Principal evento de IA da China manda recado aos EUA: ‘Estamos chegando’

Dentro da maior conferência de inteligência artificial da China, os visitantes sofriam com o calor. Com todo o ar quente gerado pelos servidores de computador, as pessoas recorreram ao antigo recurso dos leques de papel, enquanto os organizadores espalharam grandes blocos de gelo pelo centro de exposições.
Se o evento realizado em Xangai foi desconfortável para o público, que formou filas de dezenas de milhares de pessoas para entrar, ele também foi desconfortável para as firmas americanas que competem com a tecnologia chinesa de IA.
No primeiro dia, a Moonshot AI, sediada em Pequim, sacudiu os mercados globais ao apresentar um novo modelo considerado entre os melhores do mundo. Apenas dois dias depois, outra firma chinesa, a Alibaba, afirmou ter superado a Moonshot com seu próprio modelo recém-lançado.
Cerca de 20 campos de futebol de área de exposição foram ocupados por equipamentos que tentam aplicar inteligência artificial ao cotidiano, como fones de ouvido capazes de ouvir uma reunião e produzir automaticamente uma transcrição.
Robôs estavam por toda parte: dançavam sincronizados, preparavam cappuccinos, chutavam bolas ao gol, faziam massagens em visitantes e tocavam piano. Um animal de estimação de IA coberto de pelos piscava os olhos para os espectadores encantados.
Este foi o nono ano da Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC, na sigla em inglês), realizada anualmente em Xangai, e o evento se consolidou como a principal vitrine da China para exibir seus avanços em IA.
Pequim aproveitou a ocasião para demonstrar sua capacidade de superar as sanções dos Estados Unidos, que limitam amplamente o acesso das firmas chinesas aos chips mais avançados e aos equipamentos necessários para fabricá-los.
“É divertido estar na fronteira de tudo isso”, disse um gerente de desenvolvimento de negócios da Alibaba durante o evento.
Nem tudo funciona perfeitamente
Nem todas as demonstrações foram bem-sucedidas. Os robôs humanoides ainda são melhores em truques chamativos do que em tarefas domésticas realmente úteis.
E, em um sinal do impacto dos controles de exportação americanos, a Moonshot precisou suspender novas assinaturas de seus serviços premium após a forte demanda pelo modelo Kimi K3 pressionar sua capacidade computacional.
Ainda assim, os avanços da China frustraram qualquer esperança dos Estados Unidos de construir uma liderança intransponível em inteligência artificial.
Os modelos chineses vêm ganhando espaço globalmente, inclusive nos EUA, em parte porque muitos são de código aberto, permitindo que usuários os baixem e adaptem livremente, além de serem geralmente mais baratos de operar do que os modelos ocidentais.
O movimento lembra o que ocorreu em setores como smartphones, veículos elétricos e baterias, que surgiram no Ocidente, mas acabaram dominados por fabricantes chineses.
“Se isso já aconteceu em três indústrias, poderia acontecer também na IA? Minha resposta é que, considerando o que já está acontecendo hoje, é provável”, afirmou Mehran Gul, autor e palestrante especializado em tecnologia.
Debate sobre a liderança americana
Anthropic e OpenAI acusaram diversas firmas chinesas de utilizar modelos americanos para treinar seus próprios sistemas, prática que a Anthropic classificou como “destilação adversarial”.
Na semana passada, um executivo da Anthropic afirmou que a vantagem dos EUA sobre as firmas chinesas poderia estar entre um ano e 18 meses caso elas não tivessem utilizado essa técnica.
O novo modelo Kimi K3, da Moonshot, mudou o debate. Em vários testes de desempenho, o sistema obteve notas superiores às do Claude Opus 4.8, da Anthropic, o modelo mais avançado que poderia ter servido de base para destilação.
Pesquisas indicam que um modelo menor raramente supera o sistema maior do qual foi derivado. Diante do desempenho do Kimi K3, alguns pesquisadores — incluindo Dean Ball, executivo da OpenAI — passaram a argumentar que a destilação já não explica sozinha os rápidos avanços da IA chinesa.
A corrida pela adoção da IA
A China agora concentra esforços na adoção prática da inteligência artificial.
Um plano governamental chamado AI Plus estabelece que a tecnologia deverá estar presente em 90% da economia até 2030.
Isso ajuda a explicar a proliferação de robôs, dispositivos inteligentes e produtos chamados de “agênticos” na feira de Xangai — sistemas capazes de automatizar tarefas complexas, como planejamento de agendas e tomada de decisões.
“Nosso principal foco neste ano é encontrar casos reais de uso para agentes de IA que possam ser utilizados por muitas pessoas”, disse Steven Hoi, executivo da Alibaba.
A vantagem da manufatura chinesa
As competências industriais da China podem dar ao país uma vantagem importante na aplicação da IA ao mundo real.
“Um robô é um sistema complexo, composto por muitos componentes”, disse Wang Xiaogang, presidente da fabricante chinesa Ace Robotics. “Você não precisa apenas de uma firma; precisa de uma longa cadeia de suprimentos e de muitos parceiros. A China é muito boa nisso.”
No estande da UniX AI, firma sediada em Suzhou, um robô avaliado em US$ 44 mil realizava tarefas domésticas como arrumar camas, colocar roupas na máquina de lavar e lavar louça.
Um representante de marketing afirmou que o equipamento já está sendo utilizado em hotéis e restaurantes.
“Mesmo que ele ainda não esteja 100% maduro, quando atingir estabilidade total poderá até desempenhar algumas funções melhor do que os humanos”, afirmou.
Mas os afazeres domésticos ainda não desapareceram.
Durante uma demonstração, o robô mostrou lentidão e falta de precisão. Algumas peças de roupa ficaram presas em suas mãos mecânicas e, em determinado momento, ele errou completamente a máquina de lavar louça, deixando um prato cair no chão com estrondo.
Escreva para Katrina Northrop em katrina.northrop@wsj.com e Raffaele Huang em raffaele.huang@wsj.com.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim deixaremos mais pessoas por dentro do mundo das finanças, economia e investimentos!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal

