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Pais ‘helicópteros’ estão guiando a carreira dos filhos adultos

Steven Clark teve a desagradável tarefa de demitir um jovem de 24 anos — duas vezes. A primeira foi em uma breve conversa com o recém-contratado, que havia chegado atrasado ou sequer aparecido quatro vezes durante sua primeira semana em um emprego na construção civil.

Depois, Clark teve que fazer tudo de novo, dessa vez com a mãe do rapaz.

Ela ligou algumas horas depois, implorando para que desse outra chance ao filho. Quando Clark disse que não, a conversa ficou acalorada antes de ele encerrar a ligação.

“Eu disse: ‘Olha, você sabe, isso é entre nós e seu filho. Ele é o funcionário’”, conta Clark, diretor de operações de uma firma de recrutamento e terceirização de mão de obra com sede em Fairbanks, no Alasca.

Os integrantes da Geração Z representam quase um quinto da força de trabalho adulta, e chefes e recrutadores dizem que muitas vezes parece que os pais ansiosos que ficavam constantemente por perto durante a infância e a faculdade continuam ao lado deles. O que começou, no período pós-Covid, como a participação ocasional dos pais em entrevistas de emprego agora se transformou em uma espécie de “copilotagem” completa da carreira, diz Jasmine Escalera, principal coach de carreira da Zety, firma de modelos de currículos.

Mais pais estão ligando para gerentes de contratação, candidatando os filhos adultos a vagas em nome deles e até aparecendo — ou ficando à espreita fora do enquadramento — durante chamadas pelo Zoom para ajudar a conduzir conversas difíceis ou analisar pacotes de benefícios.

“Na primeira vez que aconteceu, fiquei horrorizado”, diz Clark, que já recebeu ligações de pais perguntando por que seus filhos não conseguiram um emprego. “Desde então, minha reação passou a ser mais do tipo: lá vamos nós de novo.”

Profissionais de recursos humanos têm demonstrado indignação nas redes sociais.

“Os pais não deveriam ligar para empregadores para verificar o status de uma candidatura ou fazer perguntas em nome dos filhos”, afirma Lynne Alba, diretora de aquisição de talentos e recrutamento de médicos de um grande sistema de saúde em Long Island. Ela desabafou sobre o fenômeno em um vídeo no TikTok que republicou no LinkedIn.

Em uma recente feira de empregos, uma mãe se aproximou de Alba com o currículo da filha, explicando que ela queria trabalhar como enfermeira. “Embora eu tenha apreciado o fato de ela estar tentando ajudar, deliberadamente direcionei minha atenção para a filha. Independentemente do que a mãe dissesse, eu queria ouvir diretamente da candidata”, afirma Alba.

Alguns pais que intervêm dizem que o mercado de trabalho é difícil para os jovens e que só interfeririam em circunstâncias extremas — ansiedade social, um chefe tóxico ou tratamento injusto. Também existe uma área cinzenta de intervenção que alguns consideram uma extensão dos conselhos dos pais e da ajuda para fazer contatos profissionais, algo que ocorre há gerações.

Rick Wainschel publicou no ano passado uma postagem no LinkedIn pedindo a sua rede de contatos que ajudasse sua filha, recém-formada na faculdade, a encontrar uma vaga corporativa de nível inicial.

Wainschel, vice-presidente de uma firma de tecnologia de marketing automotivo, diz que não considera sua iniciativa um caso de “pai helicóptero”. “Bem, talvez um pouco”, disse, antes de acrescentar rapidamente que estava falando meio de brincadeira. “Era realmente apenas para ajudá-la a estabelecer uma rede de contatos. Acho que o mundo do trabalho é um lugar desafiador.”

A postagem de Wainschel, autorizada pela filha sob a condição de que ele não a envergonhasse, não resultou em um emprego, mas gerou conversas produtivas, segundo ele. Pouco depois, ela conseguiu sozinha um emprego em uma cooperativa de crédito.

Recrutadores e outros profissionais de RH dizem que a participação agressiva dos pais sinaliza falta de independência e gera o temor de que mãe e pai continuarão acompanhando o filho regularmente caso ele seja contratado.

Além disso, eles afirmam que esse tipo de interferência raramente, ou nunca, funciona.

O fenômeno está se tornando tão comum que entrou na programação da conferência nacional da SHRM, organização de profissionais de recursos humanos, realizada em junho. Quando James Harrell perguntou a uma sala com 250 profissionais se algum deles já havia recebido uma ligação de um pai em nome de um jovem funcionário ou se deparado com um pai em uma entrevista de emprego, mais da metade levantou a mão.

“Na primeira vez que aconteceu comigo, subi no meu palanque e balancei o punho”, diz Harrell. “Na 15ª vez, pensei: ‘Tudo bem, preciso descobrir uma maneira diferente de lidar com isso’.”

Harrell ajudou a administrar um programa de aprendizagem para estudantes do ensino médio quando era chefe de gestão de capital humano do Distrito Escolar Independente de San Antonio. Para evitar esse tipo de interferência, o distrito criou um “dia da assinatura”, no qual os pais poderiam comparecer e fazer perguntas.

Depois que um funcionário da Geração Z da Nation’s Best Holdings, uma rede de lojas de ferramentas, materiais e artigos para casa, não recebeu a classificação “supera as expectativas” em sua avaliação de desempenho no ano passado, a chefe de RH, Amber Little, recebeu uma ligação perguntando o motivo.

Foi uma das várias ligações que seu escritório recebeu recentemente de pais sobre questões que vão desde avaliações negativas de desempenho até dúvidas sobre qual plano de seguro de saúde escolher. Little também percebeu que agora os pais estão ligando para avisar que seus filhos adultos estão doentes e não poderão trabalhar.

“Em vez de orientá-los, eles fazem isso por eles”, diz Little. Quando isso acontece, acrescenta, “incentivamos os pais a dizerem aos filhos que venham conversar conosco, e nós os orientaremos durante o processo”.

Uma pesquisa da Zety com mais de 1.000 integrantes da Geração Z descobriu que 20% tiveram um dos pais presente em uma entrevista de emprego.

“Você tem a sensação de que, para algumas famílias, todos estão mobilizados”, diz Keith Wolf, sócio-gerente da firma de recrutamento Murray Resources, em Houston. Seu escritório já recebeu e-mails de pais procurando emprego para os filhos, e Wolf diz que sempre se perguntou se os próprios jovens sequer sabiam disso.

Paul “PB” Branson, que se formou na Universidade do Missouri-Columbia em maio, se incomoda com a ideia. O jovem de 22 anos diz que, embora entenda a ansiedade dos pais, eles não deveriam participar das entrevistas de emprego dos filhos nem entrar em contato com funcionários em nome deles.

“Essa tendência”, diz ele, “prejudicou muito a minha geração ao criar esse estereótipo de que precisamos que alguém segure nossa mão.”

Escreva para Ray A. Smith em Ray.Smith@wsj.com

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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