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Às vésperas da safra mais valiosa do Brasil, uma multinacional redesenha a oferta de fertilizantes

Em pouco mais de dois meses, o Brasil começa a plantar a safra de soja, a mais valiosa do país, que enfrenta um problema estrutural cada vez mais incômodo: o custo dos fertilizantes. O grão e seus derivados são o segundo produto mais exportado do Brasil, com US$ 52,9 bilhões em vendas ao exterior no ano passado.

Para dar conta de uma área estimada em 50 milhões de hectares de soja previstos para a temporada 2026/27, que se inicia em meados de setembro e vai até maio, a lavoura depende de dois nutrientes essenciais para garantir produtividade: o fósforo e o potássio.

Para cada tonelada de soja colhida, é necessário nutrir a terra com, em média, 15 kg de pentóxido de fósforo (P₂O₅) e 20 kg de óxido de potássio (K₂O).

O Brasil, no entanto, produz pouco desses nutrientes: a produção nacional cobriu apenas 25% do fosfatado e 9% do potássico consumidos no país em 2024, segundo dados mais recentes da consultoria Globalfert.

Essa fragilidade ficou mais evidente neste mês, quando a americana Mosaic, maior fornecedora de fertilizantes do país, reduziu a produção de fosfatados em unidades de três Estados brasileiros; meses antes, já havia vendido a única mina de potássio em operação em território nacional.

A decisão da multinacional está acelerando um redesenho no mapa de fornecimento de fertilizantes no Brasil.

Essa redução de produção coincide com a disparada do preço de um insumo que poucos produtores conhecem pelo nome, mas que já pressiona o custo da lavoura: o enxofre, a matéria-prima do fosfatado, ficou 129% mais caro em cinco meses, hoje refém de uma disputa geopolítica no Oriente Médio.

O revés do fosfato

Quase metade do enxofre exportado no mundo sai do Oriente Médio, e boa parte do carregamento depende do Estreito de Ormuz, hoje no centro da disputa entre Estados Unidos e Irã. 

Com bloqueios recorrentes na passagem, os embarques globais do insumo caíram 47% no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2025, segundo a S&P Global. O preço entregue no Brasil saltou de US$ 525 a tonelada em fevereiro para US$ 1.200 em julho.

A conta já chega ao produtor. Em Mato Grosso, principal estado produtor de soja, as despesas com fertilizantes e corretivos devem subir 5,4% no ciclo 2026/27, segundo o Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea).

Trabalhadores durante colheita de soja em Orizona (GO) (Dado Galdieri/Bloomberg)

Para a Mosaic, o choque significou reduzir ainda mais sua operação no país. Em comunicado ao mercado no início deste mês, a companhia disse ter ajustado temporariamente a produção em unidades de Minas Gerais, Goiás e Paraná, além de misturadoras na Bahia, diante da redução da oferta global e da alta do enxofre.

Foi o aprofundamento de uma decisão que já vinha sendo tomada aos poucos. Em abril, a firma havia paralisado por tempo indeterminado as unidades de Araxá e Patrocínio, em Minas Gerais, colocando a mina e a planta química de Araxá à venda como parte de uma revisão de portfólio. 

Antes das paralisações, a Mosaic respondia por 86% da produção nacional de ácido fosfórico, principal matéria-prima do fertilizante fosfatado. Segundo estimativas da própria companhia, só Araxá e Patrocínio devem retirar cerca de 1 milhão de toneladas anuais do mercado, equivalente a 15% da produção nacional.

Procurada pelo InvestNews, a Mosaic disse em nota que “as medidas adotadas são uma resposta temporária às condições extraordinárias do mercado e não representam mudança na estratégia de longo prazo da companhia”, e que “espera retomar a plena capacidade operacional à medida que o fornecimento global de enxofre seja normalizado”. 

A nova dona do potássio 

Antes mesmo do início dos conflitos que afetam Ormuz, a Mosaic já havia decidido deixar outro ativo estratégico no Brasil: a mina de Taquari-Vassouras, em Sergipe. Trata-se da única mina de potássio em operação no país.

O ativo tem capacidade para produzir 450 mil toneladas de cloreto de potássio por ano, o equivalente a 3% da demanda nacional. Mas, segundo os cálculos da Mosaic, manter a mina em operação exigiria mais de US$ 25 milhões em novos investimentos para prolongar sua vida útil – que, à época, estava estimada para até 2035. 

