo, um dia, uma das três principais firmas de tecnologia [da América Latina], no mesmo patamar que hoje estão o Nubank e o Mercado Livre”, diz.  

A expansão da Enter, porém, já suscita um debate conhecido de firmas que desafiam mercados tradicionais: a reação dos incumbentes, aqueles que detêm participação relevante em seus setores ou reservas de mercado. Uber versus taxistas; Airbnb e hotelaria; fintechs e bancos tradicionais…

Na quarta-feira (7), a Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP) entrou com uma ação na Justiça Federal contra a Enter.

Em um documento de 229 páginas, a seção paulista da entidade que tem o poder de aplicar a prova que decide quem pode ou não exercer a profissão alega que a startup oferece serviços que seriam exclusivos de advogados, como definir estratégias de defesa e elaborar peças jurídicas.

Na ação, pede que a Justiça estabeleça regras para a oferta dessas ferramentas – e, em último caso, restrinja sua venda apenas a advogados e escritórios de advocacia registrados na OAB, excluindo a oferta a firmas.

Antes de qualquer ação, a Enter já vinha coletando dados para mostrar que sua tecnologia não substitui os advogados, mas os ajuda a dar conta de um volume crescente de processos, em um país onde cada vez mais conflitos acabam na Justiça. Desde 2022, a quantidade de processos no Brasil cresce a uma taxa média anual de 8% (ver gráfico).

“A inteligência artificial industrializou a judicialização, criou uma máquina de entrar com novas ações [contra as firmas]. A Enter é quase uma reação a isso, um antídoto”, diz Costa-Ribeiro, com base em uma pesquisa da startup, feita com apoio da Bain & Company. Ele concedeu entrevista ao InvestNews sobre o estudo horas antes de a ação da OAB-SP vir a público.

A assessoria da firma informou posteriormente que “mantém um diálogo aberto e construtivo com o conselho federal da OAB [a ação foi impetrada pelo conselho São Paulo da entidade] e que, por isso, lamenta não ter sido procurada pela OAB-SP antes do ajuizamento de uma ação baseada em informações equivocadas e acusações infundadas”.

A fábrica de defesas

Uma grande firma precisa de dois tipos de advogados. Parte deles trabalha para evitar incêndios: redige contratos e avalia os riscos jurídicos de novos negócios. Estes são os advogados consultivos. A outra parte entra em cena quando a coisa já pegou fogo: defende a firma em processos e negocia acordos. É o contencioso. 

A IA da Enter trabalha para o contencioso das firmas, tanto em disputas com consumidores (processos civis) quanto com funcionários e ex-funcionários (processos trabalhistas).

Funciona assim: quando alguém entra com uma ação, a IA lê o processo e vai atrás das informações para sustentar uma defesa.

Para isso, ela se conecta aos sistemas eletrônicos dos tribunais – como PJe, e-SAJ, eproc e Projudi –, em que tramitam os processos. Ali, ela consegue acompanhar o andamento da ação e analisar como casos semelhantes foram julgados. E acessa também os sistemas da própria firma para reconstruir o que aconteceu em cada caso.

Um exemplo: na Latam, a IA busca dados da reserva, do voo e resgata os registros de atendimento ao passageiro. Se a ação envolve um voo cancelado, a IA ainda cruza essas informações com as condições meteorológicas e a situação do aeroporto no horário do voo. 

A partir daí, a IA analisa as evidências, sugere os argumentos e a tese de defesa e redige o texto. Resta ao advogado humano revisar as informações e decidir se concorda com a estratégia de defesa. 

Segundo informações públicas da Enter, o Mercado Livre economizou US$ 1 milhão em 5 mil processos com o uso da tecnologia. A firma também afirma que o Nubank aumentou em 6 pontos percentuais a proporção de processos com resultado favorável após adotar a ferramenta.

Foi essa tese de eficiência em um mercado com milhões de processos judiciais que, como veremos mais à frente, atraiu a atenção de dois grandes investidores americanos: o bilionário Peter Thiel e a gestora Sequoia Capital.

O fundador

Aos 26 anos, Mateus Costa-Ribeiro, cofundador e CEO da Enter, ostenta uma carreira de conquistas precoces.

Começou a cursar Direito na Universidade de Brasília aos 14 anos. Formado aos 18, tornou-se o advogado mais jovem do país a obter registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Depois de uma pós-graduação em Direito em Harvard, virou também um dos advogados mais jovens a obter licença para atuar em Nova York, aos 21 anos.

