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O recado das urnas nos EUA: a resistência aos data centers ameaça o avanço da IA

Os principais nomes do boom da inteligência artificial nos Estados Unidos se reuniram na noite da eleição na Ópera de San Francisco para um espetáculo organizado pelo CEO da Nvidia, Jensen Huang.

Eles estavam lá para assistir a As Bodas de Fígaro. Mas, entre taças de vinho e canapés, executivos vestidos de smoking comentavam sobre uma ameaça crescente ao setor, segundo pessoas presentes no evento: os resultados eleitorais apontavam uma rejeição expressiva à expansão em larga escala da capacidade computacional, da qual o Vale do Silício depende para impulsionar seu futuro.

Na manhã de quarta-feira, dirigentes da OpenAI discutiam se os resultados significavam que a firma teria de rever suas expectativas para a capacidade de seus data centers no próximo ano, segundo uma pessoa familiarizada com a conversa.

O voto dos americanos em candidatos e propostas que defendem proibir ou restringir a construção de data centers pode conter o rápido crescimento da inteligência artificial e se transformar em um grande problema para as firmas que estão na linha de frente do avanço tecnológico. Também ameaça prejudicar o boom da IA, que vem impulsionando a economia dos Estados Unidos.

As firmas de tecnologia já enfrentavam dificuldades para garantir capacidade computacional suficiente para atender à crescente demanda por seus produtos. Se as obras forem paralisadas, uma situação que já é delicada poderá se tornar crítica.

Eleitores apoiaram candidatos democratas, de Ohio e Michigan ao Texas e à Geórgia, que criticaram a construção de data centers e prometeram desacelerar ou suspender sua expansão.

Mais de uma dezena de cidades em Ohio votaram pela interrupção ou restrição de novos projetos. Proibições semelhantes foram aprovadas em municípios do Kansas, da Flórida e da Califórnia — uma rejeição praticamente generalizada em dezenas de propostas, que sinaliza uma oposição crescente ao setor entre eleitores dos dois partidos.

A governadora eleita do Texas, Gina Hinojosa, criticou durante a campanha o fato de o Estado ter se transformado em um “Velho Oeste” para a construção de data centers. “Isso vai acabar quando eu for governadora”, afirmou a democrata. Ela defendeu uma suspensão das obras até que o Legislativo estadual do Texas aprove novas regras para o setor.

Texas, Geórgia e Ohio concentram mais de 40% de toda a capacidade de data centers planejada nos Estados Unidos, segundo o banco de investimentos Evercore ISI.

O projeto Stargate, da OpenAI, está em construção no Texas, e a firma planeja outro empreendimento de grande porte na Geórgia, chamado Project Camellia. A Meta está construindo um grande data center no Texas e outro em Ohio, batizado de Prometheus.

A Anthropic, que sinalizou a possibilidade de gastar até US$ 895,4 bilhões em capacidade computacional nos próximos anos, alertou investidores no mês passado, em um documento enviado às autoridades do mercado de capitais, sobre os riscos de concentrar uma parcela significativa de sua capacidade de processamento nos Estados Unidos. A firma afirmou que eventuais suspensões de projetos poderiam atrasar ou impedir a construção das instalações de que precisa.

Os resultados eleitorais surgem em meio à crescente preocupação dos eleitores com a inteligência artificial, por questões que vão desde ataques cibernéticos e perda de empregos até a pressão que os data centers exercem sobre os sistemas locais de energia e abastecimento de água.

Os democratas eleitos com promessas que vão desde proibições totais até uma fiscalização mais rigorosa ainda apresentaram poucos detalhes sobre como pretendem agir. Mas a desaceleração do rápido crescimento das instalações que abrigam os equipamentos usados nos sistemas de IA poderia abalar um dos principais motores da expansão econômica dos Estados Unidos.

Um grande número de projetos que já receberam autorização para construção deve seguir adiante, garantindo mais uma rodada de crescimento e investimentos no curto prazo. Ainda assim, alguns empreendimentos futuros, inclusive aqueles que já estão em estágios avançados de planejamento, podem ser cancelados ou, pelo menos, adiados.

“Isso provavelmente vai prolongar os prazos de construção dos data centers”, afirmou Pat Grady, sócio da Sequoia Capital, durante a conferência WSJ Tech, na quarta-feira. “Esse deve ser o impacto mais concreto do que aconteceu nas eleições de ontem.”

PIB

Segundo o Goldman Sachs, os investimentos em inteligência artificial devem representar 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos neste ano. É a maior participação no crescimento econômico atribuída à construção de uma nova indústria desde o boom das ferrovias no século 19. Além disso, estimativas do LinkedIn indicam que 750 mil novos empregos nos Estados Unidos, criados entre 2023 e setembro deste ano, também estão relacionados à IA.

As ações de firmas de data centers ampliaram uma sequência recente de oscilações na quarta-feira. Os papéis da CoreWeave recuaram quase 10%, enquanto os da Applied Digital caíram cerca de 7%.

Nas últimas semanas, investidores também venderam títulos de dívida ligados à CoreWeave e a outras firmas do setor, diante dos temores de juros mais altos e dos níveis de endividamento dessas companhias. Muitos integrantes da indústria de tecnologia já se preparavam para uma desaceleração das atividades de data centers em razão da reação contrária ao setor entre eleitores dos dois partidos.

“Agora, com essa onda democrata, acho que a desaceleração será ainda maior”, afirmou Brad Gerstner, investidor de capital de risco que aplica recursos em firmas de IA, no podcast de tecnologia All-In, na noite de terça-feira. Segundo ele, cerca de 25% a 35% dos projetos de construção de data centers previstos para o próximo ano nos Estados Unidos podem estar em risco.

