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BYD chega a 100 mil carros em Camaçari, mas ainda depende de kits chineses. O que falta?

O galpão de montagem final da fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia, estava decorado para a festa, e um arco sobre a esteira anunciava os dois números celebrados na última quinta-feira, 16 de julho: 100 mil carros produzidos e 5.500 empregos gerados.

Foi ali, sob o arco, que um Dolphin Mini parou como o veículo de número 100 mil a deixar a linha baiana, diante de executivos da firma, do prefeito de Camaçari e do vice-governador da Bahia, sinal do interesse político que cerca o investimento.

A reportagem do InvestNews acompanhou a cerimônia a convite da BYD.

O carro celebrado veio da China com a carroceria já soldada e pintada – em Camaçari, passou pela montagem final. É assim com todos os veículos que saem dali.

Para ampliar o conteúdo local e o valor agregado no Brasil, a BYD precisa internalizar as etapas mais caras da produção e é justamente o que os prédios ainda em obra ao lado do galpão pretendem abrigar. Estamos falando em pintura, “estamparia” – a etapa em que grandes prensas moldam chapas de aço na forma de capô, teto etc. – e a soldagem de tudo isso.

A dúvida que a firma terá de dissipar diz respeito menos à intenção de produzir no Brasil do que ao prazo para consegui-lo, diante de um cronograma que já escorregou e de um imposto que vai aumentar em 2027.

Cem mil carros em nove meses

A operação chegou às 100 mil unidades nove meses depois de a BYD ter inaugurado a primeira etapa do complexo, em outubro de 2025, um ritmo acelerado na maior fábrica da companhia fora da China. O investimento anunciado, de R$ 5,5 bilhões, e o terreno de 4,65 milhões de metros quadrados – três vezes o Parque do Ibirapuera, em São Paulo – dão a medida de uma presença construída para durar.

Hoje, o lugar é um gigantesco canteiro de obras. Mesmo assim, já abriga uma planta de porte. Das 5,5 mil pessoas trabalhando ali, 93% são baianas, segundo a montadora. Três modelos estão na linha de produção: o Dolphin Mini, best seller da marca, o sedã King e o SUV Song Pro, em um regime de montagem final de kits semidesmontados.

BYD Dolphin Mini foi o carro de número 100 mil montado em Camaçari, na Bahia (Divulgação/BYD)

A capacidade instalada hoje é para 150 mil veículos por ano, com espaço para chegar a 300 mil em uma segunda etapa, e a companhia planeja usar Camaçari como base de exportação para a América Latina, a começar por Argentina e México.

Atraso na fábrica, cota renovada em Brasília

Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD no Brasil, havia prometido iniciar a fabricação com mais etapas nacionais até o fim de julho de 2026, prazo que não será cumprido. Em meados deste mês, estamparia, soldagem e pintura seguiam em obra, os testes de produção foram remarcados para agosto e a produção em série ficou para o fim do ano.

VP Sênior da BYD, Alexandre Baldy
Alexandre Baldy: peça fundamental no plano de expansão da BYD no Brasil

O calendário tributário pode tornar esse atraso mais custoso: a partir de 1º de janeiro de 2027, os conjuntos SKD e CKD de eletrificados — os kits que vêm de fora para finalização no país — passam a pagar 35% de imposto de importação, e só uma cota de US$ 463 milhões permite, até lá, trazê-los sem tarifa. Fora dela, o SKD (“menos desmontado”) já recolhe 35% desde julho, e o CKD (mais desmontado, que pede mais mão de obra local), 14% até dezembro.

Existia uma cota idêntica, aplicada entre julho de 2025 e janeiro de 2026. No dia 23 de junho, o governo decidiu renová-la. Ela beneficia todas as montadoras de eletrificados que trazem kits de fora.

A BYD, líder de mercado entre os eletrificados, era a principal interessada na cota. Tanto que ela mesma pediu ao governo a renovação, de modo a ter mais tempo para importar componentes a custos mais baixos enquanto conclui as obras em Camaçari. A condução das conversas com o governo cabe a Baldy, ex-ministro e ex-deputado federal.

A Anfavea, que representa as montadoras tradicionais, reagiu. Em 22 de junho, um dia antes da decisão federal, o presidente da entidade, Igor Calvet, disse que o governo Lula havia rompido um acordo para encerrar as cotas e questionou “qual modelo industrial o Brasil quer” – ou seja, se é o SKD/CKD ou a montagem tradicional, com o grosso das peças produzidas por aqui, modelo de Fiat (Stellantis), GM, Volkswagen etc.

