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Além da fibra óptica: oferta de chips de celular aponta nova fase de provedores de internet

Há dois caminhos óbvios para uma provedora independente de internet banda larga (ISP, em inglês) no Brasil em 2026: ser comprada por Vivo, Claro ou TIM, uma das três grandes operadoras, ou virar compradora dos pequenos ISPs do interior.

A Vero, quarta maior firma de fibra óptica do país, escolheu uma terceira via. Em vez de pagar prêmio para crescer ou aceitar prêmio para sair do negócio, a companhia controlada pelas gestoras Vinci Compass e Warburg Pincus avalia que faz mais sentido rentabilizar o que já construiu e incorporar à oferta os “combos” adaptados aos novos tempos: chip de celular e pacote de streaming.

É uma estratégia que tem nome técnico – convergência – e uma matemática específica: a Vero tem 1,3 milhão de clientes, mas seus cabos de fibra óptica passam por 7,2 milhões de residências.

O racional é crescer com a venda em conjunto de serviços móveis, streaming e ofertas para pequenas e médias firmas para quem não é assinante mas já está ao alcance da infraestrutura da firma, diz Fabiano Ferreira, CEO da Vero, em conversa com o InvestNews.

O ponto de partida está no que sobra de rede. Em cidades onde a firma opera há mais de três anos, fora capitais e rede neutra, o take-up rate é de 26% – isso significa que praticamente três quartos das casas com fibra disponível seguem sem ser cliente da Vero.

Para uma companhia que cresceu por meio de aquisições, incluindo uma fusão com a Americanet em dezembro de 2023 e a consolidação de 18 CNPJs anteriores em uma única estrutura jurídica, o ativo mais relevante hoje não é a próxima cidade a ser conquistada: é ganhar espaço na casa que já tem fibra na porta e ninguém assinando dentro.

“Neste momento, eu não preciso de mais infraestrutura”, acrescenta Ferreira. “Mais infraestrutura vai vender mais, só que em uma fase de custo de capital mais caro; todo mundo tem que olhar para dentro de casa e ver como aproveitar os ativos já construídos.”

Aumento das vendas

A estratégia já trouxe os primeiros efeitos. Em janeiro de 2024, 17% dos clientes de banda larga da Vero tinham algum produto adicional, fosse streaming ou telefonia móvel. Quase dois anos depois, em dezembro do ano passado, o número saltou para 41%. 

A penetração do pacote de telefonia móvel sobre a base é de 11,7%, enquanto o streaming chegou a 37% dos assinantes. No caso do streaming, o produto funciona como uma venda mais complementar à banda larga. 

Por meio dos pacotes da Vero é possível acessar serviços de streaming como Globoplay, Max, Paramount+, Disney+, Telecine, Premiere e YouTube Premium, além da plataforma própria Vero Vídeo.

A combinação, diz Ferreira, reduz o custo percebido pelo cliente e “amarra” o assinante à banda larga, dificultando a migração para a concorrência.

Mas é na operação móvel que a Vero vem encontrando mais rentabilidade. A companhia opera como MVNO, sigla em inglês para operadora virtual, alugando a infraestrutura de antenas e frequências da TIM e oferecendo o serviço sob marca própria. Foi herança da Americanet, que já tinha o produto desde 2018.

No quarto trimestre de 2025, a Vero abocanhou 9,2% das adições líquidas de móvel pós-pago nas cidades onde atua, desempenho que, segundo Ferreira, equivale ao de uma grande operadora. 

Fechou o ano com 302 mil linhas ativas, alta de 27,7% sobre 2024. Metade dos novos clientes que assinam a Vero hoje já entra com móvel junto ao plano de fibra, contra 7,5% no início de 2024.

Fabiano Ferreira, CEO da Vero (Divulgação)

O ticket médio do cliente novo, o ARPU na linguagem do setor, já é maior que o da base existente, sinal de que a estratégia funciona não apenas para defender receita mas para puxá-la para cima. O ARPU consolidado fechou 2025 em R$ 115,02, alta de 5% em um ano.

O CEO da Vero lembra ainda que vender plano de celular exige pouco investimento próprio em infraestrutura, porque a Vero usa as antenas da TIM. Em compensação, paga aluguel pelo uso dessa rede. O resultado é que o serviço móvel pesa mais nos custos operacionais do dia a dia e menos nos investimentos de longo prazo.

“A margem da telefonia móvel é menor que a da banda larga, é fato”, afirma. “Mas, quando olho a última linha, que é o Ebitda menos investimentos, a margem do serviço móvel é parecida – e tende a ser até melhor – que a da banda larga sozinha.”

Os números da Vero ilustram a tese. Em 2025, a geração de caixa operacional somou R$ 455 milhões, alta de 27,7% sobre 2024. Como proporção da receita líquida, passou de 21,5% para 26,3%. Trata-se do dinheiro que sobra no caixa depois que a firma paga fornecedores, impostos e investimentos em rede.

Quanto maior esse número, mais autonomia a companhia tem para decidir o que fazer com o resultado: abater dívida, distribuir dividendos, comprar concorrentes ou simplesmente esperar que a janela de mercado melhore.

Consolidação da fibra óptica

Enquanto a Vero aposta em não comprar nem ser comprada, a primeira grande transação do setor em mais de dois anos estabelece um novo parâmetro de preço para o setor.

No fim de março, a Claro anunciou a compra da Desktop, maior ISP do interior de São Paulo, por um enterprise value (valor que já considera as dívidas) de R$ 4 bilhões.

As duas companhias são parecidas em escala. A Desktop tem 1,2 milhão de clientes, faturou R$ 1,2 bilhão em 2025 e crescia 8% ao ano. A Vero tem 1,36 milhão, faturou R$ 1,73 bilhão e cresceu 4%.

A operação saiu a 6,2 vezes o Ebitda, prêmio relevante sobre os 4,5 vezes em que a Desktop negociava na Bolsa. Foi a primeira grande transação envolvendo uma das três grandes operadoras e um ISP regional desde a fusão Vero-Americanet, anunciada em julho de 2023.

Para o CEO da Vero, qualquer movimento para novas aquisições vai passar por dois fatores: o preço dos ativos disponíveis e o custo do dinheiro para comprá-los. “Hoje, para a gente comprar uma firma de 50 mil clientes não faz muita diferença”, diz Ferreira. “Tem todo esse contexto: se tiver uma integração geográfica que faça sentido e o preço certo. Hoje não está a um preço justo.”

A janela em que a Vero comprou e cresceu, entre 2019 e 2023, fechou. A internet de fibra, que sustentou crescimento de dois dígitos por anos, perdeu tração, e a própria estrutura financeira da firma mostra que hoje a monetização dos ativos atuais faz mais sentido.

A companhia terminou 2025 com dívida líquida de R$ 2,82 bilhões e alavancagem de 3,06 vezes o Ebitda. É um patamar gerenciável para uma companhia cujas debêntures – 87% do passivo – têm prazo médio de 4,86 anos e a maioria é indexada ao IPCA. Mas é também uma estrutura que limita movimentos mais transformadores enquanto o custo de capital seguir alto.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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