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Industrialização da construção se espalha no país e vira fonte de expansão de empresas ‘centenárias’

A industrialização da construção civil é um fenômeno que ganha tração na esteira da escassez de mão-de-obra para obras no país, como contou o InvestNews em recente reportagem. E tem alimentado um ambiente de negócios que não só se mostra resiliente ante a desaceleração mais ampla da economia causada pelos persistentes juros altos como se tornou fonte de novos negócios até para firmas quase centenárias.

É o caso da Eternit, cuja trajetória esteve associada por décadas a materiais de construção como telhas com uso de amianto, proibido em definitivo no país em 2017 em decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). Antes da pandemia, seus negócios na frente de construção industrializada representavam entre 1,5% e 2% do faturamento em materiais. Em 2025, a fatia já havia alcançado 8%. Neste ano, pode fechar em 17%.

A aceleração aparece nos números mais recentes. No segundo trimestre de 2026, a receita da divisão avançou 50,3% ante o mesmo período do ano anterior, para um patamar anualizado de R$ 70 milhões. É um ritmo que represneta quase o dobro do avanço de 27% no ano de 2025.

É um movimento que a fabricante de telhas de fibrocimento, fundada há 86 anos, tem construído desde 2018, quando decidiu reduzir a dependência do ciclo de juros que historicamente comanda a demanda por material de construção na economia brasileira.

A firma, fundada em 1940, chegou a entrar em recuperação judicial em 2018, citando na ocasião como uma das razões para o pedido justamente o impacto da proibição do uso de amianto em seus negócios.

No plano de reestruturação, cuja execução permitiu a saída da recuperação judicial em 2024, passou a fazer a transição do seu modelo de negócios: da venda tradicional para o atacado e o varejo para o atendimento customizado das necessidades de clientes como construtoras.

Outro exemplo é a Gerdau, com 125 anos, cuja unidade de negócios Gerdau Design atende clientes com o serviço de consultoria para projetos de construção, incluindo métodos de industrialização.

Mudança de modelo

O negócio tradicional da Eternit é pulverizado: quase 18 mil clientes, atendimento direto a 3.700 dos 5.570 municípios do país, com giro constante entre lojas de material de construção.

A construção industrializada segue outra lógica. “Esse outro modelo me permite criar produtos tailor-made [sob medida] para resolver dores de grandes incorporadores ou grandes indústrias”, diz o CEO da Eternit, Rodrigo Inácio, em entrevista ao InvestNews.

O processo começa no momento em que um cliente corporativo – uma construtora, uma mineradora ou uma companhia que precisa construir um projeto qualquer – traz um problema estrutural específico.

A Eternit passou a desenvolver soluções customizadas, em ciclos que levam de três a dezoito meses, que depois se repete em escala: pode ser uma incorporadora que decide construir 500 casas ou uma indústria que precisa entregar 30 escolas. “Isso gera margem, porque você também está gerando valor para o cliente”, afirma o CEO.

A régua de troca de valor, portanto, é mais alta que no varejo pulverizado. Uma vez que o fornecedor se insere no processo produtivo do cliente – do projeto ao treinamento da mão de obra que vai instalar o produto -, o preço deixa de ser o único critério.

“Voltar para o cimento e para o tijolo deixa de fazer sentido para quem já migrou”, diz Carisa Portela Cristal, CFO (Executiva-Chefe Financeira) da Eternit, na mesma entrevista.

Tecnologia em expansão

O mercado de construção industrializada cresce, segundo Inácio, entre 20% e 30% ao ano, com impulso da citada escassez de mão-de-obra na construção tradicional.

“A industrialização tornou-se mais disseminada entre as firmas do setor, mas ainda não houve mudança significativa na proporção de obras industrializadas dentro das firmas que já adotavam essas tecnologias”, escreveram Ana Maria Castelo, Raphael Vianna da Silva e Rodolpho Tobler, da Fundação Getulio Vargas (FGV), em análise recente.