A associação ameaçou recorrer à Justiça caso o benefício fosse renovado. Duas semanas depois, porém, desistiu da ação, por avaliar que o processo demoraria mais do que os seis meses de vigência da cota. Em seu lugar, anunciou uma representação ao TCU para questionar a governança e a transparência das decisões do Gecex – o comitê da Câmara de Comércio Exterior que renovou a cota.

A fronteira entre montar e fabricar

Um automóvel é montado em quatro etapas encadeadas dentro da planta, da chapa ao carro pronto. A estamparia é a mais intensiva em capital; a armação solda esses painéis no monobloco; a pintura, feita em seguida e que envolve poluentes, é a fase de licenciamento ambiental mais complexa; a montagem final, por fim, instala motor, interior e componentes. Para a Anfavea, só existe fabricação completa quando todas essas etapas acontecem no país, com engenharia e fornecedores locais.

Camaçari ainda opera no regime SKD, em que a fábrica só faz a montagem final e recebe as demais etapas prontas do exterior. O passo seguinte, o CKD, internaliza solda e pintura, mas é a estamparia, mais cara e complexa, que marca a última fronteira da produção local.

Só que as montadoras tradicionais também importam componentes – se até a fabricação de um lápis pode envolver elementos de vários países, imagine a de um automóvel.

Um bom termômetro para entender o que seria “fabricação local” de fato é o acordo automotivo entre Brasil e Argentina. Pelas regras ali, um veículo precisa alcançar 50% de conteúdo regional do Mercosul para virar “originário” – e desfrutar do imposto de importação zero entre os países do bloco.

Esse percentual é calculado pelo valor dos componentes, e não pela quantidade de peças. A BYD ainda não divulga um índice atual de conteúdo local para os veículos montados em Camaçari e afirma que pretende chegar a cerca de 50% até o fim do ano – não está claro, porém, se a metodologia adotada pela firma é diretamente comparável à regra dos 50% do Mercosul.

O teste de 2027

A BYD já provou que sabe vender no Brasil. No primeiro semestre de 2026, tornou-se a quarta marca mais emplacada do país, a primeira vez que uma fabricante chinesa entra no grupo das quatro maiores, à frente da Hyundai por uma margem estreita, de 2.305 unidades.

Foram 99.028 carros da chinesa contra 96.723 da coreana, segundo a Fenabrave, em um semestre em que o Dolphin Mini liderou as vendas no varejo (que não conta frotas de firmas e locadoras) e a quantidade de carros da marca em circulação já superou os 207 mil.

Além disso, a firma chega bem posicionada ao Move Brasil, a linha de até R$ 30 bilhões em crédito para taxistas e motoristas de aplicativo que habilitou seus dois modelos de entrada, Dolphin Mini e Dolphin normal. A BYD mantém estoque alto da dupla para atender a essa demanda.

Marcas mais vendidas do Brasil no primeiro semestre de 2026, em unidades emplacadas:

Posição Fabricante Unidades
1º Fiat 270.941
2º Volkswagen 224.923
3º General Motors 140.706
4º BYD 99.028
5º Hyundai 96.723
6º Toyota 78.969
7º Renault 63.873
8º Jeep 56.418
9º Honda 53.540
10º Caoa Chery 37.013

Fonte: Fenabrave

A transição industrial da BYD coincide com uma virada no próprio mercado. Em uma análise recente, Cássio Pagliarini, da consultoria Bright, avaliou que o segundo semestre de 2026 abre um dos ciclos de renovação de produtos mais intensos da década, com uma concentração de lançamentos nos 18 meses seguintes distribuída por três segmentos: SUVs, compactos eletrificados e picapes.

Neles, as marcas chinesas saem dos nichos para disputar o volume — a faixa de R$ 100 mil a R$ 180 mil, que responde por dois terços das vendas no país. A BYD atua nessas três frentes: lidera entre os compactos eletrificados, com o Dolphin Mini, fica “nas cabeças” dos rankings de SUVs, com o Song Pro, e deve estrear uma picape híbrida para disputar mercado com a Fiat Toro.

Nessa realidade, nacionalizar a produção não é apenas uma forma de responder ao imposto de 2027. É uma condição logística para que a BYD defenda a posição recém-conquistada entre as quatro maiores – em um mercado que ficará ainda mais disputado nas faixas em que ela mais vende.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Greg Prudenciano

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