Pior interrupção da história do mercado brasileiro coloca a B3 em foco
A pior interrupção de negociação da história dos mercados monetários brasileiros foi apenas a mais recente de uma série de problemas registrados ao longo do último ano, que vêm prejudicando investidores na maior economia da América Latina.
Falhas técnicas na B3, firma que detém controle quase monopolista das bolsas e dos mercados monetários do país, têm ocorrido com maior frequência, embora em escala muito menor do que a registrada em 31 de julho, segundo mais de meia dúzia de pessoas familiarizadas com a situação.
A dificuldade para receber dados de pré e pós-negociação detalhando as posições dos clientes se tornou uma reclamação comum entre os traders, disseram as fontes, acrescentando que os problemas envolvem não apenas ações, mas também renda fixa.
Analistas e participantes do mercado apontam o domínio da B3 na maioria das classes de ativos no Brasil como um dos fatores que contribuem para o problema.
“Em um monopólio, as firmas têm menos incentivos para melhorar e, sem essa pressão competitiva, as mudanças tendem a acontecer mais lentamente, e o mercado pode se tornar complacente”, disse Fernando Siqueira, chefe de pesquisa da Eleven Financial. “Mais competição é sempre algo positivo.”
Na manhã de 31 de julho, problemas técnicos na B3 interromperam quase todos os fluxos de dados em São Paulo por mais de três horas. O momento foi especialmente difícil para traders e investidores que precisavam fechar os livros monetários e rebalancear suas carteiras no fim do mês.
Foi também a segunda grande interrupção a atingir a B3 em um ano, depois de uma falha de menor escala em agosto passado, levantando novamente questionamentos sobre se a bolsa está vulnerável à entrada de concorrentes em alguns de seus negócios.
As ações da B3 caíram nesta semana, recuando mais do que o índice de referência Ibovespa. A bolsa afirmou em comunicado que qualquer falha “que afete a previsibilidade de seus serviços é tratada prontamente, com a mais alta prioridade e um forte senso de responsabilidade”, para solucionar os problemas apontados pelos clientes.
Seu ambiente de negociação é mais complexo e abrangente do que sistemas semelhantes em outros países, pois integra compensação, liquidação e gerenciamento de riscos para mercados de ações, empréstimo de ativos e derivativos, afirmou a B3. Segundo a firma, essa estrutura aumenta a eficiência para os participantes do mercado.
Novos participantes
Para potenciais concorrentes, as barreiras à entrada são elevadas devido à influência da B3 em mercados que incluem ações, câmbio e contratos futuros de juros, além da maioria dos aspectos de negociação, compensação e serviços de depósito centralizado.
A companhia, que divulga seu balanço do segundo trimestre na terça-feira, se define como “a única bolsa de valores, commodities e futuros do Brasil e a principal bolsa da América Latina”. A B3 assumiu seu formato atual em 2017, quando a operadora de bolsas BM&F Bovespa S.A. se fundiu com a Cetip. O negócio reuniu os mercados de ações, renda fixa e balcão sob a mesma estrutura.
Algumas firmas estão tentando entrar em mercados atualmente dominados pela B3, depois que uma mudança regulatória em 2022 estabeleceu diretrizes claras para que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) autorizasse novas bolsas.
A Base Exchange, firma do Rio de Janeiro que conta com o apoio da Mubadala Capital, de Abu Dhabi, busca lançar uma nova bolsa de valores. Já a A5X, liderada em parte por ex-executivos da B3, planeja criar uma bolsa de derivativos. Ambas esperam iniciar as operações em 2027.
A B3 “há muito tempo opera em um ambiente altamente competitivo, com fortes capacidades técnicas e operacionais para navegar por mercados complexos”, afirmou a companhia em comunicado na sexta-feira, acrescentando que compete globalmente com as principais bolsas do mundo por negócios, como emissores.
Segundo a firma, seus investimentos não têm como objetivo impedir que outros participantes do mercado se diferenciem, mas garantir que a B3 continue inovando.
Questionamentos sobre a falha
Uma semana após a interrupção ter paralisado quase todas as negociações no mercado brasileiro, reduzindo os volumes em mais da metade em alguns dos ativos mais líquidos, poucos detalhes surgiram sobre o que aconteceu. A B3 afirmou que teve problemas para processar dados após o pregão anterior, o que a levou a adiar a abertura do mercado no dia seguinte.
Embora a causa da interrupção ainda seja desconhecida, ela resultou de uma combinação de problemas no processamento de determinadas operações e de uma falha mais ampla no sistema, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto, que falou sob condição de anonimato. Internamente, a B3 classificou o episódio de 31 de julho como sem precedentes, disse a fonte.
Em agosto de 2025, o índice de ações Ibovespa abriu mais de três horas após o início regular do pregão, e a B3 atribuiu o atraso a um problema técnico. Algo semelhante ocorreu em 2021, quando problemas na conexão entre sua plataforma de negociação e a câmara de compensação atrasaram o processamento pós-negociação, segundo relatos da imprensa local.
As interrupções têm um custo. Em 31 de julho — uma sessão de fim de mês que normalmente seria particularmente movimentada — foram negociados apenas 13,6 milhões de contratos de derivativos, menos da metade da média diária de julho. O volume negociado em ações também ficou abaixo da média do mês, segundo dados da própria bolsa.
Enquanto isso, potenciais novos participantes buscam ganhar espaço. A A5X, que tem cerca de 200 funcionários e um escritório movimentado próximo à Faria Lima, em São Paulo, aguarda autorização do Banco Central para começar a testar os sistemas de sua planejada bolsa de derivativos.
A firma espera estabelecer conexões com participantes do mercado até o próximo trimestre e pretende iniciar as operações em 2027, inicialmente oferecendo negociação de derivativos.
Há espaço para que o segmento passe por uma transformação semelhante à provocada pelas fintechs no setor bancário, disse Karel Luketic, cofundador e vice-presidente da A5X.
“Por mais robusta que seja a B3, vemos uma oportunidade para o mercado alcançar um novo patamar”, afirmou.
A Base Exchange, que também emprega cerca de 200 pessoas, afirma estar na fase final da obtenção das autorizações regulatórias para operar serviços de bolsa e compensação para ações, fundos imobiliários e fundos negociados em bolsa (ETFs). Suas operações também incluirão empréstimo de ações, segundo comunicado da firma, que acrescentou que seus sistemas estão prontos e que espera iniciar as operações no próximo ano.
Resultado trimestral
Analistas afirmam que os resultados da B3 na próxima semana, os primeiros sob o comando do novo CEO, Christian Egan, devem se beneficiar de volumes de negociação sólidos, embora a atividade com ações tenha esfriado em relação ao início deste ano.
As ações ainda superam o Ibovespa no acumulado do ano, mesmo após a queda desta semana. Até quinta-feira, o retorno dos papéis, incluindo dividendos, era de cerca de 16%, acima da alta de aproximadamente 9% do índice de referência, após fortes entradas de capital estrangeiro no primeiro trimestre.
Embora a interrupção da semana passada não altere a posição da companhia no mercado, ela “reforça a importância da execução tecnológica e da resiliência operacional à medida que o cenário competitivo evolui”, escreveram analistas do BTG Pactual liderados por Eduardo Rosman em relatório divulgado neste mês.
A companhia vem destinando cerca de 3% da receita anual à tecnologia nos últimos anos, mostram as demonstrações financeiras. O percentual, que inclui gastos com hardware, equipamentos, software e projetos, caiu de um pico de 5% no início da década.
Em comunicado, a B3 afirmou que os investimentos de capital, isoladamente, não são a melhor métrica para medir os gastos com infraestrutura, porque “uma parcela significativa” de seus investimentos é contabilizada como despesa operacional. Segundo a B3, os investimentos cresceram para cerca de 9,6% da receita no ano passado, ante 8,5% em 2021.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Bloomberg