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Fusão de Afya com Yduqs pode gerar até R$ 1 bilhão em novas receitas em saúde. Falta convencer o mercado

Negócios de fusão entre grandes firmas no Brasil nos últimos anos deixaram muitos investidores desconfiados sobre as perspectivas de sucesso desse tipo de operação e a efetiva entrega das sinergias prometidas.

Dois casos mais notórios envolvem a união de Arezzo com Grupo Soma, que deu origem ao Azzas 2154, cujo divórcio já foi anunciado apenas dois anos depois da conclusão do negócio; e a compra da NotreDame Intermédica pela Hapvida, em que a perda de valor de mercado desde o anúncio é da ordem de 95%.

Diante desse quadro, a recém-anunciada fusão entre Afya e Yduqs, que pretende dar origem a um dos maiores grupos de educação do país, líder em ensino de medicina, motivou uma espécie de operação de guerra para que a geração de valor aos acionistas de fato aconteça.

A Afya promoveu uma reorganização das lideranças para montar um time com 13 executivos que já começou a se dedicar de forma exclusiva à integração, respeitado o rito de aprovações necessárias. E começou a executar um plano dividido em seis pilares, sob a liderança de Denis Del Bianco, então VP de Educação Continuada do grupo.

Esse cuidado redobrado com as expectativas fez a companhia deixar de fora, num primeiro momento, projeções oficiais a investidores – guidance, no jargão do mercado de capitais – que envolvessem receitas adicionais que a fusão das duas gigantes em educação pode gerar.

As projeções iniciais apontam sinergias da ordem de R$ 2 bilhões a R$ 2,2 bilhões concentradas em ganhos de eficiência e economias de custos, como despesas administrativas, das quais o equivalente a 80% seria possível de ser entregue em até três anos a partir da conclusão do negócio.

Mas agora a firma começa a abrir para o mercado esse potencial de receitas: e há ganhos adicionais que podem chegar à casa do R$ 1 bilhão, segundo disse o CEO da Afya, Virgílio Gibbon, no Investor Day da companhia. No evento, ele e outros executivos falaram mais dos impactos de médio prazo com a união de negócios com a Yduqs.

“O mais importante, além das sinergias, é como o negócio destrava crescimento dentro da nova companhia combinada”, afirmou.

Gibbon também afirmou que o novo grupo, quando concretizado em cima das aprovações aguardadas – a expectativa é que tudo esteja em ordem, incluindo o aval concorrencial do Cade, para daqui a 9 a 12 meses –, pretende se tornar um agente de consolidação do setor de educação, com novas aquisições que envolvam não só cursos de medicina.

É uma ambição, portanto, que confirma o que alguns já suspeitavam: a diversificação dos negócios da futura companhia combinada, para além da medicina, abre uma avenida de crescimento que vai, sim, ser explorada. E essa nova frente ainda não está precificada; em saúde, sim.

“Apenas considerando as ofertas adicionais, com as capilaridades, tanto nos cursos de saúde quanto também no lifelong learning [frente de educação continuada], a gente estima de R$ 800 milhões a R$ 1 bilhão de NPV [métrica de valor presente] em receitas”, disse o executivo no evento realizado na terça-feira (20) no Rio de Janeiro.

Afya vê efeito multiplicador

O CEO da Afya fez ressalvas sobre essas expectativas.

“Isso depende muito de execução. Não é guidance que damos ao mercado. É um trabalho ainda a ser feito”, completou Gibbon, citando tanto a chamada “venda cruzada” (cross-sell) como de ticket maior (up-sell) de cursos e soluções de educação em relação ao que Afya e Yduqs já oferecem.

“A gente só coloca nessa medição [das sinergias] o que a gente pode garantir. Custo e despesa estão nas nossas mãos”, completou o CFO (Chief Financial Officer) da Afya, Luis Blanco, na sequência.

Na equação das receitas adicionais entraria, por exemplo, uma nova oferta de cursos na área de saúde, como enfermagem, nos 19 polos do Idomed, vertical de negócios de ensino de medicina da Yduqs, espalhados em dez estados. Muitas unidades contam hoje essencialmente com a graduação para médicos e apresentam potencial para novos cursos, segundo Gibbon.

No caso da educação continuada, a referência são cursos de preparação para a residência, de pós-graduação e de atualização, além de outros mais específicos, como de finanças para a gestão de clínicas, que já fazem parte da plataforma da Afya e que poderão ser oferecidos aos futuros médicos formados pelas faculdades da Yduqs.

Nesse sentido, a incorporação do Ibmec, tradicional e bem avaliada escola de negócios que pertence à Yduqs, pode abrir uma perspectiva valiosa e rentável de MBA e outros cursos para formação executiva.

Além disso, há também a potencial oferta, não menos relevante, que envolve outra frente de negócios da Afya que é considerada a mais promissora: a de soluções para a prática médica, como plataformas de conteúdo e literatura especializada para auxílio em tempo real para a tomada de decisões, com uso de IA, como o Whitebook.

O potencial de geração de valor de tais ferramentas de IA tem sido ilustrado por casos como o da OpenEvidence nos Estados Unidos, que processou mais de 42 milhões de prompts de médicos no último mês e que foi avaliada em US$ 15 bilhões por investidores.

Tudo isso dialoga com o modelo de negócios pensado para a construção de um ecossistema que ofereça serviços e produtos para um médico ao longo de sua carreira, desde a entrada na graduação.

Atualmente, são 508 mil médicos cadastrados nas plataformas da Afya, o equivalente a cerca de 80% do total desses profissionais do país. E, nesse grupo, há 294 mil usuários recorrentes – quase 60% da base –, que consomem ao menos uma solução por mês e geram, portanto, receita previsível (que chegou a R$ 85 milhões no primeiro semestre).

Para Lélio de Souza, VP de Soluções de Práticas Médicas, essa frente pode funcionar como uma alavanca de rentabilidade para a companhia. O plano é que funcione também como um marketplace de soluções para médicos, firmas farmacêuticas, hospitais, laboratórios e clínicas.

Aumento de liquidez da ação

Os planos e as ambições da Afya “turbinada” com a Yduqs, incluindo aí as projeções oficiais, ainda não se refletem nem de longe nos preços das ações, segundo a avaliação de executivos. Os múltiplos do valor pelo lucro ou a geração de caixa operacional estão aquém também.

Desde o anúncio do acordo para a fusão em 23 de setembro, as ações da Afya subiram 8,5% na Nasdaq, enquanto as da Yduqs avançaram mais na B3: 29%. No acumulado do ano, o comportamento é distinto: queda da ordem de 3% e alta aproximada de 15%, respectivamente, o que resultaria em um valor de mercado somado perto de R$ 10,6 bilhões.

O negócio entre as companhias envolve exclusivamente a troca de ações, em proporção que prevê que a futura firma listada na bolsa brasileira terá obrigatoriamente 69% do capital da Afya, e 31%, da Yduqs.

Segundo o CFO, quando a fusão estiver concluída, a expectativa é que a nova ação tenha um salto na liquidez que possa chegar a 14 vezes o patamar atual (da Afya) com a soma dos volumes diários negociados e o consequente e esperado ingresso em índices amplos, do Ibovespa aos da família MSCI, acessados em particular por fundos passivos (ETFs).

É um caminho ainda longo e complexo pela frente. Se tudo correr conforme o “plano de voo”, os executivos esperam que a Afya consiga provar ao mercado que, sim, fusões entre grandes firmas podem não só gerar valor aos acionistas como entregar até acima do que foi prometido.

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Autor: Marcelo Sakate

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