Preço dos carros usados sobe cada vez menos. E isso é um problema para as locadoras

Carro usado perde valor a cada ano que passa. Essa era uma das regras de ouro do mercado automotivo… até que o desarranjo da cadeia de suprimentos nos últimos anos, principalmente com a pandemia, virou essa lógica de cabeça para baixo.
Em abril deste ano, um Onix 2014 1.4 automático era vendido a quase R$ 50 mil, cerca de 9% mais do que um ano antes, segundo um levantamento da plataforma de anúncios online OLX.
A alta acumulada no preço dos usados entre 2020 e 2025 foi de 83% – um rendimento de IPCA+ 4,7% por ano.
Agora, esse ritmo de valorização começa a perder força, a julgar pelos dados mais recentes.
Em julho, o IBV Auto, índice que acompanha os preços de automóveis leves usados a partir de transações financiadas, avançou apenas 0,07%, depois de subir 0,57% em junho. O BV (ex-Banco Votorantim) é um dos principais financiadores de carros usados do país.
Foi a menor alta mensal desde março de 2025. No acumulado do ano, os preços ainda sobem 3,56%. Em 12 meses, a valorização desacelerou de 6,87% para 6,10%.
A perda de fôlego também aparece no recorte regional. Em julho, 16 das 27 unidades da Federação registraram queda no preço dos usados.
Roberto Padovani, economista-chefe do BV, diz que ainda é cedo para falar em tendência disseminada de queda. Estados com grande peso, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, continuam a registrar altas, com avanços expressivos em 12 meses.
Para ele, julho representa um “ponto de inflexão importante”, que precisaria ser confirmado por mais dois ou três meses de variações próximas de zero ou negativas, sobretudo nos mercados de maior peso.
De qualquer maneira, os fatores que jogam contra a alta dos usados estão aí: juros ainda elevados, crédito restrito e um ambiente mais competitivo no carro zero-quilômetro, com novos entrantes — sobretudo chineses — ampliando a oferta e levando fabricantes tradicionais a rever preços, descontos e condições comerciais.
Essa mudança não afeta apenas quem está decidindo entre comprar um carro novo ou usado: afeta diretamente negócios em que o automóvel é, ao mesmo tempo, fonte de receita e principal ativo.
O usado ainda resiste como ativo de valor, mas grandes locadoras já recalculam o risco de quanto esses carros vão valer daqui a alguns meses.
Para essas firmas, o preço de revenda do usado é parte central do resultado. A depreciação representa, em linhas gerais, a diferença entre quanto a locadora pagou pelo veículo e quanto espera recuperar quando vendê-lo depois de um período na frota. Se a expectativa para esse preço de saída diminui, a despesa de depreciação tende a subir.
E essa preocupação cresce mesmo em um ano em que as locadoras continuam comprando bastante carro.
Juros altos… e mais vendas
No começo de 2026, a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, a Abla, projetava a aquisição no mercado de cerca de 620 mil veículos no ano, abaixo das 628,9 mil unidades compradas em 2025. A expectativa refletia juros elevados e um cenário econômico incerto.
A previsão não se confirmou.
Paulo Miguel Jr., vice-presidente da Abla, disse ao InvestNews que as compras aceleraram mais do que se esperava e que o volume projetado para o ano inteiro deve ser atingido já entre setembro e outubro.
Segundo ele, o giro das frotas permanece praticamente estável: as locadoras não estão segurando os carros por mais tempo antes de colocá-los à venda. Algumas firmas compraram mais, mas também venderam mais. E o mercado de seminovos continua a registrar volumes elevados.
Isso significa que preocupação está menos na capacidade de vender o carro e mais em acertar o valor de negociação.
O executivo chama atenção para a diferença entre os indicadores usados como referência, como a Tabela Fipe, e o preço efetivamente praticado nas negociações, que é o que importa para a locadora.
É nesse ponto que aparecem diferenças entre as estratégias das maiores firmas.
Na Localiza, a depreciação média anualizada por carro no negócio de aluguel subiu para R$ 8.243 no segundo trimestre de 2026. O indicador havia sido de R$ 7.986 no primeiro trimestre e de R$ 7.501 um ano antes.