A parcela de firmas do setor que relataram utilizar sistemas construtivos industrializados em suas obras aumentou de 26,4% em 2025 para 33,6% em 2026, segundo a Sondagem da Construção da FGV. Outros 14,6% disseram usar tais sistemas de forma parcial, levando adoção em qualquer grau para 48,2% do total.

É um mercado sem tecnologia vencedora definida: wood frame, steel frame, modular metálico, pré-moldado e soluções híbridas disputam espaço. E boa parte dos players relevantes em tamanho é familiar e opera fora do radar do mercado de capitais.

É o caso da Steel Corp, que participa de licitações públicas para construir escolas e que ganhou notoriedade por um de seus sócios, Roberto Justus, ou da Espaço Smart, fabricante do Paraná que fatura mais de R$ 1 bilhão com projetos sob medida vendidos em 50 lojas físicas.

Com poucos pares listados em bolsa – a Dexco e a Portobello estão entre as exceções com tamanho relevante, a Eternit se ressente do que aponta como pouca cobertura de analistas especializados em material de construção. “É um limbo em um setor importante da economia”, diz o CEO.

Logística se torna novo negócio

Apesar da expansão da vertical de negócios da construção industrializada, o resultado consolidado da Eternit ainda carrega o peso do mineral amianto crisotila, cuja extração é permitida no estado de Goiás exclusivamente para exportação: a receita advinda da atividade de mineração recuou 30,2% no segundo trimestre, para R$ 76 milhões.

Mas essa frente também se tornou fonte para novos negócios.

O fibrocimento é um negócio de distribuição pulverizada, dependente historicamente de centenas de transportadoras autônomas espalhadas pelo país. A Eternit resolveu internalizar essa operação.

Criou internamente a EliteMov, uma plataforma que hoje conecta cerca de 100 mil transportadores autônomos, contratou fornecedores especializados em pagamento e rastreamento e manteve como desenvolvimento proprietário apenas a inteligência de roteirização.

A EliteMov, a transportadora própria recém-criada pela companhia, saltou de R$ 200 mil de receita líquida no segundo trimestre de 2025 para R$ 7,4 milhões no mesmo período de 2026 – e já opera com lucro bruto positivo (de R$ 1,1 milhão, ante R$ 40 mil um ano antes).

O objetivo inicial era melhorar o nível de serviço: aproximar-se do cliente final e reduzir a dependência de intermediários.

Mas o modelo abriu uma segunda frente de receita, ainda que incipiente: vender o frete de retorno (o chamado backhaul) para outras indústrias que também precisam entregar produtos pelo Brasil com capilaridade.

A firma já testa esse serviço no Centro-Oeste.

“Você como cliente contrata um transporte e me avalia; eu me contrato e me avalio como fornecedor também”, disse Inácio sobre o racional.

A expansão da frota tem um custo. A dívida líquida chegou a R$ 161,2 milhões ao fim de junho, versus R$ 111,8 milhões um ano antes, em parte para a compra de caminhões para a frota que sustenta a EliteMov. Mas o equivalente a 83% da dívida bruta é de longo prazo.

A alavancagem, medida pela relação entre Ebitda (métrica de geração de caixa operacional) recorrente sobre a dívida líquida, saltou de 1,62 vez no quarto trimestre de 2025 para 2,96 vezes no segundo trimestre de 2026.

Empurrão com reforma tributária

Um fator externo ao setor pode dar novo empurrão para a industrialização da construção: a reforma tributária.

Atualmente, incorporadoras contratam autônomos para etapas isoladas da obra – como armação de ferro, instalação de tubulação etc. – sem tomar crédito fiscal sobre esses serviços.

No novo modelo, cada contratação passa a gerar crédito, o que deve levar incorporadoras a comprar soluções completas e industrializadas para organizar o planejamento monetário, em vez de mão de obra dispersa.

A transição tem um custo imediato: descasamento de caixa. “Hoje você toma crédito antes para depois pagar o imposto. Vai acontecer ao contrário”, diz a CFO da Eternit.

“Para nós, a reforma tributária tem se mostrado positiva. No cumprimento total é mais positivo do que negativo para a firma.”

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Marcelo Sakate

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