Presidente do Paraguai sofre impeachment e é preso
O Senado do Paraguai destituiu o presidente Santiago Peña do cargo nesta sexta-feira, em uma queda dramática que abre caminho para que ele responda criminalmente por seu suposto envolvimento no colapso de um grande banco.
Todos os 44 senadores presentes votaram a favor da cassação de Peña, um dia após a Câmara dos Deputados aprovar o impeachment por unanimidade. Peña chegou a ficar sob prisão domiciliar e, em seguida, foi transferido para as instalações do Regimento de Escolta Presidencial diante da escalada dos protestos em frente à sua residência.
Aliado de destaque do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Peña havia chegado a oferecer sua renúncia sob forte pressão devido a seus vínculos com o Ueno Bank SA, banco comercial que faliu no início desta semana.
O Ministério Público paraguaio informou na quinta-feira a abertura de uma investigação criminal contra Peña, que possuía participação societária na controladora da instituição, o Grupo Vázquez, antes de se desfazer das ações no ano passado.
Ao optar pela destituição em vez de aceitar a renúncia, os parlamentares impediram Peña de assumir o posto de senador vitalício sem direito a voto, uma prerrogativa concedida pela Constituição do país a ex-presidentes e que lhe garantiria ampla imunidade parlamentar contra eventuais processos.
O vice-presidente Pedro Alliana foi empossado como o novo chefe de Estado do país nesta sexta-feira. Alliana, que sobreviveu à tentativa de impeachment na Câmara na quinta-feira, cumprirá o restante do mandato de Peña, que se encerra em agosto de 2028.
“Esperamos trabalhar em estreita colaboração com o presidente Alliana e seu governo”, afirmou o secretário-assistente de Estado dos EUA para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Juan Pablo Segura, em publicação no X. “O Paraguai é um parceiro estratégico, amigo e aliado dos Estados Unidos.”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também divulgou uma nota desejando sucesso a Alliana e afirmando que espera recebê-lo em breve em Brasília.
Crise política
O caso em torno do Ueno Bank deflagrou a maior crise política no Paraguai desde a destituição do ex-presidente Fernando Lugo pelo Congresso, em 2012, após um confronto violento entre policiais e camponeses sem-terra.
Autoridades regulatórias decretaram a intervenção no Ueno Bank na madrugada de terça-feira, congelando as economias de milhões de paraguaios, incluindo aposentados. A decisão gerou protestos generalizados em um país onde cerca de uma em cada três pessoas mantinha depósitos na instituição, mesmo com o Banco Central iniciando o ressarcimento aos correntistas por meio do fundo garantidor de depósitos.
O volume de recursos públicos aplicados no banco saltou de zero, quando Peña assumiu a presidência em 2023, para mais de US$ 800 milhões no início deste ano. Peña também indicou um ex-executivo do Ueno para comandar a autoridade monetária do país, atraindo críticas pela proximidade de interesses e pela fiscalização frouxa diante do crescimento desenfreado da instituição financeira.
O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, renunciou nesta semana. Miguel Vázquez, controlador do Ueno Bank, acabou preso.
A queda de Peña
A cassação de Peña deve pôr fim a uma carreira política marcada por trocas partidárias e por uma ascensão meteórica, impulsionada por sua aliança com o ex-presidente Horacio Cartes, líder do governista Partido Colorado e um dos empresários mais ricos do Paraguai.
Peña filiou-se à legenda enquanto exercia o cargo de ministro da Fazenda na gestão de Cartes (2013–2018). Após ser derrotado nas prévias presidenciais do partido em 2017, conquistou a indicação cinco anos depois e venceu a eleição em 2023.
Com perfil carismático, Peña realizou dezenas de viagens internacionais para se reunir com líderes estrangeiros e atrair investimentos privados. O governo Trump construiu laços estreitos com a administração pró-mercado do paraguaio, a quem o líder americano chegou a elogiar publicamente como um “jovem bonito” durante uma cúpula em Washington, em fevereiro.
Em nota divulgada antes da votação, a embaixada dos EUA no Paraguai manifestou solidariedade à população e pediu às autoridades que garantam a paz e o respeito às instituições democráticas, sem citar Peña nominalmente.
Embora críticos apontassem Peña com frequência como uma figura tutelada por Cartes, o mandatário rompeu com o ex-presidente nos últimos meses, aprofundando o racha interno no Partido Colorado.
Cartes defendeu publicamente o afastamento do presidente na quinta-feira, desencadeando o processo de impeachment relâmpago que selou a derrocada definitiva de Peña.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Bloomberg