A companhia afirmou esperar continuidade da elevação diante da dinâmica atual da indústria e das expectativas para a revenda.
Isso não significa que a Localiza já esteja enfrentando uma deterioração forte no mercado.
A firma vendeu 92 mil carros no segundo trimestre, cerca de 34% a mais que um ano antes. A operação continua girando, embora a margem tenha sido pressionada por um mix maior de SUVs e por despesas relacionadas à abertura e ao reposicionamento de lojas.
A elevação da depreciação é, portanto, também uma escolha sobre como olhar o futuro.
Em relatório sobre a Localiza, o time de analistas do BTG Pactual avaliou que a firma vem adotando uma postura deliberadamente conservadora diante do aumento da competição no mercado automotivo.
Mais carro de entrada
Na Movida, a trajetória é um pouco diferente. A depreciação anualizada do negócio de aluguel de carros ficou em R$ 7,2 mil por veículo no segundo trimestre de 2026, estável em relação ao primeiro trimestre. Um ano antes, era de R$ 6,7 mil.
A companhia atribui parte dessa estabilidade à composição da frota.
Em entrevista ao InvestNews, o CEO Gustavo Moscatelli disse que a Movida passou os últimos três anos aumentando sua exposição aos carros mais baratos e de maior liquidez no mercado de seminovos. São eles: Renault Kwid, Fiat Mobi, Volkswagen Polo, Fiat Argo, Chevrolet Onix e Hyundai HB20.
Hoje, segundo Moscatelli, 84% da frota está concentrada na categoria de veículos de entrada. Esses carros têm valor contábil médio próximo de R$ 73 mil e, pelas estimativas atuais da companhia, devem ser vendidos por cerca de R$ 66 mil ao deixar a frota.
“Esse carro não tem nada a ver com o carro zero-quilômetro que o chinês está trazendo de R$ 130 mil. É outro público que compra.”
A tese da Movida é que essa diferença de faixa de preço reduz sua exposição direta à disputa que hoje ocorre com mais intensidade em modelos novos de tíquete mais alto.
A leitura do BV reforça a tese de que o risco não é igual entre categorias. Padovani aponta SUVs médios e grandes como os mais vulneráveis neste momento, enquanto compactos e veículos de entrada tendem a mostrar maior resiliência.
Nos eletrificados, a diferença é mais evidente. Modelos elétricos de 2023 acumulavam desvalorização de 46,1% até julho, contra 26,8% dos híbridos e 21,4% dos carros a combustão comparáveis.
Nos três meses mais recentes, porém, a pressão começou a se espalhar: os elétricos praticamente estabilizaram em preço, enquanto híbridos e, principalmente, modelos a combustão aprofundaram as perdas.
A Movida também tem sido cautelosa com novas tecnologias. A firma ainda não comprou veículos elétricos para a frota e opera cerca de mil híbridos não plug-in (HEV), segundo Moscatelli.
A companhia prefere avançar com cautela enquanto infraestrutura, aceitação do consumidor e preços de revenda dessas tecnologias ainda estão em formação.
A estratégia da Movida conversa com o perfil do setor. Em 2025, 39% dos veículos adquiridos pelas locadoras foram hatches pequenos, e outros 11,8% eram carros de entrada. Juntos, os dois grupos responderam por 51,2% das compras. Os SUVs, por 21,7%.
Com um perfil também mais exposto aos modelos de entrada, a Unidas também mantinha, até o primeiro trimestre, uma deterioração controlada.
A depreciação média anual no negócio de aluguel de carros ficou em R$ 8,2 mil por veículo, abaixo dos R$ 9,6 mil de um ano antes – embora acima dos R$ 7,8 mil registrados no quarto trimestre de 2025. A companhia divulga nesta terça-feira (11) os resultados do segundo trimestre.
Por enquanto, os sinais no setor são menos de ruptura e mais de transição. O preço do usado ainda sobe no agregado, a demanda continua presente e as locadoras seguem vendendo carros. Mas a época em que o preço de revenda parecia uma variável mais previsível ficou para trás.
Com crédito caro de um lado e carro novo mais competitivo do outro, o seminovo passou novamente a exigir conta mais apurada.
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Autor: Raquel Brandão