A companhia avaliou que esse capital teria aplicações mais rentáveis em outros ativos do grupo e, em agosto de 2025, anunciou a venda da operação por US$ 27 milhões. O negócio foi concluído em novembro daquele ano. 

A compradora foi a Stratos, firma de mineração da VL Holding, grupo controlado por Valére Batista, irmã de Wesley e Joesley Batista. A holding reúne também negócios em agricultura, pecuária e melhoramento genético. E, segundo a firma, a entrada no setor faz parte da estratégia de ampliar a atuação em negócios ligados à agropecuária. 

A Stratos diz ter identificado novas reservas capazes de manter a mina em operação até 2042. Agora, a firma conclui os projetos de expansão e busca recursos para tirá-los do papel. Um deles já foi apresentado ao BNDES, segundo a companhia. 

Ao contrário dos fertilizantes fosfatados, os potássicos passaram praticamente ilesos pela crise no Oriente Médio. Isso porque a maior parte da oferta global de potássio vem do Canadá e da Rússia – e não dos produtores do Golfo Pérsico.

“O mercado não foi afetado, mas a crise no Estreito de Ormuz acendeu um alerta sobre a nossa dependência do produto importado”, diz Ricardo Nascimento, diretor comercial da Stratos. 

Crise estrutural

A fragilidade brasileira em fertilizantes não é exatamente novidade. Ficou evidente em fevereiro de 2022, quando a invasão russa à Ucrânia expôs a dependência do país: a Rússia respondia sozinha por cerca de 23% das importações brasileiras de fertilizantes

O episódio levou o governo federal a lançar, em março daquele ano, o Plano Nacional de Fertilizantes, com o objetivo de reequilibrar a produção nacional e importação ao longo dos 28 anos seguintes. 

Uma das frentes dessa resposta é a Petrobras, que retomou a produção de ureia e amônia em fábricas de fertilizantes nitrogenados feitas a partir de gás natural.

As unidades da Bahia e de Sergipe voltaram a operar em janeiro e dezembro de 2025, respectivamente, e a fábrica de Araucária, no Paraná, parada desde 2020, retomou a produção após investimento de R$ 870 milhões. 

Juntas, as três plantas devem responder por cerca de 20% do mercado interno de ureia, com uma quarta unidade, em Três Lagoas (MS), prevista para entrar em operação comercial em 2029.

Apesar das iniciativas, a vulnerabilidade identificada em 2022 segue sem solução definitiva.

O potássio da Amazônia

O Brasil tem a sétima maior reserva de potássio do mundo. São 225 milhões de toneladas mapeadas, o equivalente a 3,2% do estoque mundial. Todas essas reservas ficam concentradas em seis regiões em Sergipe e no Amazonas. E já são conhecidas há décadas. 

Foi em 1963 que a Petrobras identificou os primeiros depósitos de potássio em Sergipe, durante perfurações em busca de petróleo. Anos depois, a Petromisa, uma antiga subsidiária da estatal, assumiu a missão de desenvolver a mina de Taquari-Vassouras, como parte do primeiro Plano Nacional de Fertilizantes do país. 

Antes disso, em 1955, a Petrobras já havia encontrado os primeiros indícios de potássio no Amazonas, também durante perfurações em busca de petróleo. 

Mas ali a descoberta ficou parada. Passaram-se mais de cinco décadas até que uma nova geração de investidores voltasse a estudar o mapeamento que a Petrobras havia deixado. A partir de 2009, a Potássio do Brasil retomou a pesquisa na região de Autazes, a 120 km de Manaus.

A companhia é uma subsidiária da Brazil Potash – uma firma canadense, apesar do nome. 

Pelo projeto, Autazes teria capacidade para produzir 2,44 milhões de toneladas por ano de cloreto de potássio – com reservas para manter esse ritmo por 23 anos. “Uma produção dessa permite suprir 25% da demanda atual de cloreto de potássio no Brasil”, diz Sérgio Leite, presidente da Potássio do Brasil. 

A companhia, no entanto, não tem uma data prevista para o início da operação. E ainda enfrenta disputas judiciais envolvendo o licenciamento ambiental.

Em maio de 2026, o Ministério Público Federal voltou a pedir à Justiça a anulação das licenças estaduais e a transferência do processo de análise para o Ibama. Até aqui, porém, as licenças seguem válidas.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Camila Alves Barros

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