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JBS faz primeiro aniversário em NY ajustando suas engrenagens para acessar um mercado de trilhões

A JBS completa neste sábado (13) seu primeiro aniversário como uma “firma americana”. Há um ano, a maior processadora de carnes do mundo passou a listar as suas ações na Bolsa de Nova York (NYSE), após 18 anos sendo negociada na B3 – em um IPO longínquo que, curiosamente, ajudou a bancar a aquisição da americana Swift, iniciando a incursão da família Batista no mercado dos Estados Unidos.

O grande objetivo da firma segue como aquele que foi anunciado mais de um ano atrás: ser incluído nos principais índices de negociação da bolsa americana e, com isso, alcançar o dinheiro dos fundos passivos, como os ETFs, que seguem tais benchmarks de mercado de forma automática. 

Esse fluxo adicional oferece potencial para que a JBS multiplique seu valor de mercado, uma vez que ainda é negociada com desconto frente a concorrentes, especialmente a Tyson Foods, que figura no S&P 500.

Só as três maiores gestoras passivas do mundo, Vanguard, BlackRock e State Street, somam cerca de US$ 2,6 trilhões em patrimônio com essa finalidade. Somando só os fundos que seguem o S&P 500, o mercado chega a US$ 17 trilhões.

Guilherme Cavalcanti, CFO da JBS desde janeiro de 2019, conta que nunca viveu tanto na ponte aérea entre Nova York e São Paulo, sede administrativa da companhia, como no último ano. O encontro com investidores internacionais cresceu no período, como esperado.

Se antes da listagem na NYSE a fatia de investidores estrangeiros que negociavam o papel da firma era de 72%, hoje está em 90%, sendo a maior parcela (74%) de americanos.

“Passamos a ter diariamente pedidos de investidores que nunca haviam interagido conosco para conversas e mais detalhes. Essa é a vantagem de um mercado mais pulverizado como o dos Estados Unidos”, explicou Cavalcanti em conversa com o InvestNews.

Diretoria e acionistas da JBS tocam o sino da Bolsa de Nova York em junho de 2025 (Divulgação)

Mas, para chegar ao Olimpo das grandes firmas americanas, ao lado de nomes como as big techs Apple, Microsoft, Alphabet e Nvidia, existe um grande trabalho de bastidor, sobretudo de apresentação de índices monetários que a JBS precisa seguir.

O principal deles é comprovar que mais da metade da receita é proveniente dos EUA e que exista uma diferença de pelo menos 20 pontos percentuais sobre o segundo maior mercado. Para isso, a JBS passou a desmembrar seus resultados nos EUA para dar visibilidade aos investidores.

Atualmente, 52% da receita anual de US$ 86,2 bilhões vem do mercado americano, com o Brasil na sequência, com 26%.

Embora esses percentuais possam parecer algo trivial, os números também passam a definir a estratégia de crescimento da companhia dos irmãos Batista.

Uma aquisição de firma em outro mercado, a depender do tamanho, pode desbalancear esse percentual e jogar contra o plano que busca acessar os grandes índices. “Eu brinco que, se fizer uma aquisição fora dos Estados Unidos, vou ter que fazer uma lá também”, prossegue o CFO.

Outra mudança, que já vai ocorrer a partir da divulgação dos resultados do segundo trimestre, previstos para agosto, é divulgar os balanços anuais e trimestrais e os fatos relevantes no mesmo prazo de firmas registradas nos EUA.

Como a companhia listada na NYSE tem sede fiscal na Holanda, a SEC (Securities and Exchange Commission, a CVM americana) permite prazos mais alongados para essas divulgações, mas, para acessar os grandes índices de ações, essa não é uma possibilidade.

Entrando nas carteiras

Os primeiros sinais de resultados da estratégia de acessar os grandes índices começaram a aparecer já no fim de maio, quando a JBS figurou na prévia do Russell 3000, índice de entrada da família Russell.

O principal, o Russell 1000, reúne as mil maiores firmas americanas por valor de mercado e é o mais observado pelos grandes fundos passivos.

A entrada no Russell 1000 é considerada uma questão de tempo, uma vez que a JBS avalia que está cumprindo todos os critérios para ingressar na carteira, sendo o valor de mercado o principal deles. Hoje a companhia tem market cap de US$ 13,1 bilhões.

Com o Russell 3000, o Citi estima uma demanda passiva imediata de US$ 210 milhões a 300 milhões, o equivalente hoje a quase três dias de negociação da JBS em Nova York. E projeta um fluxo monetário de US$ 1 bilhão a US$ 4 bilhões ao longo de um a dois anos, conforme ETFs e gestores normalizem a posição.

“A carteira do Russell 1000 é mais objetiva. Se você seguir os critérios deles, entra naturalmente. Já o S&P 500 é um pouco mais subjetivo: além de seguir os critérios de elegibilidade, eles consideram o setor econômico da firma e a consistência do desempenho de mercado”, prossegue Guilherme Cavalcanti.

