Salvador ou ‘Supervilão’? A estratégia de um aliado de Trump para desbloquear o petróleo da Venezuela
Nas primeiras horas de 3 de janeiro, o magnata do setor de energia Harry Sargeant III estava deitado em sua mansão à beira-mar na Flórida, lutando para pegar no sono. De forma incomum, havia esquecido de desligar o celular e se assustou quando mensagens de texto e notícias começaram a chegar em avalanche sobre uma operação militar surpresa dos EUA na Venezuela.
Acompanhando os acontecimentos em tempo real, o ex-piloto do Top Gun de 68 anos — e ocasional parceiro de golfe de Donald Trump — alternava entre esperança e medo. Talvez o único empresário americano capaz de transitar entre Mar-a-Lago e o Palácio de Miraflores, em Caracas, poucos trabalharam tanto quanto Sargeant para reabrir o mercado venezuelano.
Com participações em firmas que podem produzir potencialmente centenas de milhares de barris de petróleo por dia, além de reformar a maior refinaria do país, possivelmente ninguém tinha tanto em jogo financeiramente quanto ele.
Sargeant era próximo o suficiente de Nicolás Maduro para que o líder venezuelano o chamasse de abuelo — avô, em espanhol. Ainda assim, nos últimos tempos, vinha pressionando autoridades ligadas a Trump a agir de forma decisiva, mesmo que isso significasse remover Maduro do poder.
“Trabalhem com o cara ou não. Mas tomem uma decisão que permita aos americanos voltarem para lá e trabalharem, para que os chineses não fiquem com tudo”, diz Sargeant ter dito a integrantes do governo Trump.
Quando a poeira baixou, Maduro foi deposto e levado a Nova York para enfrentar acusações de narcoterrorismo. Mas o restante do regime, que governou o país com mão de ferro por mais de duas décadas, permaneceu intacto. Trump prometeu reativar a produção de petróleo para recuperar uma economia cujo colapso na última década alimentou níveis recordes de migração.
Sargeant agora está posicionado para se tornar mais um aliado do presidente a colher ganhos com as políticas do segundo mandato de Trump. Ao mesmo tempo, é profundamente impopular entre a oposição venezuelana, que o vê como alguém que fez vista grossa para um regime opressor. O ativista Thor Halvorssen o chamou de “o supervilão americano na história do regime venezuelano”, dizendo que ele prioriza o lucro pessoal acima de tudo.
Trump pressiona firmas americanas a agir rapidamente enquanto assessores trabalham para flexibilizar as sanções impostas à Venezuela durante seu primeiro mandato.
Mesmo assim, muitas companhias dos EUA avançam com cautela, receosas de investir bilhões antes que o cenário político se estabilize e haja um arcabouço legal claro para estrangeiros. Em reunião na Casa Branca em 9 de janeiro, o CEO da Exxon, Darren Woods, classificou o país como “inviável para investimento” até que essas condições sejam atendidas.
Sargeant, porém, não está esperando. Na semana passada, reuniu-se pessoalmente em Caracas com Delcy Rodríguez, vice de longa data de Maduro e responsável pela área econômica, para discutir planos de retomada de seus negócios.
“Esta é a maior oportunidade de investimento desde o colapso da União Soviética”, afirmou Sargeant, em entrevista de sua mansão em Gulf Stream, bairro exclusivo da costa leste da Flórida. “É isso que venho buscando o tempo todo.”
Figura complexa e por vezes controversa, Sargeant já foi acusado de superfaturar o Exército dos EUA no Iraque. Ele negou as acusações e, em 2018, um relatório do Departamento de Defesa o inocentou e determinou pagamento de US$ 40 milhões à sua firma.
Também enfrentou disputas judiciais familiares pelo controle do império de navegação e energia da família. A firma Sargeant Marine concordou em 2020 em pagar multa criminal de US$ 16,6 milhões para encerrar acusações federais de pagamento de propina a autoridades em três países sul-americanos, incluindo a Venezuela, entre 2010 e 2018. Sargeant afirma que não participa das operações desde 2011.
Foi ainda financiador temporário de Lev Parnas, associado de Rudy Giuliani, envolvido em teorias sobre Biden e Ucrânia e posteriormente condenado por doações ilegais à campanha de Trump em 2020.
Apesar dos laços com Trump, nem mesmo Sargeant sabe o que esperar da Venezuela daqui para frente. Ele diz ter alertado autoridades como o secretário de Energia, Chris Wright, de que os EUA estão demorando demais para permitir o retorno das petroleiras americanas.
Se tudo ocorrer como planejado, o ganho poderá ser gigantesco. Sargeant mira oportunidades em toda a cadeia de petróleo e gás venezuelana.
Ele pretende retomar exportações de asfalto por meio da Global Oil Management Group, conglomerado que fundou. Também tem participação minoritária na North American Blue Energy Partners, que detém direitos sobre pelo menos quatro campos petrolíferos com meta de elevar a produção para quase 400 mil barris diários. Além disso, participa de projeto para revitalizar a refinaria de Amuay.
Sargeant também estuda capturar e utilizar gás natural atualmente queimado nas instalações do leste da Venezuela, para geração elétrica e redução de emissões.
Mas ainda há incertezas. Sanções americanas seguem em vigor e autoridades venezuelanas continuam na lista de bloqueio do Tesouro dos EUA. Analistas questionam se o novo arranjo político se sustentará.
Veterano no país desde o fim dos anos 1980, Sargeant diz ter atravessado diferentes ciclos políticos, de democracia instável a autoritarismo sob Maduro.
Ele afirma que sua estratégia sempre foi convencer Washington de que trabalhar com Caracas era a melhor forma de garantir segurança energética, conter a China e reduzir a migração.
Agora, vê o momento como decisivo.
“Vamos voltar ao trabalho.”
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal
