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O Brasil sabe fazer armas de guerra. O desafio é pagar por elas sem perder a soberania

Em maio de 2026, a fábrica da Avibras Aeroco, em Jacareí, no Vale do Paraíba, voltou a funcionar. A firma havia passado anos entre paralisação, recuperação judicial e uma greve que durou mais de três anos. A retomada recolocou em operação uma das companhias mais importantes da indústria militar brasileira, fabricante do sistema de foguetes Astros e responsável pelo desenvolvimento do míssil de cruzeiro MTC-300.

O dinheiro que permitiu a volta veio do setor privado. Uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito reuniu investidores e teve a participação de Joesley Batista, sócio da J&F. O empresário assinou contrato para entrar no financiamento; o valor individual de sua participação não foi informado. Procurada, a J&F não quis comentar.

Na mesma região, oito dias antes, outra firma estratégica havia encontrado uma saída diferente para suas dificuldades financeiras. A EDGE, conglomerado de defesa controlado pelo governo de Abu Dhabi, anunciou um acordo para adquirir 100% da Akaer, de São José dos Campos.

A companhia brasileira participou de programas como o do caça Gripen e o do cargueiro C-390 e acumulou conhecimento em engenharia aeronáutica, sistemas ópticos e tecnologias espaciais. A operação ainda depende de condições precedentes e aprovações regulatórias.

Avibras e Akaer chegaram a 2026 por caminhos diferentes, mas expõem a mesma fragilidade: o Brasil construiu firmas capazes de desenvolver tecnologia militar sofisticada, mas parte delas sofre para financiar os longos intervalos entre uma encomenda e outra.

Essa fragilidade aparece justamente no momento em que o mundo voltou a comprar armas em escala crescente.

Em 2025, os gastos militares globais alcançaram US$ 2,887 trilhões, recorde histórico e 11º ano consecutivo de alta, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).

No mesmo ano, o Brasil registrou US$ 3,1 bilhões em autorizações para exportar produtos e serviços de defesa, 74% acima de 2024 e também um recorde, segundo dados oficiais do governo brasileiro. Autorizações não são a mesma coisa que vendas já embarcadas, mas dão a medida da carteira comercial aberta pelas firmas do setor.

Akaer desenvolve sistemas para aeronaves de defesa (Divulgação)

O resultado é uma contradição: algumas companhias estão financeiramente frágeis justamente em um momento de maior demanda internacional.

O risco do cliente único

Defesa é um negócio de ciclos longos. Uma firma gasta anos com engenheiros, protótipos, testes, certificações e fábricas antes de saber quantas unidades conseguirá vender. Quando o produto fica pronto, os compradores possíveis são poucos e, quase sempre, governos.

No Brasil, a dotação do Ministério da Defesa para 2026 é de R$ 142,9 bilhões. Desse total, R$ 107,9 bilhões, ou 75,5%, estão destinados a pessoal e encargos sociais. A parcela disponível para investimentos, aquisição de equipamentos e projetos tecnológicos é muito menor.

“Se você tem um cliente só e esse cliente é o brasileiro, ferrou”, disse ao InvestNews Rodrigo Torres, CFO (executivo-chefe monetário) da EDGE. Para ele, uma das fraquezas históricas do setor foi depender excessivamente das encomendas nacionais em vez de construir mercados no exterior.

A avaliação vem de um comprador interessado, mas ajuda a explicar por que a EDGE encontrou oportunidades no Brasil.

Rodrigo Torres, Edge Group
Rodrigo Torres, diretor monetário do grupo EDGE desde 2021

Criado em 2019 pelo governo dos Emirados Árabes Unidos para reunir firmas de defesa sob uma mesma holding, o grupo fez do Brasil uma base importante de sua expansão internacional. Antes da Akaer, comprou 50% da SIATT, fabricante de sistemas de mísseis, e 51% da Condor Tecnologias Não Letais.

A EDGE pertence integralmente ao governo de Abu Dhabi e não é listada em bolsa. Torres diz que essa estrutura permite investir com horizonte mais longo, sem a mesma pressão por resultados trimestrais de uma companhia aberta.

Essa vantagem financeira, no entanto, torna a operação mais sensível. Uma firma de defesa acumula desenhos, software, patentes, processos industriais e equipes que levaram décadas para dominar determinadas competências. Quando o comprador é uma companhia controlada por outro Estado, a aquisição societária vira também uma discussão sobre soberania.

A Akaer, por exemplo, é credenciada como firma Estratégica de Defesa, ou EED. Pela legislação, precisa manter no país-sede administração, capacidade tecnológica e continuidade produtiva.

A lei também limita o poder de voto de acionistas estrangeiros: em cada assembleia, eles não podem exercer mais de dois terços dos votos que puderem ser exercidos pelos acionistas brasileiros presentes.

A EDGE diz que pretende preservar o status de EED depois da aquisição. Na entrevista ao InvestNews, Torres reconheceu que o desenho ainda não estava concluído e que havia condições precedentes a cumprir – como uma participação econômica integralmente estrangeira será conciliada com essas restrições de governança ainda depende da estrutura final e da aprovação regulatória.

Míssil cinza de precisão guiada em exibição, com inscrições "MAN SUPER" e "SIATT EDGE".
Família de mísseis Mansup, da Siatt, inclui o modelo Mansup, com alcance de até 70 quilômetros, e Mansup-ER (Divulgação/EDGE)

Guerra nem sempre é a origem

A XMobots, fabricante de drones de São Carlos, segue um modelo diferente. A firma não nasceu na defesa. Construiu o negócio em monitoramento ambiental, mapeamento e agronegócio e depois levou parte da mesma base tecnológica para segurança pública e uso militar.

A lógica é a chamada tecnologia dual: conhecimento e componentes que encontram aplicações civis e militares. O Nauru 100D, por exemplo, é um drone elétrico de pequeno porte, capaz de operar por cerca de duas horas. Seus sensores permitem monitoramento diurno e noturno e a identificação de fontes de calor.

A XMobots tem cerca de 600 funcionários e, segundo a firma, aproximadamente metade são engenheiros. Desenvolve internamente sistemas de navegação, piloto automático, computadores de missão, software e inteligência artificial

“A principal questão é depender de uma única fonte de financiamento da operação”, afirma Reinaldo de Campos Gonçalves Júnior, executivo da XMobots. A receita civil ajuda a atravessar os intervalos entre encomendas militares.

As Forças Armadas cumprem outra função. A XMobots forneceu o sistema Nauru 1000C ao Exército em 2022 e depois fechou contrato com a Marinha.

Segundo Reinaldo, ter um produto utilizado pelo próprio governo funciona como uma “chancela” diante de compradores estrangeiros. Um contrato doméstico, mesmo sem volume suficiente para sustentar sozinho a firma, vira referência comercial lá fora.

De olho no exterior

Em maio, os Emirados Árabes Unidos assinaram contrato para comprar dez C-390 Millennium da Embraer, com opção para outros dez. Foi a primeira seleção do cargueiro no Oriente Médio e o maior pedido internacional de um único país para o programa.

O C-390 mostra, em escala maior, como um projeto brasileiro ganha mercado. A Força Aérea Brasileira foi o primeiro operador. A partir dessa referência, a Embraer passou a disputar concorrências no exterior e conquistou clientes em diferentes regiões.

Mas vender equipamento militar não é como exportar uma máquina agrícola. As negociações podem envolver financiamento, treinamento, manutenção, transferência de tecnologia e relações entre governos.

C-390, maior sucesso comercial da unidade militar da Embraer

A própria EDGE opera frequentemente por acordos G2G, de government-to-government, ou governo a governo. Torres explica que o apoio estatal permite estruturar financiamentos de longo prazo e agregar condições que uma firma privada isolada teria mais dificuldade para oferecer.

O governo brasileiro também tenta reduzir a irregularidade doméstica. A Lei Complementar 221, aprovada em 2025, permite retirar das metas fiscais e do limite de despesas parte dos investimentos em projetos estratégicos de defesa.

Ainda assim, a escala capaz de sustentar boa parte dessa indústria continuará vindo de fora. E isso cria outro problema: decidir para quem vender.

Em dezembro de 2016, a Human Rights Watch identificou no Iêmen restos de foguetes Astros II de fabricação brasileira depois de um ataque próximo a duas escolas. A organização afirmou que os foguetes continham munições cluster e que Arábia Saudita e Bahrein haviam comprado esse tipo de armamento do Brasil.

Há também o chamado “efeito bumerangue”. O Instituto Sou da Paz e o Instituto Igarapé relatam que rastreamentos realizados no passado encontraram armas brasileiras exportadas legalmente a países vizinhos e posteriormente apreendidas em crimes violentos no Brasil. 

Quanto mais a indústria brasileira vender no exterior, maior será também a responsabilidade do Estado sobre autorizações, destino e usuário final desses produtos.

O Brasil chegou, portanto, a uma oportunidade rara. Preservou competências em aviação, mísseis, drones e sistemas eletrônicos justamente quando o gasto militar mundial bate recordes.

O desafio agora é transformar essa janela em uma indústria financeiramente sustentável sem perder o controle sobre tecnologias consideradas estratégicas.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Greg Prudenciano

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