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O que o investimento da Berkshire Hathaway na Macy’s diz sobre o futuro do varejo

Warren Buffett e o falecido vice-presidente da Berkshire Hathaway, Charlie Munger, ficaram famosos por lamentar a decisão de comprar uma loja de departamentos no passado. Então, o que a Macy’s está fazendo na carteira da Berkshire?

As ações da Macy’s acumulam alta de cerca de 18% desde 15 de maio, quando a Berkshire Hathaway divulgou sua participação na companhia. Os papéis avançaram novamente na quarta-feira, mesmo em um mercado em queda, após a divulgação de resultados fortes.

A posição na Macy’s é pequena em comparação com as duas grandes aquisições anunciadas recentemente por Greg Abel, novo CEO da Berkshire. Ainda assim, a compra de cerca de US$ 55 milhões — com base no preço das ações na data do registro — representava aproximadamente 1% do valor de mercado reduzido da varejista.

A aposta da Berkshire parece estar baseada em dois fatores: um número cada vez menor de concorrentes e uma nova liderança confiante, focada em melhorar a experiência nas lojas.

Erros em investimentos

O histórico da Berkshire no varejo é misto. O próprio Buffett costuma citar erros em investimentos no setor, incluindo a compra de uma loja de departamentos em Baltimore em 1966, que ele considera um de seus maiores equívocos.

Apesar disso, o conglomerado nunca abandonou completamente o segmento. A Berkshire é a principal acionista da Kroger, com participação de 8%, segundo a FactSet. Entre os ativos privados do grupo estão a See’s Candies, redes de móveis para casa e cadeias de joalherias.

A Macy’s reúne várias características que costumam atrair a Berkshire. Trata-se de uma ação barata em um setor pressionado por todos os lados, desde varejistas de desconto até marcas de fast fashion e especialistas como Aritzia. Redes outrora icônicas, como Sears e J.C. Penney, desapareceram ou perderam relevância. Mais recentemente, a Saks Global entrou para a lista de firmas em dificuldades.

Dentro desse universo cada vez menor, a Macy’s continua sendo a maior rede, com mais de US$ 20 bilhões em receita anual. Quando a Berkshire revelou sua participação, as ações eram negociadas próximas ao valor patrimonial da firma. Mesmo após a alta recente, os papéis continuam relativamente baratos, cotados a 1,2 vez o valor patrimonial e a 10 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses.

Embora a receita total não esteja crescendo rapidamente, o fluxo de caixa livre da companhia aumentou em dois dígitos nos últimos dois anos e deve avançar mais 11% neste ano, segundo analistas consultados pela Visible Alpha. O dividend yield de 3,4% também é considerado atrativo.

Lojas próprias

Outro fator importante é o patrimônio imobiliário da firma. A Macy’s é proprietária integral ou detém contratos de arrendamento do terreno em quase metade de suas lojas. A CoStar, firma americana especializada em dados e análises do mercado imobiliário comercial, estimou anteriormente que esses imóveis valem entre US$ 7,9 bilhões e US$ 10,5 bilhões, bem acima do atual valor de mercado da companhia, de cerca de US$ 5,7 bilhões.

O desafio é transformar esses ativos em caixa, algo que diversos investidores ativistas tentaram sem grande sucesso. Ainda assim, a firma espera levantar recursos com a venda de lojas menos rentáveis e já arrecadou cerca de US$ 400 milhões dessa forma.

Mais importante para os investidores, porém, é a liderança de Tony Spring, que assumiu o comando da firma em 2024. Ele promoveu mudanças no mix de produtos, reforçou o número de funcionários em áreas estratégicas, como calçados, bolsas e provadores, e ampliou a realização de eventos nas lojas.

Segundo Blake Anderson, analista da Jefferies, Spring está fortemente focado na experiência do consumidor e quer resgatar o modelo tradicional das lojas de departamento, baseado em atendimento ao cliente.

Os resultados sugerem que a estratégia está funcionando. A Macy’s registrou seu quarto trimestre consecutivo de crescimento nas vendas comparáveis, sinalizando estabilização do negócio. A divisão de luxo Bloomingdale’s tem sido um destaque especial, com crescimento de 10% nas vendas comparáveis nos dois últimos trimestres, mesmo em um cenário difícil para o mercado de luxo.

A rede também pode se beneficiar das dificuldades enfrentadas pela Saks, que está fechando cerca de 30% das lojas das bandeiras Saks Fifth Avenue e Neiman Marcus. Segundo a Jefferies, a Bloomingdale’s é a varejista de departamento com maior sobreposição geográfica com essas redes.

Geração Z

A principal vantagem competitiva da Macy’s pode estar justamente na experiência de compra física, que voltou a ganhar força. Shoppings e lojas presenciais têm atraído consumidores da Geração Z, que passaram parte da juventude em isolamento durante a pandemia.

Ao mesmo tempo, muitos varejistas reduziram equipes para cortar custos e direcionaram funcionários para atender pedidos online. Após a queda observada durante a pandemia, o número de trabalhadores no varejo americano ainda permanece abaixo dos níveis de 2019, segundo dados do Departamento do Trabalho. A Macy’s seguiu o caminho oposto: o número de funcionários por loja aumentou 14% desde que Tony Spring assumiu o comando.

Buffett já elogiou a capacidade da Costco — uma das firmas favoritas de Charlie Munger — de “surpreender e encantar” seus clientes. A nova gestão da Macy’s parece estar demonstrando que isso ainda é possível no segmento de lojas de departamento.

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Autor: Karla Mamona

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