C&A e Riachuelo apertam o passo. E expõem a perda de ritmo da Renner

Durante anos, a Renner construiu uma posição de referência no varejo brasileiro de moda combinando produtividade elevada das lojas, controle de estoques e margens superiores.
Essa vantagem não desapareceu. Mas os resultados do segundo trimestre trouxeram uma questão nova: enquanto o consumidor perdeu força, C&A e Riachuelo conseguiram crescer mais — e a Renner perdeu velocidade. Na B3, as ações caíram 8,09% nesta sexta-feira (7), para R$ 12,39.
A diferença aparece principalmente nas vendas mesmas lojas, ou same-store sales (SSS), indicador que mede o desempenho das unidades com um ano ou mais de operação. Na Riachuelo, o SSS de vestuário avançou 7,8% no segundo trimestre. Na C&A, cresceu 4,1%. Na Renner, apenas 1,5%.
O ambiente foi difícil para as três. A Copa do Mundo reduziu o fluxo nos shoppings, juros ainda elevados pressionaram o consumidor e o inverno chegou mais tarde. Ainda assim, a distância entre os números sugere que o cenário macroeconômico explica apenas parte da diferença.
A XP classificou o resultado da Renner como “fraco” e ressaltou que, embora as varejistas tenham citado obstáculos semelhantes, a companhia apresentou a desaceleração mais acentuada. Para o time de varejo da corretora, isso levanta dúvidas sobre execução comercial e agilidade para responder às mudanças de demanda.
O SSS consolidado da Renner ficou em 0,5%, ante expectativa de 3,2% do BTG Pactual. Segundo o banco, o desempenho refletiu consumo mais fraco, impacto da Copa e competição crescente de plataformas internacionais. A receita líquida do varejo avançou 1,1%, para R$ 3,69 bilhões.
A firma respondeu cortando a projeção de crescimento da receita do varejo em 2026: o intervalo passou de 9% a 13% para 4% a 8%. Os demais objetivos de médio e longo prazo foram mantidos.
O contraste mais forte vem da Riachuelo. O SSS de vestuário cresceu 7,8% mesmo sobre uma base de comparação de 15,8% no segundo trimestre do ano passado. Foi o 12º trimestre consecutivo de expansão. A margem bruta de vestuário chegou a 59,2%, alta de 1,9 ponto percentual e 11º trimestre seguido de melhora.
Segundo o Itaú BBA, os ganhos vieram de eficiência fabril, menor necessidade de descontos e melhora no mix de produtos. O banco afirmou que a distância para os pares aumentou a favor da Riachuelo, reforçando a leitura de uma vantagem de execução.
A XP também atribuiu parte do desempenho a melhor gestão de preços e de descontos, além de campanhas de Dia das Mães e colaborações com outras marcas. A Riachuelo também sentiu a Copa e o inverno tardio, mas conseguiu crescer mais em vestuário e ampliar a rentabilidade.
A C&A ficou no meio do caminho. O SSS de vestuário avançou 4,1%, sobre uma base de 17% no ano anterior. A receita da categoria subiu 5,6%, e a margem bruta chegou a 59,1%, 0,6 ponto percentual acima de um ano antes.
Para o time de analistas do Citi, o resultado ficou amplamente em linha com as expectativas. A pressão maior veio de beleza e eletrônicos (segmento que a varejista tem diminuído sua participação), mas a C&A superou as expectativas dos analistas do banco com as vendas de roupas.
Já o time do Itaú BBA destacou que a C&A continua ganhando participação de mercado. Pelos cálculos do banco, o SSS de vestuário ficou 0,9 ponto percentual acima de seu índice ajustado à presença geográfica da companhia, enquanto o crescimento da receita da categoria superou esse indicador em 2,3 pontos.
Foco em margem
Na Renner, a dinâmica foi inversa. As vendas em mesmas lojas ficaram abaixo do que previam os analistas do banco. As vendas por metro quadrado das lojas maduras recuaram 0,3% em relação ao ano anterior e ficaram abaixo da inflação.
Isso não significa que a Renner tenha perdido sua vantagem estrutural. O próprio Itaú estima que suas lojas ainda vendem cerca de 39% mais por metro quadrado que as da C&A, uma diferença que permaneceu relativamente estável nos últimos trimestres.
A companhia também preservou rentabilidade mesmo com pouco crescimento. A margem bruta de vestuário ficou em 58,7%, e o BTG destacou que a margem Ebitda do varejo chegou a 21,4%, apesar da receita abaixo do esperado.
O problema, portanto, não é falta de eficiência, mas a dificuldade recente de transformar essa eficiência em crescimento.
No vestuário, as margens brutas das três firmas terminaram próximas — 59,2% na Riachuelo, 59,1% na C&A e 58,7% na Renner — enquanto a diferença no ritmo das vendas foi bem maior.
De olho no restante do ano
A pressão agora passa para o segundo semestre. Depois de crescer 2,5% em receita do varejo na primeira metade do ano, a Renner precisaria acelerar para cerca de 5,5% no segundo semestre para chegar ao novo guidance, segundo cálculos do Itaú BBA.
A administração aposta em bases de comparação mais fáceis, novas lojas, reaberturas após reformas e iniciativas comerciais.
A Riachuelo pretende acelerar reformas e novas unidades do conceito “Incrivelmente Brasil”. Já a C&A entra no segundo semestre ainda ganhando participação, embora haja sinais mais fracos de consumo em julho.
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Autor: Raquel Brandão