Petróleo e acordo com UE sustentam maior superávit comercial brasileiro em quase 40 anos
A guerra no Irã e as tarifas impostas pelo governo americano a parceiros em todo o mundo têm ajudado indiretamente o comércio global do Brasil. Prova disso é que o superávit da balança comercial alcançou em outubro o maior resultado para o mês na série histórica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
O saldo positivo de US$ 9,32 bilhões, quando se consideram as exportações menos as importações, é o maior em 37 anos, ou seja, desde quando se inicia a série do Mdic, segundo dados divulgados na sexta-feira (6).
Os números avançaram principalmente por conta do petróleo bruto. Mas contou também com a ajuda do acordo entre Mercosul e União Europeia que zerou as tarifas de exportações para milhares de produtos.
Com isso, o saldo da balança de outubro cresceu 39,4% comparado ao mesmo período de 2025.
No mês passado, as exportações somaram US$ 31,51 bilhões, alta de 20%, enquanto as importações ficaram em US$ 24,82 bilhões, avanço de 14,8%. A corrente de comércio, soma dos dois fluxos, alcançou US$ 56,33 bilhões, também recorde para outubro.
No ano, em 10 meses, o saldo da balança comercial registrou superávit de US$ 71,04 bilhões, um crescimento de 34,1% em relação a 2025.
As exportações somaram US$ 321,88 bilhões, com alta de 11,2%. Já as importações subiram 6,1% para US$ 250,84 bilhões.
Petróleo domina a pauta exportadora
O petróleo foi a grande estrela do comércio brasileiro com o mundo. Com o agravamento da guerra no Oriente Médio, os preços médios da commodity subiram mais de 40% na comparação anual.
Somado ao aumento da produção brasileira, levou as exportações do produtos a crescerem 122,6% só em outubro.
O petróleo tornou-se o número 1 da pauta de exportações, somando US$ 51,49 bilhões no ano até outubro. Houve um salto de 38,1% em relação ao registrado no mesmo período de 2025.
Com um saldo líquido de US$ 47,5 bilhões no acumulado do ano, o petróleo sozinho representa 67% do superávit comercial brasileiro.
A guerra no Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz, elevou os preços do petróleo para acima de US$ 100 o barril. No início do ano, antes do conflito, o barril do Brent, a referência global da commodity, negociava em torno de US$ 70.
Desde o início do conflito, de março e outubro, o petróleo acumula alta de mais de 40%.
Enquanto o minério despenca
A expansão foi tanta que roubou os holofote e compensou o momento mais delicado vivido por outro astro da pauta comercial, o minério de ferro. Em outubro, por exemplo, as exportações do produto e seus concentrados renderam US$ 2,12 bilhões, uma queda de 27,6% frente ao mesmo mês de 2025.
O período desafiador para o minério de ferro surge, em grande parte, pela desaceleração da construção civil e da atividade siderúrgica na China. Os embarques de minério de ferro para o mercado do país asiático caíram 32,8% no mês passado para US$ 1,34 bilhão.
Além da desaceleração da demanda chinesa, o saldo da commodity sofre com a desvalorização das cotações internacionais. As exportações de minério de ferro e concentrados caíram mais de 20% em relação ao mesmo período de 2025, para US$ 24 bilhões entre janeiro e outubro de 2026.
Acordo com UE compensa queda da China
O segundo impulso ao desempenho comercial vemdo acordo entre Mercosul e União Europeia, que, segundo o Mdic, tem ajudado a elevar as vendas de alimentos ao bloco europeu.
Com o início da aplicação provisória das cláusulas comerciais do acordo em primeiro de maio de 2026, houve um aumento relevante nas trocas comerciais, principalmente em segmentos diretamente beneficiados pela redução de tarifas.
A queda do custo de importação e exportação de produtos entre os blocos sul-americano e europeu contrasta com o aumento de tarifas impostas pelos EUA sobre países dos dois continentes.
Dentro desse pano de fundo, a busca por diversificação geográfica tem ajudado a ampliar a corrente de comércio transatlântica.
As exportações para a Europa somaram US$ 7,76 bilhões em outubro, crescimento de 35,8%, um dos mais expressivos entre os principais destinos.
No acumulado de janeiro a outubro, os embarques para a UE avançaram 20%, totalizando US$ 49,64 bilhões.
Com as importações praticamente estáveis – crescimento de 1,6%, a US$ 42,76 bilhões – o superávit com o bloco alcançou US$ 6,89 bilhões no ano.
UE compensou a China
A diversificação de mercados ajudou a compensar perdas em outros pontos: as vendas para a China caíram 5,3%, por causa do fim da cota para as exportações de carnes e com menor demanda por minério de ferro.
O saldo do comércio entre o Brasil e a China em outubro encolheu 59,9% para uma perda líquida de US$ 1,058 bilhão.
Já os embarques para os Estados Unidos surpreendentemente subiram 11,4%, mesmo com a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros.
E o que ajudou? Itens como aviação, carne e suco de laranja ficaram de fora do tarifaço após negociações, o que ajudou nesse desempenho positivo apesar das barreiras impostas pelo governo americano.
Em relatório, o Itaú BBA projeta que 2026 vai fechar com um superávit comercial de US$ 93 bilhões (R$ 511 bilhões no câmbio atual). No ano que vem, o ritmo deve ser ainda mais forte: um saldo positivo de US$ 97 bilhões, um crescimento “condicionado, em parte, à manutenção dos preços do petróleo em patamares elevados”.
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Autor: Sérgio Tauhata

