Opinião WSJ: Nas eleições de 2026 pelo mundo, estar no poder virou desvantagem
Este é um ano ruim para quem está no poder. O presidente Donald Trump se aproxima de novos recordes de impopularidade nas pesquisas, enquanto os republicanos se preparam para uma difícil disputa nas eleições legislativas de meio de mandato. Mas, mesmo com a aprovação em torno de 35%, Trump não está tão mal na comparação com outros líderes mundiais.
Basta olhar para a Europa. Enquanto tumultos se espalham pela França e investidores do mercado de títulos pressionam para cima os juros da dívida do país, o enfraquecido presidente Emmanuel Macron se vê diante de índices de aprovação entre cerca de 15% e pouco menos de 20%. Seu colega alemão, o chanceler Friedrich Merz, está em situação ainda pior: ao menos uma pesquisa recente mostra que apenas 10% dos alemães estão satisfeitos com seu desempenho.
O ex-primeiro-ministro britânico Keir Starmer teve de deixar o cargo pouco mais de dois anos depois de sua vitória esmagadora nas eleições de julho de 2024. Na Espanha, o acuado primeiro-ministro Pedro Sánchez convocou eleições antecipadas após sofrer uma dura derrota em sua agenda emergencial de proteção aos direitos dos inquilinos.
No Brasil, parece improvável que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquiste um inédito quarto mandato depois de, contrariando as expectativas, não ter ficado à frente no primeiro turno da eleição. Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pela Justiça, está em posição favorável para chegar ao poder, impulsionado por uma onda de insatisfação com o governo Lula.
Assim como a família Bolsonaro, Trump se beneficiou da rejeição aos políticos tradicionais ao se apresentar como alguém de fora do sistema, mas perdeu quando disputou a reeleição. Como um candidato outsider carismático que prometia combater os vícios da política, conquistou os eleitores. Agora que comanda o sistema que prometia transformar, perde apoio.
O problema central dos líderes políticos é que muitas das questões que inquietam os eleitores são difíceis, ou mesmo impossíveis, de resolver. A ascensão da inteligência artificial, com seus possíveis efeitos sobre tudo – do emprego e da distribuição de renda à segurança nacional –, ocorre em um ritmo rápido e disruptivo demais para que os governos consigam formular políticas eficazes para lidar com ela.
A retomada da competição entre grandes potências impõe escolhas impopulares a governos que tentam equilibrar o bem-estar social e a defesa nacional. Décadas de imigração em massa reconfiguraram a política e acirraram as guerras culturais em muitos países. O terrorismo islamista não desapareceu. O chamado Choque Chinês 2.0 – a resposta de Pequim à enorme produção excedente e à estagnação econômica interna por meio da ampliação das exportações – ameaça empregos em todos os continentes.
A grande transformação demográfica tornou insustentáveis os sistemas de previdência e proteção social de muitos países. A guerra no Irã elevou os preços da energia em todo o mundo, alimentando a inflação mesmo com a disparada dos juros. E, à medida que os eleitores ficam mais irritados e temerosos, as redes sociais espalham apreensão, aprofundam a polarização e mobilizam ainda mais sociedades já agitadas ao redor do mundo.
Vivemos tempos de revolução, não de evolução. É um ambiente pouco promissor para tecnocratas pragmáticos e moderados. Figuras mais carismáticas, inclusive demagogos, se saem muito melhor. Quando o pão começa a faltar, é preciso melhorar o circo. Trump ocupa esse espaço na política republicana há uma década; agora, uma nova geração de democratas carismáticos busca deixar sua marca. À esquerda e à direita, nos Estados Unidos e em outros países, provavelmente teremos pela frente uma era de política mais personalista.
Mas, como Trump e outros políticos que desafiaram o sistema descobriram, slogans populares frequentemente se transformam em políticas impopulares. O protecionismo, sobretudo quando acompanhado de gastos sem disciplina, pode alimentar a inflação. Uma postura de firmeza na defesa nacional pode levar um governante a guerras impopulares.
Uma ofensiva contra a imigração que tenha apoio popular pode produzir casos chocantes de brutalidade e abuso, afastando parcelas importantes do eleitorado. Uma nova leva de populistas contrários a quem está no poder, mobilizando apoiadores pelas redes sociais e pela política da indignação, surgirá para derrotá-lo nas próximas eleições.
Esse tipo de competição política – caso os Estados Unidos e outros países alternem ondas de populismo de direita e de esquerda – é menos uma receita de estabilidade na condução do governo do que de turbulência permanente. Com o tempo, é mais provável que destrua as estruturas institucionais e jurídicas que permitem à democracia funcionar do que resolva os problemas que têm deixado os eleitores inquietos.
A história política dos Estados Unidos, marcada por disputas, sugere que não seguiremos esse caminho ruinoso até o fim. Ao longo de 250 anos de turbulências econômicas e mudanças sociais, o bom senso do eleitor comum acabou mantendo o país em um rumo razoavelmente estável e razoavelmente democrático.
Grandes presidentes americanos, como George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln, Theodore e Franklin Roosevelt e Ronald Reagan, recorreram a essa reserva de bom senso para conduzir o país em tempos difíceis.
O ano de 2026 pode ser ruim para quem está no poder, mas a possibilidade de pôr os patifes para fora é uma virtude do sistema, não um defeito. Mesmo que o resultado, temporariamente, seja apenas substituir um bando de patifes por outro, a mudança pacífica em resposta à vontade popular continua sendo o melhor mecanismo que a humanidade encontrou até hoje para atravessar as tempestades que as convulsões sociais e tecnológicas inevitavelmente trazem.
*Walter Russell Mead ocupa o posto de pesquisador Ravenel B. Curry III em Estratégia e Política de Estado no Instituto Hudson, assina a coluna Global View no The Wall Street Journal e é titular da cátedra Alexander Hamilton de Estratégia e Política de Estado na Escola Hamilton de Educação Clássica e Cívica da Universidade da Flórida.
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Autor: Redação InvestNews
