A JBS nunca vendeu tanto. Mesmo assim, teve prejuízo de US$ 102 milhões
A JBS nunca faturou tanto quanto no segundo trimestre deste ano. Ainda assim, terminou o período no vermelho, pressionada pela crise de oferta de gado nos Estados Unidos, seu maior mercado, e por um salto nos custos monetários.
A companhia teve receita de US$ 23,9 bilhões entre abril e junho, 14% acima do mesmo período de 2025 e um recorde para a firma. Mas saiu de um lucro líquido de US$ 528 milhões um ano atrás para um prejuízo de US$ 102 milhões.
A piora tem duas frentes. A operação perdeu força: a margem Ebitda, que mede quanto das vendas a firma transforma em geração de caixa operacional, caiu de 6,5% para 5,3% em um ano.
E os custos monetários dispararam. A conta de juros e encargos quase dobrou, de US$ 376 milhões para US$ 696 milhões, incluindo US$ 172 milhões em prêmios pagos para recomprar dívidas antes do vencimento e o peso de um endividamento maior.
A isso somaram-se US$ 133 milhões com acordos em processos antitruste nos Estados Unidos. Excluídos esses e outros efeitos que a companhia considera não recorrentes, o resultado teria sido positivo, com lucro ajustado de US$ 218 milhões.
Boa parte da pressão vem da carne bovina nos Estados Unidos. A JBS Beef North America teve receita recorde de US$ 7,8 bilhões, 14,2% maior que um ano antes, mas continuou no vermelho, com Ebitda ajustado negativo de US$ 100 milhões.
O problema é a falta de gado. O rebanho bovino americano caiu para 86,2 milhões de cabeças no início de 2026, o menor nível desde 1951, depois de anos de seca e custos altos levarem pecuaristas a reduzir seus plantéis.
Com menos animais para os frigoríficos, o gado ficou mais caro: em maio, os preços pagos aos produtores estavam 16,9% acima dos de um ano antes, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que projeta alta de 13,9% em 2026.
A situação foi agravada pelas restrições à entrada de animais do México, tradicional fornecedor do mercado americano, por causa do avanço da bicheira, doença provocada pelas larvas da mosca New World screwworm.
A pressão levou a JBS a anunciar, em junho, o fechamento de duas unidades nos Estados Unidos, em Souderton (Pensilvânia) e Memphis (Tennessee), com a produção transferida para outras fábricas.
A importação de gado mexicano, restrita durante o trimestre, deve ser retomada aos poucos a partir de 24 de agosto.
No Brasil
A operação brasileira teve receita recorde de US$ 4,6 bilhões, avanço de 28% em um ano, puxada por preços e volumes maiores nas exportações e no mercado interno.
Boa parte dos embarques foi direcionada para preencher a cota chinesa, redirecionamento que ganhou força depois que os Estados Unidos impuseram, em 2025, uma tarifa de 50% sobre a carne brasileira.
O Ebitda ajustado da divisão cresceu 22,1%, para US$ 273 milhões, o maior já registrado em um segundo trimestre. A Austrália também avançou, com receita 30% maior; o frango, que tivera resultado recorde um ano antes, viu a margem cair pela metade e pesou na comparação anual.
Dividendo e dívida
O prejuízo não interrompeu o pagamento de dividendos. No mesmo trimestre, a JBS distribuiu US$ 1,04 bilhão aos acionistas e viu a dívida líquida subir para US$ 18,96 bilhões, o que levou a alavancagem — a relação entre a dívida e a geração de caixa — a 3,10 vezes, acima da meta de longo prazo da própria firma.
O fluxo de caixa livre, o dinheiro que sobra depois de operar e investir, somou US$ 130 milhões no trimestre, mas encolheu para US$ 36 milhões nos últimos doze meses, ante US$ 928 milhões um ano antes.
A companhia discute os resultados em teleconferência nesta terça-feira. Fica em aberto por quanto tempo ela sustenta dividendos e investimento em expansão com a alavancagem acima da meta e a geração de caixa anual perto de zero.
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Autor: Redação InvestNews