Guilherme Cavalcanti, CFO da JBS (Divulgação)
Guilherme Cavalcanti, CFO da JBS: trabalho para entrar nos índices de ações nos EUA (Divulgação)

Pela metodologia, o S&P 500 exige valor de mercado total de no mínimo US$ 22,7 bilhões, ainda muito acima, portanto, da capitalização atual da JBS.

E há um segundo filtro de tamanho que pega a firma: o valor de mercado ajustado pelo capital em circulação precisa ser de pelo menos metade desse piso, cerca de US$ 11,35 bilhões. Como só um terço das ações da JBS está em circulação, esse float vale hoje perto de US$ 4,3 bilhões.

A dificuldade se dá, sobretudo, pela composição acionária da JBS. A J&F, holding da família Batista, detém cerca de 48% das ações, e o BNDESPar, outros 18,61%, fatias que não contam como capital livre no cálculo dos índices. Sobram cerca de 33% de papéis em circulação. “Nosso peso no índice poderia ser maior, mas a gente tem o free float mais limitado”, reconhece o CFO.

A decisão para o S&P 500 é de um comitê e geralmente leva de três a quatro anos após uma estreia na bolsa. Cavalcanti aposta em um atalho: o setor de consumo está sub-representado no S&P 500, com apenas 6% do índice. Sobraria, em tese, um espaço setorial para uma companhia de consumo grande como é a JBS.

Efeitos do primeiro ano

Enquanto a jornada pelos grandes índices prossegue, a JBS já consegue perceber a diferença de ser uma firma negociada no maior mercado do mundo. A liquidez das ações da firma quase triplicou, segundo cálculos do Citi, passando de cerca de US$ 37 milhões diários para US$ 115 milhões.

E houve uma primeira reprecificação. Antes da estreia na NYSE, conta o CFO, a JBS negociava a 4,5 vezes o lurco operacional (Ebitda) projetado para os 12 meses seguintes, em linha com as conterrâneas MBRF e Minerva. Hoje negocia com um múltiplo próximo ao da Pilgrim’s, sua subsidiária americana de frango, que sempre valeu mais por estar em um índice S&P, o 400.

O degrau que falta é a Tyson. A rival americana negocia a cerca de 7,5 vezes o Ebitda, uma vez e meio o múltiplo atual da JBS, embora o desempenho operacional seja inferior ao do grupo brasileiro.

“Em 95% do tempo, nós performamos melhor que eles no negócio de porco; 80% no de bife e 65% no de frango”, diz Cavalcanti.

A JBS faturou US$ 86 bilhões em 2025, contra US$ 54 bilhões da Tyson, gerou quase o dobro de Ebitda e cerca de quatro vezes o lucro líquido. Ainda assim, vale menos na bolsa: os citados US$ 13,5 bilhões, contra cerca de US$ 20 bilhões da americana – uma cortesia dos grandes índices.

A Vanguard, maior gestora passiva do mundo, tinha US$ 100 milhões em ações da JBS antes da listagem na NYSE. Depois, vendeu e reduziu para US$ 26 milhões, porque a JBS saiu dos índices brasileiros e ainda não entrou nos americanos. Na Tyson, a mesma Vanguard tem US$ 2,4 bilhões alocados. Cem vezes mais, por causa justamente da presença no S&P 500.

Enquanto o prêmio na ação não vem, a listagem na NYSE trouxe outra vantagem relevante.

O custo da dívida despencou. O spread dos títulos de dez anos da JBS em relação aos da Tyson era de 3 pontos percentuais em 2019, conta Cavalcanti, e caiu para 0,2 ponto com a negociação da ação na bolsa americana. Em abril, a JBS passou a ser reconhecida pela SEC como emissor frequente bem conhecido (WKSI, na sigla em inglês), o que agiliza novas captações.

Diretoria da JBS toca o sino da NYSE, a Bolsa de Nova York
Diretoria e acionistas da JBS no dia de estreia na Bolsa de Nova York em junho de 2025 (Divulgação)

Por outro lado, o desafio do valor de mercado é grande, especialmente pela crise do gado nos Estados Unidos, que vem afetando as margens da JBS em seu principal mercado.

No primeiro trimestre deste ano, o negócio de carne bovina nos EUA registrou prejuízo operacional. O lucro consolidado caiu 56%, para US$ 221 milhões. A raiz está no boi. O rebanho americano está escasso, e isso encareceu o gado mais rapidamente do que subiu o preço da carne.

Wesley Batista Filho, presidente-executivo da JBS USA, não suavizou o quadro na teleconferência de resultados. Disse esperar que 2026 seja “um ano mais desafiador que 2025” e classificou janeiro e fevereiro como um dos períodos “mais desafiadores que já vimos na história”.

Após o balanço, os papéis da JBS saíram de seu maior patamar desde a listagem, na casa dos US$ 18 por ação, para voltarem a ser negociados perto dos US$ 12, abaixo até dos US$ 13,87 de um ano atrás.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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