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Aeris amplia lista de empresas em proteção contra credores: debêntures são negociadas com 90% de desconto

A fabricante de pás eólicas Aeris Energy foi a mais nova firma a entrar na Justiça com um pedido de proteção contra credores. A chamada “tutela cautelar” suspende por até 60 dias cobranças de dívidas e execuções judiciais.

Ao mesmo tempo, a companhia informou ter iniciado um processo de negociação com seus principais credores.

Nos últimos dias, as varejistas Casas Bahia e Marabraz formalizaram pedidos de recuperação judicial (RJ). Antes, recorreram ao mesmo instrumento para se blindarem de cobranças antecipadas de dívidas.

O pedido de proteção cautelar costuma anteceder processos de recuperação judicial ou extrajudicial (RE). Se houver uma RJ ou RE, a companhia ganha mais tempo para negociar com os credores. O prazo sobe para até 180 dias, com os dois meses iniciais da tutela já incluídos nesses 6 meses.

No mercado secundário, há algumas semanas as debêntures da companhia de equipamentos para energia eólica negociam com um valor de 11,54% do valor de face, ou seja, com um desconto de 88,5%.

Há dois anos, os mesmos papéis ainda tinham desconto de apenas 14%.

Um levantamento da plataforma de crédito privado Vitrify mostra que a firma têm uma dívida de cerca de R$ 1,5 bilhão junto a investidores de duas séries de debêntures.

Apesar da baixa exposição de pessoas físicas aos ativos, com participação de apenas 0,8% do crédito total, quase a metade das debêntures ou 48% estão nas mãos de fundos de investimentos.

O levantamento da Vitrify mostra 8 casas com posições nos papéis.

A crise da Aeris se consolidou com a forte redução dos projetos de geração eólica nos últimos dois anos, o alto nível de endividamento e a elevação do custo monetário em meio aos juros historicamente altos.

Do IPO à crise na Aeris

A companhia já foi a maior fabricante nacional de pás para energia eólica seis anos atrás, quando fez a abertura de capital (IPO).

Nos últimos anos, porém, viveu uma reestruturação que não foi suficiente para resolver a crise financeira. O setor vive atualmente um excesso de oferta de energia no sistema e aumento do curtailment, ou seja, os cortes de produção determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) diante de gargalos na infraestrutura de transmissão.

Além disso, a energia eólica enfrenta a concorrência da geração solar distribuída. Esse conjunto de fatores levou a uma redução no investimento em geração de eletricidade pelo vento.

O montante caiu quase 70% entre 2023 e 2026, de R$ 35 bilhões há três anos para cerca de R$ 10 bilhões neste ano.

Em comunicado, a Aeris afirmou que a reestruturação não deve afetar operações, fornecedores ou clientes.

O pedido de proteção solicitado na última quinta-feira (21) não é o primeiro sinal de estresse. A companhia já havia passado por uma repactuação completa da dívida em 2025.

Depois de assembleias de debenturistas que não atingiram quórum em dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, uma terceira convocação aprovou, em 28 de março do ano passado, a extensão do vencimento das duas emissões para 2030.

Além disso, foram aprovados um novo cronograma de amortização trimestral a partir de dezembro de 2027, a elevação dos juros de CDI + 2% para CDI + 3% ao ano e a retirada do gatilho de vencimento antecipado ligado a garantias financeiras.

Em maio de 2025, a firma fechou também instrumentos de crédito com Banco do Brasil, BV e Santander para reperfilar cerca de 90% do endividamento total, nas mesmas condições de prazo e taxa.

A agência de rating Fitch rebaixou a Aeris em maio de 2025 para RD(bra) — default restrito —, por classificar a troca de dívida como uma reestruturação em condições de estresse.

Nenhuma das debêntures fez pagamentos desde julho de 2024. Diante dos atrasos, o saldo devedor tem aumentado. Nos últimos dois anos, além da correção pelas taxas, houve um crescimento real de mais de 15% da dívida em relação ao valor emitido originalmente.

Daqui para a frente, se a Aeris não conseguir chegar a uma reestruturação amigável das dívidas, o caminho deve seguir no rumo de uma recuperação judicial ou extrajudicial.

Por enquanto, as debêntures podem ser negociadas livremente no mercado secundário. Porém, se houver uma RJ, os detentores dos títulos entram para a lista de credores e os papéis deixam de ser negociados.

Em uma RE, a negociação no secundário é mantida. Mas, como a experiência mostra, os descontos reduzem o valor dos títulos a uma pequena fração do original. No caso da Aeris, se cair abaixo da média atual de 11% do valor de face, basicamente sela a perda do investimento.

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Autor: Sérgio Tauhata

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