Em 2023, ingressou em um MBA em Stanford, na Califórnia, já querendo abrir o próprio negócio. “Eu fui para lá para achar três coisas: um problema para resolver, sócios para construir um negócio comigo e investidores.”

Trata-se da mesma cartilha usada por outro empreendedor latino que passou por Stanford: David Vélez, cofundador e CEO global do Nubank. Figura com quem Costa-Ribeiro teve contato durante o MBA: “Foi muito inspirador ver uma pessoa que tinha construído e revolucionado o mercado no Brasil, e que estava fazendo [o mesmo] na Colômbia, no México e nos Estados Unidos”.

Na largada da firma, Costa-Ribeiro comandava a Enter de seu dormitório em Stanford, enquanto uma equipe de seis pessoas trabalhava no Brasil. Em cinco meses, a receita mensal da startup saltou de R$ 8 mil para R$ 80 mil. O crescimento o levou a abandonar o MBA em dezembro daquele ano e voltar ao Brasil para se dedicar integralmente ao negócio.

“O mercado no Brasil, na minha opinião, tinha várias dores maiores que as dos Estados Unidos. Você tem, por exemplo, oito vezes mais processos judiciais no Brasil contra grandes firmas.”

Investidores e um conselho de peso

Prestes a retornar ao Brasil, Costa-Ribeiro recebeu um e-mail de Konstantine Buhler, sócio da gestora Sequoia Capital, com um convite para um jantar com alunos empreendedores de Stanford. 

Foi o primeiro contato com a Sequoia, que, mais tarde, escolheria a Enter como seu segundo investimento no Brasil – o primeiro, uma década antes, havia sido o Nubank. 

Costa-Ribeiro passou a dividir o negócio com dois sócios: Henrique Vaz, cientista da computação formado em Harvard, e Mike Mac-Vicar, cofundador da Wildlife Studios, firma brasileira de jogos para celular que chegou a ser avaliada por US$ 3 bilhões.

Montagem com os três fundadores da Enter. Ao redor, ilustrações de processos judiciais, uma balança da Justiça e gráficos.
Da esquerda para a direita, Henrique Vaz, Mateus Costa-Ribeiro e Michael Mac-Vicar, sócios da Enter

“Quando fui escolher meus sócios, procurei duas coisas: semelhança na visão de mundo e nos valores, mas diferenças complementares nas competências”, explica. Vicar ficou responsável pela tecnologia, Vaz pelo desenvolvimento de produtos, e Costa-Ribeiro, pela estratégia e relação com os clientes.

Nos dois anos seguintes, a Enter cresceu em ritmo acelerado. 

Em setembro de 2025, recebeu um aporte de US$ 35 milhões da Sequoia e do Founders Fund, fundo de investimentos do bilionário Peter Thiel – fundador do PayPal e da Palantir.

Oito meses depois, o Founders Fund liderou um novo aporte de mais de US$ 100 milhões, que avaliou a Enter em US$ 1,2 bilhão. 

Enquanto isso, a firma também atraiu nomes conhecidos do Direito e do mundo firmarial para participar do negócio.

Hoje, tem um conselho institucional formado pelo ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, pelo apresentador e empresário Luciano Huck e por Roberto Quiroga, um dos fundadores do escritório de advocacia Mattos Filho.

Novos mercados e novas fronteiras

Hoje, a prioridade da Enter é ampliar os serviços prestados aos 60 clientes da startup. A ideia é criar novas aplicações de inteligência artificial, inclusive fora da área jurídica. 

“Nossa grande obsessão é que a Enter seja, para todos esses 60 clientes, o trusted advisor [conselheiro de confiança] no tema de inteligência artificial”, diz Costa-Ribeiro.

Aos 26 anos, ele não demonstra ter pressa, mas também não pretende esperar tanto assim: “Acho que a gente estaria falando em algo que vai acontecer antes de dez anos [para a internacionalização].”

O Direito na era da IA

O Direito está entre as áreas com maior potencial de ser automatizada pela IA. Um estudo do Goldman Sachs estimou que a tecnologia poderia executar 44% das tarefas jurídicas nos Estados Unidos. É o segundo maior percentual entre as categorias analisadas, atrás apenas de funções administrativas.

O argumento da Enter é que automatizar tarefas não significa, necessariamente, eliminar empregos. A citada pesquisa com apoio da Bain & Company mostrou que o número de advogados em grandes escritórios continua crescendo, apesar do avanço da IA.

E atribui isso ao aumento do número de ações judiciais: em 2025, o Brasil registrou 40,9 milhões de novos processos, um recorde. Uma cortesia, talvez, da própria IA – que facilita muito abrir um processo.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Camila Alves Barros

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