O maior desafio da Âmbar, dos irmãos Batista: combater os gatos de energia no Amazonas
Você pode morar em qualquer lugar do sul ao norte do país. Seja onde for, uma parte da sua conta de luz ajuda a bancar um problema imenso e longevo no Amazonas: os “gatos” de energia.
O estado amarga um dos piores índices de furtos de energia no Brasil: para cada 10 megawatts-hora (MWh) que casas e pequenos comércios consomem legalmente, outros 12 se perdem entre gatos e fraudes.
E, há uma década, parte desse prejuízo é compartilhado por todos os consumidores do país, por meio de um fundo do setor elétrico que repassa recursos à concessionária.
A ajuda, no entanto, não foi suficiente para a Oliveira Energia, que assumiu em 2019 a concessão da distribuidora do estado, a Amazonas Energia. Atolada em dívidas e sem conseguir resolver o problema dos gatos, a companhia teve de se desfazer da concessão às pressas, por um valor simbólico de R$ 1.
Desde março de 2026, quem opera a Amazonas Energia é a Âmbar, braço da holding J&F, dos irmãos Wesley e Joesley Batista.
Em setembro, a firma anunciou um plano de investimentos de R$ 5,5 bilhões até 2031 na rede de distribuição do estado – o primeiro grande anúncio de infraestrutura desde que assumiu a concessão. Desse total, R$ 1,6 bilhão virá de recursos federais, e outros R$ 3,9 bilhões, dos cofres da própria firma.
Parte desse montante terá de servir para dificultar as ligações clandestinas e identificar os furtos.
Mas a tarefa não será simples.
O histórico de gatos no Amazonas
No setor elétrico, o jargão para os gatos de luz é “perdas não técnicas”.
Perda técnica é a parte da energia que naturalmente se dissipa nos cabos e transformadores enquanto vai de um lugar para outro.
Já na perda não técnica, a energia até chega à casa do cliente. Mas a distribuidora não registrada isso e, por isso, não gera uma conta de luz. Entram nessa categoria ligações clandestinas, adulteração de medidores, fraudes e problemas de medição e faturamento.
No Brasil, é o Rio de Janeiro o responsável pelos maiores desvios do tipo. A Light, concessionária que atende a capital e outros 30 municípios do estado, teve um prejuízo de R$ 1,02 bilhão em 2025 com as perdas não técnicas. A Enel RJ, que atende mais 66 municípios fluminenses, registrou outros R$ 294,4 milhões.
No Amazonas, o segundo colocado na lista, o prejuízo foi de R$ 753,6 milhões.
Mas o ranking inverte quando se considera o tamanho do mercado de cada estado: proporcionalmente, o Amazonas perde muito mais energia do que o Rio. Em especial, entre os consumidores de baixa tensão – as casas e pequenos comércios, o grosso dos clientes das distribuidoras.
No Amazonas, as perdas não técnicas chegam a 122% do mercado de baixa tensão. No Rio, ficam em 60%.
Trata-se de um problema histórico para a região. A Eletrobras (hoje Axia Energia), estatal que controlou a Amazonas Energia até a privatização, já enfrentava índices semelhantes. Em 2018, as perdas chegaram a 124%.
Entre 2010 e 2015, o Tribunal de Contas da União (TCU) calculou que a Eletrobras perdeu R$ 3,58 bilhões do próprio caixa com os desvios.
A queda da Oliveira
Desde 2016, essa conta já não ficava apenas com a distribuidora. Naquele ano, uma mudança na lei permitiu que um fundo do setor elétrico cobrisse parte das perdas da Amazonas Energia.
Trata-se do CCC, um fundo que subsidia o fornecimento de energia para regiões isoladas do país, onde produzir eletricidade custa mais caro. O dinheiro ali vem da conta de luz de todos consumidores brasileiros.
A regra previa que essa ajuda diminuiria gradualmente até 2025 – algo que, como veremos, não aconteceu.
A medida também ajudava a preparar o terreno para a privatização da Amazonas Energia, em 2019. A partir dali, um consórcio liderado pela Oliveira Energia assumiu o controle da distribuidora com condições especiais para tentar recuperar a concessão – entre elas, metas mais brandas para reduzir as perdas e repasses da CCC acima dos níveis normalmente permitidos pela Aneel.
Uma das apostas da Oliveira Energia para combater os gatos foi instalar medidores em postes, fora das casas, para dificultar as fraudes. Segundo Orsine Oliveira, dono da firma, o projeto encontrou forte resistência da população.
“Onde a gente ia para colocar um aparelho de medição, tinha uma confusão na rua”, disse Oliveira ao InvestNews.
Na avaliação do empresário, os gatos se tornaram um problema cultural no Amazonas e atravessam diferentes faixas de renda. Ele conta que, em uma fiscalização em um condomínio com 110 casas de alto padrão, a firma encontrou desvios em 33 delas.
O problema dos gatos se somava a uma situação financeira em deterioração. Em 2023, a Amazonas Energia já acumulava uma dívida líquida de R$ 9,6 bilhões. Naquele ano, a Aneel concluiu que a firma não tinha condições financeiras de manter o serviço.
Em 2024, o Ministério de Minas e Energia reforçou o diagnóstico: estimou que a Amazonas Energia teria um rombo de R$ 2,8 bilhões em 2026 sem novos subsídios.
Foi nesse cenário que o governo abriu caminho para a entrada de um novo controlador.
A ascensão da Âmbar
Em 2024, a Âmbar acertou a compra da Amazonas Energia por um valor simbólico de R$ 1, mas condicionou a operação a novas regras para tentar recuperar a distribuidora – incluindo mais recursos da CCC e mais tempo para reduzir as perdas.
O acordo virou uma longa disputa judicial, já que parte da diretoria da Aneel considerou as condições excessivas e tentou barrar a operação.
Só em março de 2026, após um novo acordo com a Aneel, a Âmbar assumiu oficialmente o controle da Amazonas Energia.
Hoje, a CCC repassa R$ 1,66 bilhão por ano à Amazonas Energia para cobrir os custos da operação. Desse total, R$ 784 milhões estão relacionados aos gatos de luz.
Como lidar com os gatos
Agora, a Âmbar tem o desafio de fazer o que a Oliveira não conseguiu: reduzir os gatos.
O plano passa por reforçar as inspeções e modernizar a rede. Em Manaus, a firma começou a substituir os antigos fios expostos por cabos revestidos e mais difíceis de adulterar.
A companhia também abandonou a ideia de espalhar os medidores aéreos da gestão anterior e pretende reservá-los para casos de reincidência de furto.
A meta é reduzir as perdas na baixa tensão dos atuais mais de 120% para cerca de 95% até 2031. “Sem diminuir o desvio de energia, essa firma é inviável economicamente”, disse João Pilla, presidente da distribuidora, em entrevista à Agência iNFRA.
Para Orsine Oliveira, a principal diferença entre a nova tentativa e a sua está no fôlego monetário para esperar os resultados aparecerem.
“A Âmbar vai fazer o que tem que ser feito”, afirmou. “Ela vai ter mais capital para poder esperar mais tempo. Nós não podíamos mais esperar. O nosso caixa não aguentava esperar mais”, diz.
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Autor: Camila Alves Barros