“É por isso que acho que será realmente difícil para as ações de firmas de infraestrutura de IA”, disse, referindo-se aos papéis das companhias de data centers.

O CEO da SpaceX, Elon Musk, destinou quase US$ 500 milhões às eleições de meio de mandato, enquanto outros integrantes do setor doaram dezenas de milhões de dólares para ajudar a eleger candidatos mais favoráveis à construção de data centers.

“Data centers no espaço parecem uma opção bastante atraente agora”, escreveu Musk na rede social X na manhã de quarta-feira. Ele se referia à sua ideia de instalar essas estruturas em órbita para evitar as dificuldades de construí-las na Terra. Musk mora no Texas, onde também fica a sede da SpaceX.

“A revolta contra os data centers foi uma das principais questões das eleições de 2026”, afirmou o deputado Greg Casar, democrata do Texas que foi reeleito e defende uma suspensão nacional da construção de novos data centers.

Casar acredita que a rejeição à inteligência artificial terá peso nas próximas eleições. “Daqui a alguns anos, vamos olhar para trás e perceber que isso foi apenas o primeiro tremor de um terremoto muito maior, provocado pela IA, que vai abalar a política americana.”

Cerca de 56% dos eleitores americanos disseram que os data centers foram um fator crucial ou importante na escolha de seus candidatos ao Congresso, segundo uma pesquisa nacional realizada pela firma de pesquisas SSRS.

A expansão dos data centers tem sustentado o crescimento econômico em um momento em que a geração de empregos perdeu ritmo e outros setores da economia ficaram estagnados.

O boom levou investimentos e receitas com impostos sobre propriedades a diversas comunidades rurais. firmas de tecnologia financiaram a construção de novos quartéis de bombeiros. Em Richland Parish, na Louisiana, a arrecadação de impostos relacionada à Meta permitiu o pagamento de bônus de US$ 50 mil a professores da rede pública.

Tiffany O’Donnell, prefeita de Cedar Rapids, em Iowa, afirmou na terça-feira, durante a conferência WSJ Tech, que dois data centers em construção trouxeram benefícios para a cidade. Os projetos atraíram US$ 8 bilhões em investimentos de capital e dezenas de milhões de dólares em recursos destinados a benefícios para a comunidade.

Ainda assim, os empreendimentos tiveram um custo político. A família e o cachorro de O’Donnell foram ameaçados por um morador irritado com os data centers. Seus críticos passaram a chamá-la de “Tiffany O’Data Center”, em referência ao apoio aos projetos.

Os maiores canteiros de obras de data centers empregam milhares de trabalhadores da construção civil durante vários anos. Depois que as instalações entram em operação, porém, o número de funcionários necessários é muito menor.

Uma queda na construção de novos data centers provavelmente reduziria o nível geral de emprego na construção civil, em um momento em que as obras de outros tipos de imóveis comerciais, como apartamentos e edifícios de escritórios, estão em retração.

“Os data centers têm sido o principal motor do crescimento dos gastos com construção”, afirmou Anirban Basu, economista-chefe da Associated Builders and Contractors, entidade que representa firmas do setor de construção. “É possível imaginar que o boom de construção de data centers vai perder bastante força nos próximos dois anos.”

Vários democratas que conquistaram vitórias expressivas nas eleições para o Senado, entre eles James Talarico, do Texas, Abdul El-Sayed, de Michigan, e Annie Andrews, da Carolina do Sul, atacaram seus adversários republicanos pelo apoio aos data centers e propuseram novas restrições federais para limitar a atividade do setor.

Um comitê de ação política que defende restrições aos data centers afirmou ter conquistado eleitores com uma propaganda que atacava David Sacks, investidor de capital de risco e conselheiro de inteligência artificial da Casa Branca, contrário à regulamentação da IA. O anúncio mostrava Sacks enriquecendo com investimentos em inteligência artificial enquanto atuava para impedir regras para o setor em sua função de conselheiro do presidente.

A insatisfação com os data centers também influenciou a votação no Alasca. A candidata democrata ao Senado, Mary Peltola, criticou a disposição do senador republicano Dan Sullivan, que tentava a reeleição, em atrair firmas de inteligência artificial para o Estado. Peltola liderava a disputa até o fim da tarde de quarta-feira.

“Eu simplesmente tentei votar em candidatos contrários aos data centers em todas as disputas”, disse Wendi Deschamps, eleitora de Peltola e cientista ambiental que mora em Girdwood, no Alasca, uma pequena cidade cercada por sete geleiras, a cerca de 45 minutos de Anchorage.

Matt Sforza, professor de 35 anos de Sunbury, em Ohio, afirmou na terça-feira que pretendia votar a favor de uma proibição local à construção de grandes data centers. Ele estava preocupado com os danos ao abastecimento de água da região e outros riscos ambientais.

“Acho que precisamos deles, de certa forma, para acompanhar a demanda por tudo o que fazem”, disse Sforza, que costumava votar nos republicanos, mas afirmou ter passado a apoiar os democratas nos últimos anos. Mas, segundo ele, “parece que deve haver uma maneira melhor de fazer isso do que construir essas instalações bem ao lado de escolas e casas”.

A proposta de proibição em Sunbury foi aprovada por ampla maioria.

Escreva para Will Parker, pelo e-mail will.parker@wsj.com; Anissa Gardizy, pelo e-mail anissa.gardizy@wsj.com; e Amrith Ramkumar, pelo e-mail amrith.ramkumar@wsj.com.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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